7 de dezembro de 2018

Internet analytics are a sham



Analytics dão às pessoas a sensação de que elas têm um controle muito grande sobre o próprio sucesso, quando a verdade é que o que o determina é uma série de fatores fora do controle do autor.

Produtores de vídeos para o Youtube, streamers, escritores, personalides do Twitter -- todos pensam que, com as ferramentas adequadas de visualização da audiência, com dados, vão conseguir prever quais os fatores preponderantes para o sucesso. Os números dão uma ideia de objetividade, de preditividade óbvia: mas são apenas a faceta visualizável de um sucesso que, até onde sabemos, pode ser once in a lifetime.

Não só: mesmo com essa capacidade, que vão conseguir reproduzir infinitamente os fatores que levaram ao sucesso inicial, como se a capacidade humana de replicar os fatores sensíveis que levam ao spread de algo fosse infinita, ou que a audiência vai sempre buscar as mesmas características que levaram ao sucesso no princípio.

Existe uma indústria inteira baseada nessa ideia: social media, onde eu já trabalhei. É requerido de você que publique relatórios mensais, semestrais, anuais, sempre mostrando "crescimento" de alguma forma em indicadores como likes, visualizações, minutos assistidos, permanência na página, etc.

Sinto que a busca pela bala de prata é perpétua e que inevitavelmente termina numa conclusão simples, que apenas se tivesse sido seguida poderia ter mudado todo o rumo do sucesso do conteúdo na internet. O marketing pago não foi suficiente? Pôsters não foram colocados em locais apropriados? O thumbnail não funcionou corretamente? Não houve uma mensagem chamativa o suficiente?

Hoje em dia, estou mais confortável com o fato de que quase tudo está fora das minhas mãos. A única coisa que eu, de fato, controlo é o quanto eu escrevo. O gap entre as mentes das pessoas é um obstáculo insuperável, mas com iterações suficientes, nós nos aproximamos. Ser prolífico é a única resposta.

Mais um inacreditável post sobre Death Note



Não me lembro se no piloto ou se na própria série (imagino que fosse no piloto), mas em algum momento de Death Note, o personagem principal escreve o nome de alguém no caderno com o caveat de que a pessoa teria uma "morte pacífica". Era possível descrever como a vítima morreria no caderno e esse sempre foi um bit específico de nonsense da história que adicionava um pouco de sabor. A regra permanece na versão final de Death Note, onde há momentos em que Light escreve que alguém será morto por atropelamento, forçando a pessoa a atravessar a rua.

A ideia de que o Death Note não é só uma máquina de ataque exógena, mas algo que se aloja no cérebro da vítima é interessante.

Imagina se, canonicamente, o Death Note fosse uma ferramenta de controle mental do Projeto MKULTRA? Afinal, esse é o maior poder do caderno. Talvez as mortes fossem só um efeito colateral do uso de psicotrópicos.

E o shinigami acoplado ao caderno? Outra alucinação. O Death Note, afinal, era só mais uma obra de arte expressionista financiada pela CIA.

Mas, de fato, o fator mais solto em Death Note era a tal morte pacífica, porque não apenas o caderno poderia te atacar de alguma forma, mesmo que sobrenaturalmente, mas poderia modificar a própria estrutura da realidade, cessando sua vida sem dor, sem doença, sem trauma. Um processo de senescência infinito. Talvez o dono do caderno pudesse escrever sobre uma próxima vítima: "Ele desaparecerá do universo sem deixar rastros, sua matéria subtraída do tecido do real para sempre".

4 de dezembro de 2018

Agência



Sou um maximalista de agência.

Me parece claro que o cérebro humano, por existir no tempo, formata narrativas que tentam coerenciar imagens díspares do self. Essas imagens coalescem e formam um todo mais ou menos rígido, que é o que nós somos. Não o que nós somos em determinado momento, mas o que nós somos em essência. O eu platônico.

Claro que esse é um funcionamento desotimizado da máquina humana, mas frequentemente nós não conseguimos escapar dessas histórias autoimpostas. O que sou eu? O que eu (um eu dettached) faria nesta situação? E então nós seguimos, como mindless drones, para uma conclusão qualquer imposta pelas auto-histórias.

Vocé é mau e por isso faz coisas ruins ou é mau porque faz coisas ruins? A primeira opção é uma escolha conveniente, tira sua agência, sua escolha, seu poder. É uma narrativa autolimitante. A moralidade aplicada ao passado é uma parábola, não uma bússola para a ação; você não vai melhorar só porque sabe que é mau e já agiu mal no passado.

Talvez o problema seja a limitação temporal a que estamos submetidos neste vale de lágrimas. Mas se é impossível escapar de narrativas porque somos indivíduos discretos com histórias particulares, a resposta é abandonar nossos corpos.

Com o upload da mente para o hivemind, podemos viver apenas com uma culpa coletiva, católica, dispersa, que jamais será capaz de nos limitar. Agência total.

Isekai



Quando a Globo ficou tão obviamente flanderizada?

Em algum momento do passado, parei de assistir TV, porque eu imagino que é o que todo o mundo tenha coletivamente concordado em fazer. Agora, para minha surpesa, em vez de canais sortidos do grupo Trending do Youtube, os aparelhos de televisão da academia passam novelas da Globo enquanto eu estou fazendo meu (muito curto) cardio. Sempre sem som, com closed captions.

Via a novela das 6h, Espelho da Vida. Nela, uma mulher chamou um homem para uma sala e o seduziu. Quando os dois se beijavam, apareceu uma outra mulher, que claramente tinha um relacionamento prévio com o homem que se deixou levar pelos encantos de uma outra. Agora que sua parceira entrava em cena, ela já começava a falar, de acordo com as legendas providas com algum delay: "Foi para isso que você me chamou aqui, Fulano? Seu cafajeste, etc, etc".

Então o cara foi atrás da mulher dizendo: "Não é isso que você está pensando! Calma, Sicrana!"

E a sedutora ficou para trás, admirando sua maquinação bem sucedida, com um sorriso no rosto. Talvez ela tenha esfregado as mãos, mas eu não pude comprovar. Ela estava muito satisfeita.

Nesse interim, a sensação constante é que estamos numa low power simulation, como o Jerry ouvindo Human Music.

É como se a dramaturgia Globo ideal tivesse sido extraída do meu cérebro e transportada para o universo real. Uma caricatura total do que significa uma novela.

Todas as falas sempre montadas com face shots alternados, de forma que a geografia do local onde os personagens se encontram sempre pareça um tanto confusa. Como se Hermes e Renato tivessem sido chamados pra reencenar O Proxeneta perpetuamente na rede líder nacional.

Tem algo de errado. Essa não pode ser aa real Globo.

Estou com medo que todas pessoas no meu mundo tenham sido substituídas por doppelgangers agora. Quem é real? São todos impostores? Isso não pode ser a síndrome de Capgras porque é real.

2 de dezembro de 2018

Capitalismo como sistema biomimético



Existe algo de fundamentalmente galbraithiano no fato de que a aceitação e a respeitabilidade de alguma atividade vêm com sua produção corporativa, que normalmente escova todo caos que escorre pelo meio. Afinal, as grandes corporações, assim como o grande público, são alérgicos à natureza capitalista de qualquer atividade. Antes de passar na TV, é necessário esconder diligentemente qualquer sinal de dinheiro que não circule pelos canais autorizados. Assim, MMA e jogos de luta, que são essencialmente prizefighting, se tornam campeonatos esterilizados. Morfados em TV programming, sua importância deriva do fato de que aparecem num grande canal -- não porque são atividades que, em si, importam para alguém.

Circula a ideia de que o capitalismo sem freios se manifesta, necessariamente, num sistema parecido com o atual, em que basicamente tudo tem que passar por grandes tubos corporativos para se manter vivo. Mas isso parece muito mais um capitalismo regulado, burocratizado e carimbado, certo?

Grandes corporações, afinal, são grandes forças disciplinadoras do mundo atual, achatando toda a complexidade, escovando todo o sinal de complexidade. Autores de esquerda gostam de comparar o capitalismo a um mecanismo, uma força impessoalizada de processamento de valores; e, no caso da sociedade corporativa, suspeito que estejam certos.

Mas, o capitalismo, quando se manifesta sem freio, é um vetor de complexidade fractal, conectividade crescente. Se manifesta menos como algo parecido como máquina e mais como um tecido orgânico. Se Apple, Google, Amazon e os oligopólios de mídia são tecnomecânicos, o capitalismo total é biomimético.

1 de dezembro de 2018

Monetized into meaninglessness



O final do documentário Fighting in the Age of Loneliness (doravante FitAoL), depois de uma resenha geralmente correta sobre o estado do MMA em 2018, traz a seguinte passagem:
Fighting has rid itself from so much of its magic. It does not transcend the world anymore. It is our world. If you somehow made it to the end of this and you're not an MMA fan, I hope you take away one thing from all of this: This will happen to everything that you love. Nothing you like will remain untouched, and it will get further and further monetized into meaninglessness.
Essa passagem martelou na minha cabeça por algum tempo, principalmente porque, no mesmo dia, vi outro documentário: Stay Free: The Team Spooky Story. Para meu hipotético leitor que não conhece o Team Spooky, é o maior canal de transmissão de torneios de jogos de luta. E essas são duas coisas que eu amo: MMA e jogos de luta. É difícil até diferenciar as duas coisas na minha cabeça; são fight cards.

A pessoa Spooky, Victor Fontanez, era só um cara qualquer que decidiu fazer torneios de Melty Blood na calçada em Nova York e gravar os vídeos para colocar na internet. Eventualmente, ele abriu um canal no Justin.tv e, mais tarde, no Twitch. Como o próprio Spooky era respeitado na Fighting Game Community, ele começou a fazer torneios cada vez maiores.

Até que, em 2010, nas finais de Super Street Fighter IV no EVO, o maior torneio da FGC, o stream oficial caiu. A decepção generalizada levou a uma campanha para que o Spooky assumisse as transmissões do EVO.

Parte interessante dessa história é que, com status ascendente, o EVO seria transmitido pela IGN. O dilema era: nós monetizamos nosso torneio into meaninglessness ou damos a transmissão para esse cara qualquer que jogava Melty na calçada?

Spooky fez o stream.

*

O MMA em 2018 é tão absolutamente corporativo, amorfo, polido. É um produto perfeitamente degustável e descartável. Todo o teatro de Conor McGregor cheira a ensaiado, a roteirizado, ensaboado, scripted com tropes enfadonhos. Suas brigas fora do cage soam premeditadas. E os stakes são baixíssimos. Conor McGregor nunca vai ser preso, não importa quantos carrinhos de mala ele arremessar em ônibus de outras pessoas.

O UFC está na TV, com um schedule muito previsível: se uma luta acabar muito cedo, nós temos 15 minutos de filler com pundits usando gravatas nas mesas decoradas com uma quantidade exorbitante de LED. Todos os nossos atletas são uniformizados e fazem testes antidoping aleatórios.

Lembra do Pride? Com lutas com figuras burlescas como Zuluzinho e Hong-Man Choi, e a run absurda de Maurício Shogun Rua no Pride GP de 2005, que jamais vai ser superada. Um evento quirky, feito por pessoas quirky, ocasionalmente pagas pela máfia japonesa. Isso nunca mais vai acontecer.

Com um sorriso no rosto, o UFC agora é um produto perfeito. O caminho natural, aponta FitAoL, é adotar a exclamação do Jeb Bush:



*

Nós presumimos que esse é o rumo inevitável do capitalismo: você tem algo de valor potencial, que se transforma em hobby, cresce em adeptos, recebe dinheiro e se reempacota como produto. No caminho, você perde toda a estranheza original da comunidade em prol da acessibilidade total.

O MMA, um outlet de pessoas esquisitas, que seguiram rumos estranhos e eram frequentemente pagas em maletas de dinheiro por yakuza no Japão para lutar, agora é um esporte perfeitamente pasteurizado. Em Stay Free, Seth Killian diz que a estratégia principal para mostrar que torneios de jogos de luta importavam era colocar cada vez mais dinheiro.

Dana White sonhava com a uniformidade e a respeitabilidade que as grandes redes de TV dariam ao UFC. Seriam comparáveis aos esportes veneráveis: futebol americano, basquete. Commodities estabelecidas.

É a estratégia de vendas do capitalismo corporativo -- a única que ele conhece. O leitor pode observar que o dinheiro entra em atividades de todo tipo de maneira: em torneios de Muay Thai, onde as apostas alimentam todo o negócio. Nos prize pots de jogos de luta. Em lutas de MMA, o sujeito faz uma tatuagem com uma marca ou raspa os pelos do peito para fazer propaganda de outra. O short de um lutador traz a marca Condom Depot.

Por todos os nichos culturais, o dinheiro flui de forma caótica.

O capitalismo corporativo se esforça para disciplinar esse fluxo. Elas secam todos os elementos caóticos e eminentemente atraentes à cultura interna do nicho para sacrificá-los no altar da Presentation. O salto em production values de qualquer coisa sempre é acompanhado, eu observo, pela destruição de qualquer tipo de personalidade. O dinheiro que flui no seu torneio é invisível, ilegível para entidades como o IGN ou a ESPN. Por isso, a torneira deles é sempre fechada.

Não precisa ser assim. É possível escolher o Team Spooky em vez do IGN.

A produção de mídia em 2018 é avessa à uniformidade e refratária à respeitabilidade. É possível abraçar o aleatório e, com isso, monetize the things you love into meaningfulness.

30 de novembro de 2018

Elogio do colapso



Em meus anos de leituras libertárias mais diligentes, eu gostava muito de uma citação que era mais ou menos assim: "O governo está sempre fazendo reformas. Reforma da educação. Reforma da previdência. Reforma tributária. Reforma do sistema de saúde. O que isso implica é que o governo não foi capaz de acertar nas primeiras cinquenta vezes". Pode ser que eu tenha fabricado essa memória,´mas sempre imaginei que era uma quote do P.J. O'Rourke. Com quase 10 minutos completos de apuração no Google, aparentemente a citação inexiste, ou talvez eu tenha usado as palavras-chave erradas; de qualquer forma, continuo a achar muito espirituoso esse P.J. O'Rourke fabricado pela minha mente.

Porque, realmente, o governo está permanentemente em estado de reforma. Scratch that. O governo permanentemente está em estado de necessidade de reforma. Políticos e pundits que orbitam políticos gostam de asseverar a necessidade das reformas; se apenas elas fossem feitas, o estado seria bom. A falta de reformas, não sua natureza decadente intrínseca, destrói a viabilidade estatal.

*

Lembro vivamente que Obama foi eleito com a promessa de unir a nação americana fraturada pela crise econômica. Em 2002, Lula era alçado como putativa segunda chegada de Jesus Cristo. Brasileiros eram educados por todos os lados que Lula, como Reinhard von Lohengramm, uniria uma nação dilacerada, com marcas profundas do passado. Mesmo hoje em dia, eleito Bolsonaro, que nos asseguram ser tão infinitamente diferente, uma quebra ontológica com o que define a presidencialidade, ele nos garante que unirá o país.

Como reformas, outro business perpétuo do governo é reparar divisões, a promessa de união.

O que me frustra nesse cenário é a baixa velocidade do crescimento da complexidade social e do declínio entrópico da união. É decepcionante, pra mim, que o discurso de unir um país inteiro ainda tenha qualquer relevância -- que seja ainda possível achatar inúmeras divergências irreconciliáveis para mais uma vez, como sempre, tentar um novo pacto nacional.

*

A direita venceu, o Olavo de Carvalho indicou ministros, os alunos dele se ajeitam suas novas posições de conforto, com linhas diretas ao WhatsApp dos filhos do presidente eleito. No entanto, continuam com seu chorinho, seu squawking online, se sentindo atacados por todas as instituições respeitáveis. OdeC foi entrevistado pelo Estado de S. Paulo e ameaçou processar a jornalista. A horda de retardados que o segue achou muito foda, botou a jornalistinha no lugar dela, iradíssimo.

OdeC, assim como a maior parte da direita, já conseguiram construir uma rede de comunicação própria. Fazem suas próprias palestras, seus eventos, têm suas redes de contas no Twitter pra ficar compartilhando ininterruptamente notícias de grandes jornais e falando sobre como são ruins.

Isso é outra coisa que me frustra: se você tem um sistema paralelo inteiro, por que você tem que implorar a aceitação dos old powers? Não eram eles os inimigos? Quem lê o Estado de S. Paulo?

Novamente, as fraturas e divisões não são rápidas o suficiente pra evitar o surgimento de narrativas unificadoras. Old media, como Estado, Folha, Globo, é relíquia de uma unidade que inexiste.

Nem estou aqui pra dizer que o OdeC é tão superior a esses jornais. Não. Meu ponto é que ele, e seu círculo, no final, querem só aceitação, união, um compartilhamento total de seus boring ass values, como velhos esquerdistas urbanos. But that ship has sailed.

*

Talvez as mídias sociais tenham nos achatado e nos passado a falsa ideia de que existe uma unidade pra ser mantida. Que, com uma tabela de discurso que dá igual peso pra todos os entrantes, existe uma igualdade essencial na comunicação que nos une.

Vivemos numa utopia de comunicação total and we've achieved nothing. Minha utopia não tem comunicação, tem pontos de quebra que tendem ao infinito. Sem união, sem reformas. Principalmente sem lágrimas transbordantes porque jornalistas não leram meus livros. Sistemas políticos open source que podem ser forked e fundidos reiteradamente.

Não dá pra esperar grandes rupturas de um país cuja melhor ideia pra sair do marasmo sufocante foi eleger um militar. Mas eu posso torcer por um colapso alguns nanossegundos mais rápido dessa vez.

28 de novembro de 2018

Os melhores jogos de todos os tempos são: Ocarina of Time, Super Mario Bros... e você já pode completar os outros oito!



Abaixo, para conveniência dos escritores da internet, produzi algumas listas perfeitamente genéricas de "Melhores [mídias] de todos os tempos". Para usar em seu site e deixar seu editor contente, você só precisa produzir os blurbs descritivos! Complete seu próximo listicle ou slideshow com estes pre-made assets!

Não são meus favoritos, são listas que mostram que você leu outras listas de Best of e pode entrar em conversas culturais com naturalidade e desenvoltura.

Conhecendo estes nomes, você maximiza seu standing na comunidade cultural humana, ao mesmo tempo em que evita qualquer percepção aprofundada sobre sua personalidade, garantindo que você é uma pessoa equilibrada e bem ajustada o suficiente pra não ter se aprofundado no fandom ou adotado a mídia como hobby.

Melhores [HQs e Graphic Novels] de Todos os Tempos

1. Maus
2. Watchmen
3. The Killing Joke
4. The Dark Knight Returns
5. X-Men: God Loves, Man Kills
6. All Star Superman
7. Saga of the Swamp Thing
8. Persépolis
9. Kingdom Come
10. Ghost World

Melhores [Animes] de Todos os Tempos

1. Akira
2. Cowboy Bebop
3. Neon Genesis Evangelion
4. Astro Boy
5. A viagem de Chihiro
6. Kimi no na wa
7. Fullmetal Alchemist: Brotherhood
8. Death Note
9. Dragon Ball Z
10. Ginga Eiyuu Densetsu

Melhores [Livros Sci-Fi] de Todos os Tempos

1. Dune
2. Neuromancer
3. The Time Machine
4. Foundation
5. Do Androids Dream of Electric Sheep?
6. The Left Hand of Darkness
7. Stranger in a Strange Land
8. Hitchhiker's Guide to the Galaxy
9. Ender's Game
10. The Forever War

Melhores [Mangás] de Todos os Tempos

1. Nausicaä
2. Uzumaki
3. Lobo Solitário
4. 20th Century Boys
5. Akira
6. Berserk
7. Nana
8. Vagabond
9. One Piece
10. Monster

27 de novembro de 2018

Tenho sido terrível em preservar o meu próprio trabalho



Uma das passagens literárias que permaneceram comigo ao longo dos anos é esta, de Thomas Paine em Age of Reason, parte II, seção 18 (p. 137, nesta edição):
We have not in all cases the same form, nor in any case the same matter that composed our bodies twenty or thirty years ago; and yet we are conscious of being the same persons. Even legs and arms, which make up almost half the human frame, are not necessary to the consciousness of existence. These may be lost or taken away, and the full consciousness of existence remain; and were their place supplied by wings, or other appendages, we cannot conceive that it would alter our consciousness of existence. In short, we know not how much, or rather how little, of our composition it is, and how exquisitely fine that little is, that creates in us this consciousness of existence; and all beyond that is like the pulp of a peach, distinct and separate from the vegetative speck in the kernel.

Who can say by what exceedingly fine action of fine matter it is that a thought is produced in what we call the mind? And yet that thought when produced, as I now produce the thought I am writing, is capable of becoming immortal, and is the only production of man that has that capacity.

Statues of brass or marble will perish; and statues made in imitation of them are not the same statues, nor the same workmanship, any more than the copy of a picture is the same picture. But print and reprint a thought a thousand times over, and that with materials of any kind -- carve it in wood or engrave it on stone, the thought is eternally and identically the same thought in every case. It has a capacity of unimpaired existence, unaffected by change of matter, and is essentially distinct and of a nature different from every thing else that we know or can conceive. If, then, the thing produced has in itself a capacity of being immortal, it is more than a token that the power that produced it, which is the self-same thing as consciousness of existence, can be immortal also; and that as independently of the matter it was first connected with, as the thought is of the printing or writing it first appeared in. The one idea is not more difficult to believe than the other, and we can see that one is true.
Desde que eu li esse trecho, há vários anos, ele acaba reaparecendo na minha cabeça vez ou outra.

Entrei hoje num rabbit hole de arquivismo. Comecei a ver palestras do Jason Scott, responsável pelo Textfiles.com e um dos fundadores do Archive Team, um obcecado pela preservação da memória digital.

Ao longo das últimas duas semanas, movido pelo desafio autoimposto de escrever todos os dias, descobri que ainda me importo com este blog e com as coisas que eu escrevi nos últimos, o quê?, 15 anos a esta altura? Textos antigos meus são constrangedores e, na maior parte do tempo, eu passo a odiar o que eu escrevi 2 minutos depois de apertar o botão Publish; mas eu consigo apreciar sua existência, sua importância contextual, sua relevância como pedra fundante do que eu me tornei e do que este blog se tornou.

E, afinal, como mostra Paine, há uma transcendentalidade em escrever, gerar uma ideia e passá-la para frente. E, talvez ao envelhecer, embora eu ainda esteja longe do meu primeiro enfarte (fingers crossed), eu busque essa palpabilidade. Existe algo aqui de real importância? Eu não sei e talvez nunca tenha distanciamento suficiente para descobrir -- mas é possível que sim.

Parei de dar importância para os little funny bits que eu postava aqui com o passar do tempo porque assumi responsabilidades; passei a fazer Trabalho Real Que Paga as Contas e é isso que importa, we're told. Mas passei a ver no meu day job uma transitoriedade muito maior do que naquilo que eu simplesmente faço pra jogar para o mundo (aqui), esperando quase nada de volta.

O medo da morte é o coração do capitalismo, diria Ernest Becker, e para garantir minha imortalidade, acho que chegou a hora de seguir a sugestão de Jason Scott (este texto virou uma salada de nomes, but bear with me) e arquivar. O fato de que este site ainda está hospedado no Blogger, assim como outros que compilam coisas que eu fiz ao longo dos anos, me perturba. Em um mês, o Google pode decidir que o Blogger não comanda mais o mindshare suficiente para mantê-lo em funcionamento. Ou ele pode decidir isso amanhã mesmo e eu jamais vou saber.

Por isso, decidi que vou migrar este blog (e qualquer outra coisa que eu tenha escrito) para algum lugar. Possivelmente um blog em Wordpress num servidor próprio, custeado por cash money. O poder que produz estes pensamentos pode ser eterno, só que eu preciso fazer o backup.

26 de novembro de 2018

Empathy gambles



O discurso corrente se baseia em empathy gambles -- em apostas de que as outras pessoas vão ser movidas sentimentalmente por apelos reiterados. Quero dizer que: grande parte do que se publica online presume uma extensão infinita da minha capacidade de me importar.

OK.

Neste texto, por exemplo, em que a autora conta de sua experiência sexual; diz que seu parceiro foi cuidadoso o suficiente para pedir permissão em cada etapa do processo, mas ela queria mais: ela queria que ele fosse movido menos pelo desejo de autopreservação e mais porque genuinamente se importa. Ou: ela quer uma adoção generalizada de uma ética da virtude em vez do contentamento com um consequencialismo vazio.

Suspeito, aqui, como leigo, que seja pedir demais de um one night stand.

Entro no Youtube casualmente e alguém reclama de alguma mudança na plataforma. Provavelmente porque os "criadores" (haha) vão ganhar menos dinheiro. Veja este vídeo de 23 minutos detalhando todo o sofrimento de quem publica vídeos online. Ou talvez este outro. E mais aquele, que detalha todos os esquemas sórdidos do Youtube para destruir a renda e a sanidade de sua comunidade.

Você já parou pra pensar em como o app satânico Uber está destruindo a vida de taxistas inocentes? Como eles vão alimentar as próprias famílias? Não apenas eles: turns out que os motoristas do próprio Uber são maltratados, não ganham o suficiente, trabalham longas horas.

E os músicos, que agora são obrigados a se contentar com as migalhas do Spotify? Por que o consumo de música não pode ser mais humano, feito sob uma perspectiva de cuidado com o próximo?

Para todo lugar que se olha, são expostas agruras econômicas e sofrimentos sociais que demandam nossa atenção e sua empatia deve ser estendida accordingly.

Alguns apontam para a outrage fatigue, como se seus sentimentos estivessem sendo realmente ativados a todo momento por pedidos constantes de atenção e empatia.

Mas eu não concordo, porque os empathy gambles sequer chegam ao ponto de partida: fazer com que eu me importe. Todos presumem que, se minha atenção for apropriadamente direcionada, eu vou me importar com o plight da mulher moderna, que só quer ser amada por seu Tinder hookup, ou pelos problemas econômicos inimagináveis de músicos, produtores de vídeo, motoristas de aplicativo.

Não chego ao ponto de estar fatigado do ultraje constante porque não me ultrajo; simplesmente sou uma casca inerte aos apelos do discurso online.

*

A arte, de forma geral, é um exercício de empatia.

Cérebros humanos, afinal, são incapazes de sentir tudo que os outros sentem; é ineficiente como estratégia de sobrevivência. Capazes de empatia limitada para com os mais próximos, conseguimos estendê-la através de produtos artísticos, de perspectivas retratadas em mídia. Personagens cativam por isso, porque eles conseguem nos fazer ver o mundo pelos seus olhos; não porque eles são relatable desde o princípio, mas porque as melhores obras fazem uma ponte entre duas mentes díspares. Mídias fazem seus próprios empathy plays. Mas são menos apostas: se baseiam no fato verificável de que, ao mostrar um novo universo, você vai ser capaz de se importar.

É um contraste perfeito com o discurso geral da internet, que imagina que vai conseguir wish into existence um comprometimento geral com suas pautas; com minorias, mulheres, motoristas do Uber, descamisados, Rafael Braga. Por sinal, você já pensou em contribuir para o meu Patreon?

Quem é realmente capaz de se importar?

Com exceção deste texto, todos os meus outros posts contém uma frase no meio, desconectada do tema geral, que são spoilers de alguma mídia em evidência



Spoiler alert: O texto a seguir contém spoilers de absolutamente tudo.

Normies amam plots.

Uma explicação completa para o fenômeno me escapa, mas posso esboçá-la.

Na minha cabeça, a série mais normie de todos os tempos é Prison Break. Ela tem muito plot. É sobre escapar de uma prisão, e tem um mapa elaboradíssimo em uma tatuagem, e um cara comete um crime pra ser preso e executar um plano de escape com o seu irmão. Coisas acontecem, ação ocorre, fatos se sequenciam.

A mente normie ama a proatividade do enredo em contraposição à passividade reflexiva. Em séries mainstream, nas mais bem sucedidas, há muitos fatos.

Game of Thrones. The Walking Dead. Supernatural, talvez? Todas séries em que o fator preponderante é o plot. Não personagens, temas, poética, cenário -- os fatos.

Não à toa, há um pânico moral em torno de spoilers, uma epidemia de spoiler alerts. Arte não é discutida, falada e evidenciada, mas escondida, porque seu único chamariz é a surpresa do que pode acontecer, o espanto. O tipo mais pobre de fascinação.

Imagino que parte disso tenha a ver com a pobreza de gêneros artísticos do ocidente. Como neandertais, só conhecemos drama e comédia; a riqueza, digamos, dos gêneros de anime se perde ao transicionar para os EUA (que é onde se filtra o conteúdo universal repassado para os satélites, como o Brasil).

Veja um grande fenômeno ocidental em anime: Shingeki no Kyojin. Plot-heavy drivel, é o que esse programa é. Incapaz de construir um personagem interessante, mas tanta coisa acontece, tantos fatos se encadeiam, tantas surpresas se revelam. Humanóides gigantes atacam uma cidade fortificada! Pessoas são comidas vivas por esses seres monstruosos!

Qual será o próximo choque? Quem será a próxima vítima da pena mortífera de George R.R. Martin?

As audiências mainstream vivem num relacionamento abusivo com os autores, que constantemente lhes privam das respostas basilares. São subs proibidos pelos dom authors de tocar os sensitive spots logo antes de gozar.

Algo interessante, pra mim, é que o slice of life é um gênero muito aceito no Japão, mas anátema no mainstream ocidental. Geralmente, é algo reservado a produções indie contemplativas, filmes ultra boring feitos pra meia dúzia assistir. Yet, se você for weeb, já está treinado para assistir conteúdo em que nada acontece, onde não há evolução nenhuma, em que cute girls doing cute things é perfeitamente aceitável como gênero.

E não tem spoiler possível. You can just release it now.

25 de novembro de 2018

Harry Potter é o pior shonen


Nas mãos deste homem está o nosso futuro.

Boku no Hero Academia é frequentemente lido como um dos sinais da ocidentalização do Japão. Como sói acontecer, pelos motivos errados. Razão costumeira apresentada é que BnHA apresenta uma versão dos heróis fantasiados que são comuns no ocidente desde sempre em quadrinhos e que se popularizaram com os filmes Marvel. Mas isso não é o que caracteriza sua ocidentalização.

Os japoneses estão habituados a heróis fantasiados; that's neither here nor there. O que mostra de fato a ocidentalização do Japão é o declínio do delinquente.

Figura carimbada, sempre presente e tida como herói em outras épocas, não se vê um único delinquente na série. Embora seja uma série sobre adolescentes numa escola, todos são excelentes alunos, que obedecem os professores, tiram boas notas, buscam dar o seu melhor, respeitar os mais velhos e proteger as instituições. Não há um único infeliz com um pompadour no background.

Deku, personagem principal, quebra algumas regras ocasionalmente, mas apenas porque tenta honrá-las em espírito, porque a letra da lei é demasiado rígida para combater todas as ameaças que surgem. Seu rival e bully, Bakugo, explosivo e temperamental, ocorre de ser extremamente inteligente e talentoso, e seus surtos ocorrem somente porque ele quer muito ser o melhor, vivendo de acordo com os princípios dos mestres. Ambos, ao quebrar as regras, imediatamente percebem o erro de suas ações aceitam quaisquer penalidades.

Tudo bem, essa é a série e não dá pra criticar a série porque ela não tenta ser outra coisa inteiramente diferente, mas eu realmente gostaria que tivesse um maconheiro na turma. Unzinho.

Deku e Bakugo podem continuar a competir para serem os melhores heróis; eu só queria que, por trás, tivesse alguém que fosse razoavelmente imprestável. Um grupo de misfits. Eles podem fumar um cigarro ou outro. Talvez tomar uma cerveja de vez em quando. Podem matar aula ocasionalmente. Não tem nem um gordinho que fica jogando Switch durante a aula e eu considero isso inaceitável.

Por quê? Bom, porque a escola é a ideologia dominante no ocidente, desde Harry Potter.

Como se sabe, Harry Potter é uma série de alunos que amam seus professores e entram em guerra por sua escola. Eu diria mais a respeito, mas sempre me recusei a consumir Harry Potter de qualquer maneira. O leitor astuto entende, contudo, onde quero chegar.

Nossa era é uma era de incensamento da autoridade escolar, tanto quanto os anos 80 eram obcecados por sua ilegitimidade. Temo que BnHA, sendo uma obra tão correta e a favor das instituições, seja no futuro usada para a exegese política. Consigo prever cartazes com "Republicanos são a Liga dos Vilões", "Trump é All for One". Faculdades que hoje se descrevem ridiculamente como "Hogwartsesque", vão exaltar suas similaridades à UA.

Felizmente, nós temos o Mineta. Só ele pode evitar essa distopia. God bless that kid.

24 de novembro de 2018

Identity as a failure of imagination



Identidade se refere sempre a características imanentes, persistentes no tempo. Daí se segue que um foco na identidade leva a uma obsessão pela self-actualization (autorrealização) -- pela exploração das suas potencialidades como ditadas pelo seu perfil, pela sua identidade.

Self-actualization é uma busca narcisista e, francamente, enfadonha. Obssessiva com o que é, desinteressada no que pode ser. O reino da possibilidade vive num cercadinho ditado pela política da identidade.

Em Egalitarianism as a Revolt Against Nature, Murray Rothbard buscava encontrar um argumento mais forte contra o igualitarismo social e econômico além de seus efeitos deletérios, e pretendia encontrar um fundamento antinatural na igualdade.

Claro que o argumento é irrelevante se você simplesmente admite: sim, estou me rebelando contra a natureza. Foda-se a natureza. O que a natureza já fez por mim? Fidelidade se conquista e se a natureza quer a minha, vai ter que trabalhar um pouquinho mais.

Pessoas constroem essas histórias sobre si mesmas. Sobre como sua vida levou inevitavelmente ao momento atual. Sobre como sua personalidade é inexoravelmente ligada a certas características. Como qualquer mudança está subordinada ao ditado pela sua identidade.

Cercas mentais, all of them.

É 2018. Em seis meses, mais ou menos, seremos capaz de abandonar nossos corpos e subir nossa consciência para o hivemind, destruindo a limitação natural da empatia humana. Onde vai ficar sua identidade?

23 de novembro de 2018

On relatability



(Até este exato momento, eu nunca tinha pensado em como falar relatability em português. Relacionabilidade? Relatabilidade? Suspeito que ninguém jamais vá descobrir.)

Assistia à segunda temporada de Iron Fist, série horrorosa da Marvel, enquanto preparava a janta e lavava louça. Coloquei o iPad apoiado no peitoril da basculante, diretamente à minha frente; única situação em que eu posso me forçar a assistir a série.

Frequentemente, sou parado na rua por pessoas, centenas delas, que me interrogam se eu sou o mesmo Erick "daquele blog". Respondo que sim, sou eu mesmo; apesar de toda a fama que alcancei com o sucesso explosivo do Manipulação, continuo a mesma pessoa afável, approachable, gente como você, pé no chão.

Como qualquer membro do hoi polloi, sou apenas um sujeito comum, que assiste a séries terríveis enquanto esguicha detergente em panelas.

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Na segunda temporada de Iron Fist, Danny Rand perde seus poderes. É um daqueles plots merdaços sobre como seu heroísmo não era definido por suas habilidades sobre-humanas, mas sim por sua índole, correção de caráter e pelo que ele carrega no coração. Terreno batido, esse tipo de história tenta sempre conectar o expectador ao personagem, torná-lo relatable, gente como a gente, mostrando que todos podemos ser heróis, mesmo sem poderes conquistados numa luta contra um dragão numa cidade transdimensional.

É um rito de passagem de todos os heróis -- cada um deles têm sua história de depowering, para destacar seus atributos relacionáveis ao expectador-leitor-consumidor.

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No ano do senhor 2018, toda a relação com mídias se reduziu à relatability, porque a existência humana foi reduzida à identidade; identidade que se compreende como a laundry list de atributos que importam para a esquerda: raça + gênero. Ocasionalmente, se inclui religião no bolo, se não forem as religiões mainstream ocidentais, e às vezes classe, embora esta seja mais murky em produções milionárias de TV e cinema.

A redução da experiência humana à identidade tem diversos benefícios. For one, é um gerador de ultraje perfeito, que funciona como um reloginho. A cada novo piece of media, nós podemos contar os segundos até o listicle ou, ainda melhor, vídeo do Youtube, catalogando suas falhas de conformidade com a Ortodoxia. Como acessório, temos ainda os veículos de mídia neutros que precisam gerar conteúdo e buscam palavras-chave de revolta no Twitter para povoar seus artigos.

Outra vantagem é que o identitarismo, ainda, é uma forma cognitivamente simples de ver o mundo; quanto brainpower não se economiza se seu único vetor de interpretação é sua experiência imediata? Se a arte, afinal, não representa sua experiência imediata -- sua identidade -- isso só pode ser sinal de que é lixo, vergonhosa, míope e muito provavelmente não passa no Bechdel Test.

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A identidade, forma ascendida do patriotismo, é o real último refúgio dos canalhas.

Quando o xenofeminismo declarava, anos atrás, o direito de falar como ninguém em particular, sem um asqueroso lugar de fala, sua presciência me escapava. Agora, me sinto catolicamente culpado pelo mundo atolado em/encharcado de identidade. Contribuí para esse estado de coisas. Fiz campanha pela importância das identidades (assim mesmo, no plural até).

Como um ex-vegano possuído pelo ódio contra quem já fui, sou a favor da destruição completa da identidade.

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Ao perceber o problema com a identidade -- não só sua versão atual (gênero + raça, yadda yadda), mas toda a identidade -- e se sentir tentado a defender sua abolição, imediatamente uma pessoa pequena qualquer vai aparecer, saída de um arbusto, ou de trás de um poste, para colocar o dedo na sua cara, o acusando de ser branco, ou rico, ou qualquer oposto das identidades pré-aprovadas pela burocracia acadêmica.

Pode até ser verdade, mas eu noto que brancos em geral têm se aprazido em se identificar como brancos recentemente, invocando suas identidades históricas falidas pra entrar na sempre importante Guerra Cultural travada no Debate Público. Então foda-se.

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Entendo que os roteiristas de Iron Fist não sabiam o que fazer com ele depois do fracasso completo da primeira temporada; dentro dos parâmetros ridículos de sucesso das mídias atuais, Danny Rand só podia ser tornado relatable, approachable. Um bilionário gente como a gente, que esguicha detergente em panelas sujas todos os dias.

Relatability é um câncer -- suga todo o senso de encanto, perplexidade, fascinação, admiração ou surpresa da arte. Instead, ela retorna ao denominador comum mais banal: o que é você?

21 de novembro de 2018

I'll take your shitty moral priorities... and eat them



A provisão de que o dono do Death Note precisa conhecer os rostos das vítimas soa como uma concessão forasteira às demais regras estabelecidas no caderno, tentativa que resvala no desespero para evitar plot holes. Death Note, o mangá, é escrito como se seu plot fosse o desenrolar natural de umas peças no tabuleiro; o cenário inicial, do gênio que se apropria do caderno mágico, é um gentil toque que coloca em movimento toda a série de episódios, delimitadas somente pelas regras duras da contracapa do Death Note, o objeto.

Astutamente, como um stand-up comedian levantando as questões que a sociedade cala, noto que são regras delimitadas pela subjetividade humana, pela maleabilidade da memória. E se eu sou ruim com rostos? Too bad, o Death Note é inútil. Pobre coitado do cego que se apossar do Death Note, jamais poderia aproveitar seus miraculosos poderes; mesmo eu, com meus 3 graus de astigmatismo em cada olho, diuturnamente saturados pelas refresh rates de monitores, talvez não fosse capaz de formar uma imagem mental suficiente para ativar minha killing spree. Tivesse o anime sido lançado em 2018, alguns diriam que o caderno é capacitista.

Eu preferiria, porém, que Tsugumi Ohba não tivesse lançado mão desses meios-termos ridículos, provas de sua fraqueza espiritual como escritor. Um caderno que matasse quem tivesse seu nome escrito, não importa quem, essa é uma premissa que eu apoio. Imagine que Light Yagami, ao se apossar do caderno, decida escrever "José Silva" -- assim mesmo, em caracteres romanos mesmo, sem kanji bullshit pra individualizar. Quantos milhões seriam mortos imediatamente? Será que o impacto seria positivo? É uma questão a se ponderar; vai saber. Imagine, até, que o caderno não aceite nomes compostos e mate todos aqueles que têm José e Silva no nome. Estamos entrando em território calamitoso, mas é esse tipo de exploração corajosa que eu espero da minha ficção.

Talvez o dono do caderno decida que heavy casualties são moralmente asquerosas ou, em cálculo utilitário, assuma que causam uma perda social de bem estar muito grande; tudo bem, ele pode selecionar um nome menos popular pra tratorar. Quem sabe "Onyx"? Eu não conheço nenhum Onyx senão aquele cara lá da equipe do Bolsonaro. Quantos Onyxes morreriam? Seu desaparecimento seria positivo? Chuto que sim. Provavelmente eu escreveria "Onyx" sem arrependimento num Death Note sem requerimentos ridículos de memorização facial.

Afinal, o Death Note tem um número limitado de páginas, o que torna premente a maximização do impacto dos poderes do caderno antes que o espaço para os nomes acabe. Nós testemunhamos, ao longo da série, os terríveis crimes contra a formatação das páginas que foram cometidos em nome da inserção de mais nomes. Eu não sou assim; se eu achasse um Death Note, gostaria de mantê-lo pristine, com organização adequada, o mais próximo possível de mint condition.

Alternativamente, o caderno poderia funcionar com stickers dos rostos das futuras vítimas, eliminando a necessidade de nomes. Borbulho com ideias aqui -- tudo em nome da simplificação do ruleset deselegante do caderno.

Through and through, Death Note é uma série extremamente japonesa + selvagemente adolescente, o que explica por que um prodígio como Light, que toma posse de poderes god-like, decide matar ladrões de galinha, assaltantes de loja de conveniência, batedores de carteira. Ele podia ter virado as estruturas de poder de cabeça pra baixo, submetido a ONU, destruído as forças militares do mundo inteiro. Poderia ter entrado na internet e começado a guardar imagens de todas as lideranças políticas e econômicas do planeta para fins de chantagem e para referência imagética em caso de não-atendimento das demandas. No entanto, ele prefere matar criminosos que literalmente apareceram na TV. O Japão sequer tem crime.

Até alguns anos atrás, uma plot contrivance específica da série me incomodava bastante: se passam 4 anos desde a morte do L, mas o conhecimento da necessidade de nome e rosto para os Kira murders aparentemente não se dissemina pelo mundo. Por que a população inteira não passou a usar máscaras, capacetes, bigodes postiços? Ninguém sabe, embora, pra ser sinceraço aqui, isso não mais me perturba tanto. O que não me desce mesmo é o fato de que, adulto feito, o gênio Light continua com a ideologia pobrinha que ele tinha com 17 anos, matando uns criminosos pé rapados que ele viu no Datena.