2 de dezembro de 2018

Capitalismo como sistema biomimético



Existe algo de fundamentalmente galbraithiano no fato de que a aceitação e a respeitabilidade de alguma atividade vêm com sua produção corporativa, que normalmente escova todo caos que escorre pelo meio. Afinal, as grandes corporações, assim como o grande público, são alérgicos à natureza capitalista de qualquer atividade. Antes de passar na TV, é necessário esconder diligentemente qualquer sinal de dinheiro que não circule pelos canais autorizados. Assim, MMA e jogos de luta, que são essencialmente prizefighting, se tornam campeonatos esterilizados. Morfados em TV programming, sua importância deriva do fato de que aparecem num grande canal -- não porque são atividades que, em si, importam para alguém.

Circula a ideia de que o capitalismo sem freios se manifesta, necessariamente, num sistema parecido com o atual, em que basicamente tudo tem que passar por grandes tubos corporativos para se manter vivo. Mas isso parece muito mais um capitalismo regulado, burocratizado e carimbado, certo?

Grandes corporações, afinal, são grandes forças disciplinadoras do mundo atual, achatando toda a complexidade, escovando todo o sinal de complexidade. Autores de esquerda gostam de comparar o capitalismo a um mecanismo, uma força impessoalizada de processamento de valores; e, no caso da sociedade corporativa, suspeito que estejam certos.

Mas, o capitalismo, quando se manifesta sem freio, é um vetor de complexidade fractal, conectividade crescente. Se manifesta menos como algo parecido como máquina e mais como um tecido orgânico. Se Apple, Google, Amazon e os oligopólios de mídia são tecnomecânicos, o capitalismo total é biomimético.

1 de dezembro de 2018

Monetized into meaninglessness



O final do documentário Fighting in the Age of Loneliness (doravante FitAoL), depois de uma resenha geralmente correta sobre o estado do MMA em 2018, traz a seguinte passagem:
Fighting has rid itself from so much of its magic. It does not transcend the world anymore. It is our world. If you somehow made it to the end of this and you're not an MMA fan, I hope you take away one thing from all of this: This will happen to everything that you love. Nothing you like will remain untouched, and it will get further and further monetized into meaninglessness.
Essa passagem martelou na minha cabeça por algum tempo, principalmente porque, no mesmo dia, vi outro documentário: Stay Free: The Team Spooky Story. Para meu hipotético leitor que não conhece o Team Spooky, é o maior canal de transmissão de torneios de jogos de luta. E essas são duas coisas que eu amo: MMA e jogos de luta. É difícil até diferenciar as duas coisas na minha cabeça; são fight cards.

A pessoa Spooky, Victor Fontanez, era só um cara qualquer que decidiu fazer torneios de Melty Blood na calçada em Nova York e gravar os vídeos para colocar na internet. Eventualmente, ele abriu um canal no Justin.tv e, mais tarde, no Twitch. Como o próprio Spooky era respeitado na Fighting Game Community, ele começou a fazer torneios cada vez maiores.

Até que, em 2010, nas finais de Super Street Fighter IV no EVO, o maior torneio da FGC, o stream oficial caiu. A decepção generalizada levou a uma campanha para que o Spooky assumisse as transmissões do EVO.

Parte interessante dessa história é que, com status ascendente, o EVO seria transmitido pela IGN. O dilema era: nós monetizamos nosso torneio into meaninglessness ou damos a transmissão para esse cara qualquer que jogava Melty na calçada?

Spooky fez o stream.

*

O MMA em 2018 é tão absolutamente corporativo, amorfo, polido. É um produto perfeitamente degustável e descartável. Todo o teatro de Conor McGregor cheira a ensaiado, a roteirizado, ensaboado, scripted com tropes enfadonhos. Suas brigas fora do cage soam premeditadas. E os stakes são baixíssimos. Conor McGregor nunca vai ser preso, não importa quantos carrinhos de mala ele arremessar em ônibus de outras pessoas.

O UFC está na TV, com um schedule muito previsível: se uma luta acabar muito cedo, nós temos 15 minutos de filler com pundits usando gravatas nas mesas decoradas com uma quantidade exorbitante de LED. Todos os nossos atletas são uniformizados e fazem testes antidoping aleatórios.

Lembra do Pride? Com lutas com figuras burlescas como Zuluzinho e Hong-Man Choi, e a run absurda de Maurício Shogun Rua no Pride GP de 2005, que jamais vai ser superada. Um evento quirky, feito por pessoas quirky, ocasionalmente pagas pela máfia japonesa. Isso nunca mais vai acontecer.

Com um sorriso no rosto, o UFC agora é um produto perfeito. O caminho natural, aponta FitAoL, é adotar a exclamação do Jeb Bush:



*

Nós presumimos que esse é o rumo inevitável do capitalismo: você tem algo de valor potencial, que se transforma em hobby, cresce em adeptos, recebe dinheiro e se reempacota como produto. No caminho, você perde toda a estranheza original da comunidade em prol da acessibilidade total.

O MMA, um outlet de pessoas esquisitas, que seguiram rumos estranhos e eram frequentemente pagas em maletas de dinheiro por yakuza no Japão para lutar, agora é um esporte perfeitamente pasteurizado. Em Stay Free, Seth Killian diz que a estratégia principal para mostrar que torneios de jogos de luta importavam era colocar cada vez mais dinheiro.

Dana White sonhava com a uniformidade e a respeitabilidade que as grandes redes de TV dariam ao UFC. Seriam comparáveis aos esportes veneráveis: futebol americano, basquete. Commodities estabelecidas.

É a estratégia de vendas do capitalismo corporativo -- a única que ele conhece. O leitor pode observar que o dinheiro entra em atividades de todo tipo de maneira: em torneios de Muay Thai, onde as apostas alimentam todo o negócio. Nos prize pots de jogos de luta. Em lutas de MMA, o sujeito faz uma tatuagem com uma marca ou raspa os pelos do peito para fazer propaganda de outra. O short de um lutador traz a marca Condom Depot.

Por todos os nichos culturais, o dinheiro flui de forma caótica.

O capitalismo corporativo se esforça para disciplinar esse fluxo. Elas secam todos os elementos caóticos e eminentemente atraentes à cultura interna do nicho para sacrificá-los no altar da Presentation. O salto em production values de qualquer coisa sempre é acompanhado, eu observo, pela destruição de qualquer tipo de personalidade. O dinheiro que flui no seu torneio é invisível, ilegível para entidades como o IGN ou a ESPN. Por isso, a torneira deles é sempre fechada.

Não precisa ser assim. É possível escolher o Team Spooky em vez do IGN.

A produção de mídia em 2018 é avessa à uniformidade e refratária à respeitabilidade. É possível abraçar o aleatório e, com isso, monetize the things you love into meaningfulness.

30 de novembro de 2018

Elogio do colapso



Em meus anos de leituras libertárias mais diligentes, eu gostava muito de uma citação que era mais ou menos assim: "O governo está sempre fazendo reformas. Reforma da educação. Reforma da previdência. Reforma tributária. Reforma do sistema de saúde. O que isso implica é que o governo não foi capaz de acertar nas primeiras cinquenta vezes". Pode ser que eu tenha fabricado essa memória,´mas sempre imaginei que era uma quote do P.J. O'Rourke. Com quase 10 minutos completos de apuração no Google, aparentemente a citação inexiste, ou talvez eu tenha usado as palavras-chave erradas; de qualquer forma, continuo a achar muito espirituoso esse P.J. O'Rourke fabricado pela minha mente.

Porque, realmente, o governo está permanentemente em estado de reforma. Scratch that. O governo permanentemente está em estado de necessidade de reforma. Políticos e pundits que orbitam políticos gostam de asseverar a necessidade das reformas; se apenas elas fossem feitas, o estado seria bom. A falta de reformas, não sua natureza decadente intrínseca, destrói a viabilidade estatal.

*

Lembro vivamente que Obama foi eleito com a promessa de unir a nação americana fraturada pela crise econômica. Em 2002, Lula era alçado como putativa segunda chegada de Jesus Cristo. Brasileiros eram educados por todos os lados que Lula, como Reinhard von Lohengramm, uniria uma nação dilacerada, com marcas profundas do passado. Mesmo hoje em dia, eleito Bolsonaro, que nos asseguram ser tão infinitamente diferente, uma quebra ontológica com o que define a presidencialidade, ele nos garante que unirá o país.

Como reformas, outro business perpétuo do governo é reparar divisões, a promessa de união.

O que me frustra nesse cenário é a baixa velocidade do crescimento da complexidade social e do declínio entrópico da união. É decepcionante, pra mim, que o discurso de unir um país inteiro ainda tenha qualquer relevância -- que seja ainda possível achatar inúmeras divergências irreconciliáveis para mais uma vez, como sempre, tentar um novo pacto nacional.

*

A direita venceu, o Olavo de Carvalho indicou ministros, os alunos dele se ajeitam suas novas posições de conforto, com linhas diretas ao WhatsApp dos filhos do presidente eleito. No entanto, continuam com seu chorinho, seu squawking online, se sentindo atacados por todas as instituições respeitáveis. OdeC foi entrevistado pelo Estado de S. Paulo e ameaçou processar a jornalista. A horda de retardados que o segue achou muito foda, botou a jornalistinha no lugar dela, iradíssimo.

OdeC, assim como a maior parte da direita, já conseguiram construir uma rede de comunicação própria. Fazem suas próprias palestras, seus eventos, têm suas redes de contas no Twitter pra ficar compartilhando ininterruptamente notícias de grandes jornais e falando sobre como são ruins.

Isso é outra coisa que me frustra: se você tem um sistema paralelo inteiro, por que você tem que implorar a aceitação dos old powers? Não eram eles os inimigos? Quem lê o Estado de S. Paulo?

Novamente, as fraturas e divisões não são rápidas o suficiente pra evitar o surgimento de narrativas unificadoras. Old media, como Estado, Folha, Globo, é relíquia de uma unidade que inexiste.

Nem estou aqui pra dizer que o OdeC é tão superior a esses jornais. Não. Meu ponto é que ele, e seu círculo, no final, querem só aceitação, união, um compartilhamento total de seus boring ass values, como velhos esquerdistas urbanos. But that ship has sailed.

*

Talvez as mídias sociais tenham nos achatado e nos passado a falsa ideia de que existe uma unidade pra ser mantida. Que, com uma tabela de discurso que dá igual peso pra todos os entrantes, existe uma igualdade essencial na comunicação que nos une.

Vivemos numa utopia de comunicação total and we've achieved nothing. Minha utopia não tem comunicação, tem pontos de quebra que tendem ao infinito. Sem união, sem reformas. Principalmente sem lágrimas transbordantes porque jornalistas não leram meus livros. Sistemas políticos open source que podem ser forked e fundidos reiteradamente.

Não dá pra esperar grandes rupturas de um país cuja melhor ideia pra sair do marasmo sufocante foi eleger um militar. Mas eu posso torcer por um colapso alguns nanossegundos mais rápido dessa vez.

28 de novembro de 2018

Os melhores jogos de todos os tempos são: Ocarina of Time, Super Mario Bros... e você já pode completar os outros oito!



Abaixo, para conveniência dos escritores da internet, produzi algumas listas perfeitamente genéricas de "Melhores [mídias] de todos os tempos". Para usar em seu site e deixar seu editor contente, você só precisa produzir os blurbs descritivos! Complete seu próximo listicle ou slideshow com estes pre-made assets!

Não são meus favoritos, são listas que mostram que você leu outras listas de Best of e pode entrar em conversas culturais com naturalidade e desenvoltura.

Conhecendo estes nomes, você maximiza seu standing na comunidade cultural humana, ao mesmo tempo em que evita qualquer percepção aprofundada sobre sua personalidade, garantindo que você é uma pessoa equilibrada e bem ajustada o suficiente pra não ter se aprofundado no fandom ou adotado a mídia como hobby.

Melhores [HQs e Graphic Novels] de Todos os Tempos

1. Maus
2. Watchmen
3. The Killing Joke
4. The Dark Knight Returns
5. X-Men: God Loves, Man Kills
6. All Star Superman
7. Saga of the Swamp Thing
8. Persépolis
9. Kingdom Come
10. Ghost World

Melhores [Animes] de Todos os Tempos

1. Akira
2. Cowboy Bebop
3. Neon Genesis Evangelion
4. Astro Boy
5. A viagem de Chihiro
6. Kimi no na wa
7. Fullmetal Alchemist: Brotherhood
8. Death Note
9. Dragon Ball Z
10. Ginga Eiyuu Densetsu

Melhores [Livros Sci-Fi] de Todos os Tempos

1. Dune
2. Neuromancer
3. The Time Machine
4. Foundation
5. Do Androids Dream of Electric Sheep?
6. The Left Hand of Darkness
7. Stranger in a Strange Land
8. Hitchhiker's Guide to the Galaxy
9. Ender's Game
10. The Forever War

Melhores [Mangás] de Todos os Tempos

1. Nausicaä
2. Uzumaki
3. Lobo Solitário
4. 20th Century Boys
5. Akira
6. Berserk
7. Nana
8. Vagabond
9. One Piece
10. Monster

27 de novembro de 2018

Tenho sido terrível em preservar o meu próprio trabalho



Uma das passagens literárias que permaneceram comigo ao longo dos anos é esta, de Thomas Paine em Age of Reason, parte II, seção 18 (p. 137, nesta edição):
We have not in all cases the same form, nor in any case the same matter that composed our bodies twenty or thirty years ago; and yet we are conscious of being the same persons. Even legs and arms, which make up almost half the human frame, are not necessary to the consciousness of existence. These may be lost or taken away, and the full consciousness of existence remain; and were their place supplied by wings, or other appendages, we cannot conceive that it would alter our consciousness of existence. In short, we know not how much, or rather how little, of our composition it is, and how exquisitely fine that little is, that creates in us this consciousness of existence; and all beyond that is like the pulp of a peach, distinct and separate from the vegetative speck in the kernel.

Who can say by what exceedingly fine action of fine matter it is that a thought is produced in what we call the mind? And yet that thought when produced, as I now produce the thought I am writing, is capable of becoming immortal, and is the only production of man that has that capacity.

Statues of brass or marble will perish; and statues made in imitation of them are not the same statues, nor the same workmanship, any more than the copy of a picture is the same picture. But print and reprint a thought a thousand times over, and that with materials of any kind -- carve it in wood or engrave it on stone, the thought is eternally and identically the same thought in every case. It has a capacity of unimpaired existence, unaffected by change of matter, and is essentially distinct and of a nature different from every thing else that we know or can conceive. If, then, the thing produced has in itself a capacity of being immortal, it is more than a token that the power that produced it, which is the self-same thing as consciousness of existence, can be immortal also; and that as independently of the matter it was first connected with, as the thought is of the printing or writing it first appeared in. The one idea is not more difficult to believe than the other, and we can see that one is true.
Desde que eu li esse trecho, há vários anos, ele acaba reaparecendo na minha cabeça vez ou outra.

Entrei hoje num rabbit hole de arquivismo. Comecei a ver palestras do Jason Scott, responsável pelo Textfiles.com e um dos fundadores do Archive Team, um obcecado pela preservação da memória digital.

Ao longo das últimas duas semanas, movido pelo desafio autoimposto de escrever todos os dias, descobri que ainda me importo com este blog e com as coisas que eu escrevi nos últimos, o quê?, 15 anos a esta altura? Textos antigos meus são constrangedores e, na maior parte do tempo, eu passo a odiar o que eu escrevi 2 minutos depois de apertar o botão Publish; mas eu consigo apreciar sua existência, sua importância contextual, sua relevância como pedra fundante do que eu me tornei e do que este blog se tornou.

E, afinal, como mostra Paine, há uma transcendentalidade em escrever, gerar uma ideia e passá-la para frente. E, talvez ao envelhecer, embora eu ainda esteja longe do meu primeiro enfarte (fingers crossed), eu busque essa palpabilidade. Existe algo aqui de real importância? Eu não sei e talvez nunca tenha distanciamento suficiente para descobrir -- mas é possível que sim.

Parei de dar importância para os little funny bits que eu postava aqui com o passar do tempo porque assumi responsabilidades; passei a fazer Trabalho Real Que Paga as Contas e é isso que importa, we're told. Mas passei a ver no meu day job uma transitoriedade muito maior do que naquilo que eu simplesmente faço pra jogar para o mundo (aqui), esperando quase nada de volta.

O medo da morte é o coração do capitalismo, diria Ernest Becker, e para garantir minha imortalidade, acho que chegou a hora de seguir a sugestão de Jason Scott (este texto virou uma salada de nomes, but bear with me) e arquivar. O fato de que este site ainda está hospedado no Blogger, assim como outros que compilam coisas que eu fiz ao longo dos anos, me perturba. Em um mês, o Google pode decidir que o Blogger não comanda mais o mindshare suficiente para mantê-lo em funcionamento. Ou ele pode decidir isso amanhã mesmo e eu jamais vou saber.

Por isso, decidi que vou migrar este blog (e qualquer outra coisa que eu tenha escrito) para algum lugar. Possivelmente um blog em Wordpress num servidor próprio, custeado por cash money. O poder que produz estes pensamentos pode ser eterno, só que eu preciso fazer o backup.

26 de novembro de 2018

Empathy gambles



O discurso corrente se baseia em empathy gambles -- em apostas de que as outras pessoas vão ser movidas sentimentalmente por apelos reiterados. Quero dizer que: grande parte do que se publica online presume uma extensão infinita da minha capacidade de me importar.

OK.

Neste texto, por exemplo, em que a autora conta de sua experiência sexual; diz que seu parceiro foi cuidadoso o suficiente para pedir permissão em cada etapa do processo, mas ela queria mais: ela queria que ele fosse movido menos pelo desejo de autopreservação e mais porque genuinamente se importa. Ou: ela quer uma adoção generalizada de uma ética da virtude em vez do contentamento com um consequencialismo vazio.

Suspeito, aqui, como leigo, que seja pedir demais de um one night stand.

Entro no Youtube casualmente e alguém reclama de alguma mudança na plataforma. Provavelmente porque os "criadores" (haha) vão ganhar menos dinheiro. Veja este vídeo de 23 minutos detalhando todo o sofrimento de quem publica vídeos online. Ou talvez este outro. E mais aquele, que detalha todos os esquemas sórdidos do Youtube para destruir a renda e a sanidade de sua comunidade.

Você já parou pra pensar em como o app satânico Uber está destruindo a vida de taxistas inocentes? Como eles vão alimentar as próprias famílias? Não apenas eles: turns out que os motoristas do próprio Uber são maltratados, não ganham o suficiente, trabalham longas horas.

E os músicos, que agora são obrigados a se contentar com as migalhas do Spotify? Por que o consumo de música não pode ser mais humano, feito sob uma perspectiva de cuidado com o próximo?

Para todo lugar que se olha, são expostas agruras econômicas e sofrimentos sociais que demandam nossa atenção e sua empatia deve ser estendida accordingly.

Alguns apontam para a outrage fatigue, como se seus sentimentos estivessem sendo realmente ativados a todo momento por pedidos constantes de atenção e empatia.

Mas eu não concordo, porque os empathy gambles sequer chegam ao ponto de partida: fazer com que eu me importe. Todos presumem que, se minha atenção for apropriadamente direcionada, eu vou me importar com o plight da mulher moderna, que só quer ser amada por seu Tinder hookup, ou pelos problemas econômicos inimagináveis de músicos, produtores de vídeo, motoristas de aplicativo.

Não chego ao ponto de estar fatigado do ultraje constante porque não me ultrajo; simplesmente sou uma casca inerte aos apelos do discurso online.

*

A arte, de forma geral, é um exercício de empatia.

Cérebros humanos, afinal, são incapazes de sentir tudo que os outros sentem; é ineficiente como estratégia de sobrevivência. Capazes de empatia limitada para com os mais próximos, conseguimos estendê-la através de produtos artísticos, de perspectivas retratadas em mídia. Personagens cativam por isso, porque eles conseguem nos fazer ver o mundo pelos seus olhos; não porque eles são relatable desde o princípio, mas porque as melhores obras fazem uma ponte entre duas mentes díspares. Mídias fazem seus próprios empathy plays. Mas são menos apostas: se baseiam no fato verificável de que, ao mostrar um novo universo, você vai ser capaz de se importar.

É um contraste perfeito com o discurso geral da internet, que imagina que vai conseguir wish into existence um comprometimento geral com suas pautas; com minorias, mulheres, motoristas do Uber, descamisados, Rafael Braga. Por sinal, você já pensou em contribuir para o meu Patreon?

Quem é realmente capaz de se importar?

Com exceção deste texto, todos os meus outros posts contém uma frase no meio, desconectada do tema geral, que são spoilers de alguma mídia em evidência



Spoiler alert: O texto a seguir contém spoilers de absolutamente tudo.

Normies amam plots.

Uma explicação completa para o fenômeno me escapa, mas posso esboçá-la.

Na minha cabeça, a série mais normie de todos os tempos é Prison Break. Ela tem muito plot. É sobre escapar de uma prisão, e tem um mapa elaboradíssimo em uma tatuagem, e um cara comete um crime pra ser preso e executar um plano de escape com o seu irmão. Coisas acontecem, ação ocorre, fatos se sequenciam.

A mente normie ama a proatividade do enredo em contraposição à passividade reflexiva. Em séries mainstream, nas mais bem sucedidas, há muitos fatos.

Game of Thrones. The Walking Dead. Supernatural, talvez? Todas séries em que o fator preponderante é o plot. Não personagens, temas, poética, cenário -- os fatos.

Não à toa, há um pânico moral em torno de spoilers, uma epidemia de spoiler alerts. Arte não é discutida, falada e evidenciada, mas escondida, porque seu único chamariz é a surpresa do que pode acontecer, o espanto. O tipo mais pobre de fascinação.

Imagino que parte disso tenha a ver com a pobreza de gêneros artísticos do ocidente. Como neandertais, só conhecemos drama e comédia; a riqueza, digamos, dos gêneros de anime se perde ao transicionar para os EUA (que é onde se filtra o conteúdo universal repassado para os satélites, como o Brasil).

Veja um grande fenômeno ocidental em anime: Shingeki no Kyojin. Plot-heavy drivel, é o que esse programa é. Incapaz de construir um personagem interessante, mas tanta coisa acontece, tantos fatos se encadeiam, tantas surpresas se revelam. Humanóides gigantes atacam uma cidade fortificada! Pessoas são comidas vivas por esses seres monstruosos!

Qual será o próximo choque? Quem será a próxima vítima da pena mortífera de George R.R. Martin?

As audiências mainstream vivem num relacionamento abusivo com os autores, que constantemente lhes privam das respostas basilares. São subs proibidos pelos dom authors de tocar os sensitive spots logo antes de gozar.

Algo interessante, pra mim, é que o slice of life é um gênero muito aceito no Japão, mas anátema no mainstream ocidental. Geralmente, é algo reservado a produções indie contemplativas, filmes ultra boring feitos pra meia dúzia assistir. Yet, se você for weeb, já está treinado para assistir conteúdo em que nada acontece, onde não há evolução nenhuma, em que cute girls doing cute things é perfeitamente aceitável como gênero.

E não tem spoiler possível. You can just release it now.

25 de novembro de 2018

Harry Potter é o pior shonen


Nas mãos deste homem está o nosso futuro.

Boku no Hero Academia é frequentemente lido como um dos sinais da ocidentalização do Japão. Como sói acontecer, pelos motivos errados. Razão costumeira apresentada é que BnHA apresenta uma versão dos heróis fantasiados que são comuns no ocidente desde sempre em quadrinhos e que se popularizaram com os filmes Marvel. Mas isso não é o que caracteriza sua ocidentalização.

Os japoneses estão habituados a heróis fantasiados; that's neither here nor there. O que mostra de fato a ocidentalização do Japão é o declínio do delinquente.

Figura carimbada, sempre presente e tida como herói em outras épocas, não se vê um único delinquente na série. Embora seja uma série sobre adolescentes numa escola, todos são excelentes alunos, que obedecem os professores, tiram boas notas, buscam dar o seu melhor, respeitar os mais velhos e proteger as instituições. Não há um único infeliz com um pompadour no background.

Deku, personagem principal, quebra algumas regras ocasionalmente, mas apenas porque tenta honrá-las em espírito, porque a letra da lei é demasiado rígida para combater todas as ameaças que surgem. Seu rival e bully, Bakugo, explosivo e temperamental, ocorre de ser extremamente inteligente e talentoso, e seus surtos ocorrem somente porque ele quer muito ser o melhor, vivendo de acordo com os princípios dos mestres. Ambos, ao quebrar as regras, imediatamente percebem o erro de suas ações aceitam quaisquer penalidades.

Tudo bem, essa é a série e não dá pra criticar a série porque ela não tenta ser outra coisa inteiramente diferente, mas eu realmente gostaria que tivesse um maconheiro na turma. Unzinho.

Deku e Bakugo podem continuar a competir para serem os melhores heróis; eu só queria que, por trás, tivesse alguém que fosse razoavelmente imprestável. Um grupo de misfits. Eles podem fumar um cigarro ou outro. Talvez tomar uma cerveja de vez em quando. Podem matar aula ocasionalmente. Não tem nem um gordinho que fica jogando Switch durante a aula e eu considero isso inaceitável.

Por quê? Bom, porque a escola é a ideologia dominante no ocidente, desde Harry Potter.

Como se sabe, Harry Potter é uma série de alunos que amam seus professores e entram em guerra por sua escola. Eu diria mais a respeito, mas sempre me recusei a consumir Harry Potter de qualquer maneira. O leitor astuto entende, contudo, onde quero chegar.

Nossa era é uma era de incensamento da autoridade escolar, tanto quanto os anos 80 eram obcecados por sua ilegitimidade. Temo que BnHA, sendo uma obra tão correta e a favor das instituições, seja no futuro usada para a exegese política. Consigo prever cartazes com "Republicanos são a Liga dos Vilões", "Trump é All for One". Faculdades que hoje se descrevem ridiculamente como "Hogwartsesque", vão exaltar suas similaridades à UA.

Felizmente, nós temos o Mineta. Só ele pode evitar essa distopia. God bless that kid.

24 de novembro de 2018

Identity as a failure of imagination



Identidade se refere sempre a características imanentes, persistentes no tempo. Daí se segue que um foco na identidade leva a uma obsessão pela self-actualization (autorrealização) -- pela exploração das suas potencialidades como ditadas pelo seu perfil, pela sua identidade.

Self-actualization é uma busca narcisista e, francamente, enfadonha. Obssessiva com o que é, desinteressada no que pode ser. O reino da possibilidade vive num cercadinho ditado pela política da identidade.

Em Egalitarianism as a Revolt Against Nature, Murray Rothbard buscava encontrar um argumento mais forte contra o igualitarismo social e econômico além de seus efeitos deletérios, e pretendia encontrar um fundamento antinatural na igualdade.

Claro que o argumento é irrelevante se você simplesmente admite: sim, estou me rebelando contra a natureza. Foda-se a natureza. O que a natureza já fez por mim? Fidelidade se conquista e se a natureza quer a minha, vai ter que trabalhar um pouquinho mais.

Pessoas constroem essas histórias sobre si mesmas. Sobre como sua vida levou inevitavelmente ao momento atual. Sobre como sua personalidade é inexoravelmente ligada a certas características. Como qualquer mudança está subordinada ao ditado pela sua identidade.

Cercas mentais, all of them.

É 2018. Em seis meses, mais ou menos, seremos capaz de abandonar nossos corpos e subir nossa consciência para o hivemind, destruindo a limitação natural da empatia humana. Onde vai ficar sua identidade?

23 de novembro de 2018

On relatability



(Até este exato momento, eu nunca tinha pensado em como falar relatability em português. Relacionabilidade? Relatabilidade? Suspeito que ninguém jamais vá descobrir.)

Assistia à segunda temporada de Iron Fist, série horrorosa da Marvel, enquanto preparava a janta e lavava louça. Coloquei o iPad apoiado no peitoril da basculante, diretamente à minha frente; única situação em que eu posso me forçar a assistir a série.

Frequentemente, sou parado na rua por pessoas, centenas delas, que me interrogam se eu sou o mesmo Erick "daquele blog". Respondo que sim, sou eu mesmo; apesar de toda a fama que alcancei com o sucesso explosivo do Manipulação, continuo a mesma pessoa afável, approachable, gente como você, pé no chão.

Como qualquer membro do hoi polloi, sou apenas um sujeito comum, que assiste a séries terríveis enquanto esguicha detergente em panelas.

*

Na segunda temporada de Iron Fist, Danny Rand perde seus poderes. É um daqueles plots merdaços sobre como seu heroísmo não era definido por suas habilidades sobre-humanas, mas sim por sua índole, correção de caráter e pelo que ele carrega no coração. Terreno batido, esse tipo de história tenta sempre conectar o expectador ao personagem, torná-lo relatable, gente como a gente, mostrando que todos podemos ser heróis, mesmo sem poderes conquistados numa luta contra um dragão numa cidade transdimensional.

É um rito de passagem de todos os heróis -- cada um deles têm sua história de depowering, para destacar seus atributos relacionáveis ao expectador-leitor-consumidor.

*

No ano do senhor 2018, toda a relação com mídias se reduziu à relatability, porque a existência humana foi reduzida à identidade; identidade que se compreende como a laundry list de atributos que importam para a esquerda: raça + gênero. Ocasionalmente, se inclui religião no bolo, se não forem as religiões mainstream ocidentais, e às vezes classe, embora esta seja mais murky em produções milionárias de TV e cinema.

A redução da experiência humana à identidade tem diversos benefícios. For one, é um gerador de ultraje perfeito, que funciona como um reloginho. A cada novo piece of media, nós podemos contar os segundos até o listicle ou, ainda melhor, vídeo do Youtube, catalogando suas falhas de conformidade com a Ortodoxia. Como acessório, temos ainda os veículos de mídia neutros que precisam gerar conteúdo e buscam palavras-chave de revolta no Twitter para povoar seus artigos.

Outra vantagem é que o identitarismo, ainda, é uma forma cognitivamente simples de ver o mundo; quanto brainpower não se economiza se seu único vetor de interpretação é sua experiência imediata? Se a arte, afinal, não representa sua experiência imediata -- sua identidade -- isso só pode ser sinal de que é lixo, vergonhosa, míope e muito provavelmente não passa no Bechdel Test.

*

A identidade, forma ascendida do patriotismo, é o real último refúgio dos canalhas.

Quando o xenofeminismo declarava, anos atrás, o direito de falar como ninguém em particular, sem um asqueroso lugar de fala, sua presciência me escapava. Agora, me sinto catolicamente culpado pelo mundo atolado em/encharcado de identidade. Contribuí para esse estado de coisas. Fiz campanha pela importância das identidades (assim mesmo, no plural até).

Como um ex-vegano possuído pelo ódio contra quem já fui, sou a favor da destruição completa da identidade.

*

Ao perceber o problema com a identidade -- não só sua versão atual (gênero + raça, yadda yadda), mas toda a identidade -- e se sentir tentado a defender sua abolição, imediatamente uma pessoa pequena qualquer vai aparecer, saída de um arbusto, ou de trás de um poste, para colocar o dedo na sua cara, o acusando de ser branco, ou rico, ou qualquer oposto das identidades pré-aprovadas pela burocracia acadêmica.

Pode até ser verdade, mas eu noto que brancos em geral têm se aprazido em se identificar como brancos recentemente, invocando suas identidades históricas falidas pra entrar na sempre importante Guerra Cultural travada no Debate Público. Então foda-se.

*

Entendo que os roteiristas de Iron Fist não sabiam o que fazer com ele depois do fracasso completo da primeira temporada; dentro dos parâmetros ridículos de sucesso das mídias atuais, Danny Rand só podia ser tornado relatable, approachable. Um bilionário gente como a gente, que esguicha detergente em panelas sujas todos os dias.

Relatability é um câncer -- suga todo o senso de encanto, perplexidade, fascinação, admiração ou surpresa da arte. Instead, ela retorna ao denominador comum mais banal: o que é você?

21 de novembro de 2018

I'll take your shitty moral priorities... and eat them



A provisão de que o dono do Death Note precisa conhecer os rostos das vítimas soa como uma concessão forasteira às demais regras estabelecidas no caderno, tentativa que resvala no desespero para evitar plot holes. Death Note, o mangá, é escrito como se seu plot fosse o desenrolar natural de umas peças no tabuleiro; o cenário inicial, do gênio que se apropria do caderno mágico, é um gentil toque que coloca em movimento toda a série de episódios, delimitadas somente pelas regras duras da contracapa do Death Note, o objeto.

Astutamente, como um stand-up comedian levantando as questões que a sociedade cala, noto que são regras delimitadas pela subjetividade humana, pela maleabilidade da memória. E se eu sou ruim com rostos? Too bad, o Death Note é inútil. Pobre coitado do cego que se apossar do Death Note, jamais poderia aproveitar seus miraculosos poderes; mesmo eu, com meus 3 graus de astigmatismo em cada olho, diuturnamente saturados pelas refresh rates de monitores, talvez não fosse capaz de formar uma imagem mental suficiente para ativar minha killing spree. Tivesse o anime sido lançado em 2018, alguns diriam que o caderno é capacitista.

Eu preferiria, porém, que Tsugumi Ohba não tivesse lançado mão desses meios-termos ridículos, provas de sua fraqueza espiritual como escritor. Um caderno que matasse quem tivesse seu nome escrito, não importa quem, essa é uma premissa que eu apoio. Imagine que Light Yagami, ao se apossar do caderno, decida escrever "José Silva" -- assim mesmo, em caracteres romanos mesmo, sem kanji bullshit pra individualizar. Quantos milhões seriam mortos imediatamente? Será que o impacto seria positivo? É uma questão a se ponderar; vai saber. Imagine, até, que o caderno não aceite nomes compostos e mate todos aqueles que têm José e Silva no nome. Estamos entrando em território calamitoso, mas é esse tipo de exploração corajosa que eu espero da minha ficção.

Talvez o dono do caderno decida que heavy casualties são moralmente asquerosas ou, em cálculo utilitário, assuma que causam uma perda social de bem estar muito grande; tudo bem, ele pode selecionar um nome menos popular pra tratorar. Quem sabe "Onyx"? Eu não conheço nenhum Onyx senão aquele cara lá da equipe do Bolsonaro. Quantos Onyxes morreriam? Seu desaparecimento seria positivo? Chuto que sim. Provavelmente eu escreveria "Onyx" sem arrependimento num Death Note sem requerimentos ridículos de memorização facial.

Afinal, o Death Note tem um número limitado de páginas, o que torna premente a maximização do impacto dos poderes do caderno antes que o espaço para os nomes acabe. Nós testemunhamos, ao longo da série, os terríveis crimes contra a formatação das páginas que foram cometidos em nome da inserção de mais nomes. Eu não sou assim; se eu achasse um Death Note, gostaria de mantê-lo pristine, com organização adequada, o mais próximo possível de mint condition.

Alternativamente, o caderno poderia funcionar com stickers dos rostos das futuras vítimas, eliminando a necessidade de nomes. Borbulho com ideias aqui -- tudo em nome da simplificação do ruleset deselegante do caderno.

Through and through, Death Note é uma série extremamente japonesa + selvagemente adolescente, o que explica por que um prodígio como Light, que toma posse de poderes god-like, decide matar ladrões de galinha, assaltantes de loja de conveniência, batedores de carteira. Ele podia ter virado as estruturas de poder de cabeça pra baixo, submetido a ONU, destruído as forças militares do mundo inteiro. Poderia ter entrado na internet e começado a guardar imagens de todas as lideranças políticas e econômicas do planeta para fins de chantagem e para referência imagética em caso de não-atendimento das demandas. No entanto, ele prefere matar criminosos que literalmente apareceram na TV. O Japão sequer tem crime.

Até alguns anos atrás, uma plot contrivance específica da série me incomodava bastante: se passam 4 anos desde a morte do L, mas o conhecimento da necessidade de nome e rosto para os Kira murders aparentemente não se dissemina pelo mundo. Por que a população inteira não passou a usar máscaras, capacetes, bigodes postiços? Ninguém sabe, embora, pra ser sinceraço aqui, isso não mais me perturba tanto. O que não me desce mesmo é o fato de que, adulto feito, o gênio Light continua com a ideologia pobrinha que ele tinha com 17 anos, matando uns criminosos pé rapados que ele viu no Datena.

20 de novembro de 2018

Never pay your dues



Aconteceu: 242 pessoas entraram neste blog hoje. Em geral, não presto atenção para esse tipo de estatística; este blog vive abandonado há 10 anos, testemunha ocasional de um arroubo de semicriatividade. Duzentas e quarenta e duas pessoas não é um número impressionante -- é baixo, em termos de internet, irrisório. Mas digno de nota, porque eu não imaginava que entraria tanta gente. Chutava cerca de 30 pessoas, todas caídas por alguma busca irrelevante do Google; 50% seriam frustrados com a cartomante de quem eu escrevi em 2011.

Por anos, fui fascinado com a ideia de pay your dues: o sucesso não é automático e claramente é necessário agonizar por anos no anonimato, não só para construir sua reputação, mas também para encontrar sua voz, sua identidade criativa. É uma forma bonita, clean, de colocar o desenvolvimento criativo, profissional, whatever. Americanos, sinto eu, são intuitivamente capazes de construir sistemas simplificados para qualquer empreitada.

Imagino que essa ideia tenha algo a ver com a fascinação natural que eles (os americajin) têm pela ideia de identidade. Meu trabalho, como manifestação da minha vocação, é parte fundante da minha identidade. As such, eu preciso me encontrar, encontrar meu estilo, antes que eu possa encontrar o sucesso, que é inextricável da minha essência. It fits so neatly, eu sinto que poderia ouvido falar disso num dos vlogs inspiradores do John Green.

Claro, a ideia é perfeitamente falsa. O sucesso é caótico. Ele ocorre -- ou most likely não ocorre -- por motivos aleatórios fora do seu controle. Os criativos da internet atual, aqueles que conseguiram explorar ao máximo os formatos dominantes (streams do Twitch, vídeos do Youtube) contam suas jornadas ao estrelato e elas se tornam gospel. São todas narrativas, stories, com causas delimitadas, definidas pela volição humana. Como Luciano Huck contando a história de Whindersson Nunes, que se alçou da pobreza através de seu sheer power of will.

Aos 31 anos, minhas sensibilidades estéticas já estão mais bem formadas, meu humor estabelecido, minha escrita tem algo que se assemelha a um estilo. Talvez esses fossem os dues que eu tivesse que pagar antes do meu inevitável sucesso, mas duvido. Não acho que minha escrita daqui, nestes termos jamais vá ter amplo apelo. Cumprindo o desafio de escrever todos os dias, porém, percebo que é algo que me dá prazer. Outra coisa que me dá prazer é saber que pessoas entraram aqui diretamente, se interessaram o suficiente em clicar num link que não foi servido pelo algoritmo, com um título previamente mastigado que sumariza todo o conteúdo do texto.

Se eu pudesse assessorar Yang Wen-li no debate com Reinhard von Lohengramm, este seria meu argumento



Legend of the Galactic Heroes (Ginga Eiyuu Densetsu, para os familiares), possivelmente o melhor anime já feito baseada numa incrível série de livros que eu não li, retrata um conflito entre duas pólis (póles?) interestelares. O Império é uma coleção de planetas pouco povoados, semifeudais, governados por elites vassalas com sensibilidades germânicas; a Aliança é uma república metropolitana democrática, comparativamente menor em extensão e em número de planetas, mas aparentemente mais densa. Quando passamos a acompanhar a série, o Império tem uma população de cerca de 25 bilhões de pessoas, enquanto a Aliança conta cerca de 15 bilhões de cidadãos.

As quarenta bilhões de cabeças, na verdade, são um agudo declínio desde o apogeu da espécie humana sob o Império, que unificava 120 bilhões de habitantes sob um só estado, espalhados em, presumivelmente, centenas de planetas. Difícil imaginar algo de maior escopo, números tão colossais, distâncias tão abissalmente grandes. LoGH é hard scifi; seu conceit é transplantar conflitos tipicamente terrenos para um plano cósmico. Existe um problema básico com esse approach.

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Statelessness é anátema ao estado-nação moderno. Um estado é limitado apenas, tautologicamente, pelos próprios limites, que são dados por outro estado, que funciona como espelho na fronteira. Não há uma área ajurisdicional, porque essas áreas se tornam automaticamente tributárias ao estado mais próximo (a contiguidade também é muito cara para a aceitação cognitiva do estado moderno).

Se você olhar para um mapa político da Antiguidade, provavelmente vai notar que os estados simplesmente cessam, mesmo sem um limite físico aparente, e sem a força de outro estado para empurrá-lo de volta. Parte disso tem a ver, obviamente, com a geografia física: controle efetivo é necessário para a existência da jurisdição. Se seu reino é tecnologicamente incapaz de cruzar (ou se estiver desinclinado a custear uma jornada para cruzar) as cadeias montanhosas do Cáucaso, é até ali que seu poder político vai.

E o poder político periférico simplesmente breaks down. Um líder político só consegue permanecer no topo através de uma partilha efetiva do poder e dos espólios; e a unidade estatal permanece enquanto houver um sistema de vassalagem vantajoso. Próximo aos centros de poder, esse arranjo normalmente permanece, mas quanto mais um estado se expande, mais se torna óbvio para os vassalos distantes que eles não precisam compartilhar nenhum poder, nenhum espólio com a metrópole. Se os romanos enfatizavam a construção de estradas para facilitar o acesso da metrópole às colônias, era porque reconheciam esse fato fundamental.

Percebo que a grande vitória do estado moderno tenha sido estabelecer sistemas duradouros de partilha de poder, evitando a trituração dos estados em milhares de polities.

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Um mapa político moderno é propaganda, porque não estipula os limites reais do estado; ele aceita claims de jurisdição westphalianos que são prima facie falsos. Se o estado brasileiro alega ter jurisdição sobre toda a área do Rio de Janeiro, essa é uma óbvia mentira. O Rio de Janeiro é particionado entre os níveis oficiais do estado (governos municipal, estadual, federal) e forças informais (notoriamente os vários grupos de traficantes e as milícias). Ocasionalmente o estado tenta invadir os territórios de forças concorrentes, mas geralmente falha por uma combinação de problemas tecnológicos, culturais e geográficos. Como um oceano ou uma cordilheira são um limite físico duro ao poder estatal, um settlement numa montanha de pedra no meio da cidade também é.

James C. Scott, que eu mencionei ali embaixo noutro post, talvez se sentisse à vontade para observar que o estado brasileiro só se afirma no asfalto -- nas áreas planas. As áreas planas são as áreas de legibilidade; suas vias se dispõem da forma que o estado compreende. Sua produção econômica é grande o suficiente e visível o bastante para ser acessível ao estado. A vida da favela não segue o fluxo racional da burocracia.

Ou seja, no Rio de Janeiro, como no Brasil de forma geral, o estado moderno falhou porque seus mecanismos de vassalagem falharam. A centralização política não foi capaz de partilhar um poder de forma a manter a unidade.

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O que me joga de volta ao começo: dois monolitos estatais interestelares desafiam a suspensão de descrença. Mesmo com faster than light travel, os mecanismos de controle político se quebram naturalmente. Em estados compostos por dezenas de planetas povoados, a simples distância, o mero drift cultural pulveriza o controle político. No começo de LoGH, ocorre inclusive uma rebelião dentro do Império: uma das colônias tenta declarar independência, mas é rapidamente subjugada. Claro, o governo central certamente é mais forte que uma simples colônia, mas no mundo real não é essa a questão que se coloca. Ninguém nega que o governo brasileiro seja mais forte militarmente que gangues de traficantes, and yet elas mantêm o controle de grandes nacos do Rio.

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LoGH, de forma interessante, quaint, traz uma visão clássica do que significa a guerra: uma briga irrelevante entre elites. Ao longo da série, o povo, principalmente no Império, se mostra apático a quem toma o poder. Mesmo a população na Aliança, mais tarde, pouco reage a uma mudança de governo. De fato, com 15 bilhões de habitantes, one wonders qual a representatividade possível de um sistema político unificado nessa escala.

E se o estado não se pulveriza é porque, no longínquo futuro, a humanidade pode ter adquirido nível suficiente de esclarecimento para perceber que o governo, francamente, não importa.

19 de novembro de 2018

Ao ler este texto, você me transfere dinheiro em proporção direta à atividade captada nos seus neurônios



Entro em uma loja, espero ser atacado por tentáculos que se fixam no meu crânio. Com um só movimento, eles inserem suas agulhas em meu cérebro, eletrodos para deep brain scans, se alojam nos slots que foram cirurgicamente implantados em minha cabeça. Olho um produto e, antes mesmo que eu me dê conta, meu dinheiro já foi sacado e prontamente colocado à disposição do empresário. Com uma descarga elétrica dissonante do meu cérebro, a loja leu meus desejos e percebeu que eu gostaria de comprar seus produtos & serviços. Concomitantemente, meu dinheiro é automaticamente baixado de minha carteira na blockchain e adicionado aos fundos da empresa.

A Comunidade Humana juntou suas melhores mentes e decidiu que o problema mais premente, a questão mais urgente, a dor social mais latejante que se deve solucionar é a falta de meios de pagamento africcionais. Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay não passam de concessões, etapas intermediárias no desenvolvimento dos modos de pagamento. Como podemos ficar satisfeitos com essas soluções? -- pergunto eu. Não podemos.

Precisamos de uma utopia quando se trata de pagar contas. Por meio desta correspondência, jogo meu chapéu no ringue das propostas de payment apps que olhem para o futuro, livres do peso do que veio antes. O estado da arte dita que abandonemos nossos cartões plásticos ativados via PIN e adotemos a confirmação dos pagamentos via smartphone; trata-se de uma evolução farsesca que não chega ao core do que significa querer dar dinheiro muito mais rápido para uma empresa.

Penso em algo melhor. Uma proposta future-proof. Ao sair do útero, o bebê deve ser sujeitado a uma leitura preditiva de suas ondas mentais. Seu perfil cerebral, ato contínuo, é enviado à nuvem, onde será analisado e serão determinados seus desenvolvimentos, desejos e demandas futuras. O Sistema cruza as referências da rede neural com dados passados, de imediato cobra o crédito de todo o consumo que será performado pelo humano em toda a sua vida. O nascituro nasce em dívida e paulatinamente quita sua dívida, conectada a seu DNA, ao longo de sua existência.

Numa só tacada, removemos toda a ineficiência de fazer pagamentos através de milhões de iterações ao longo de nosso lifespan. A humanidade, finalmente, poderá se concentrar nas atividades pilares do ordenamento da rotina: trabalho e consumo. Simultaneamente, ninguém mais receberá salários, porque seus rendimentos são automaticamente utilizados para amortizar a dívida contraída no momento do nascimento; e, ao consumir, não é necessário executar o stopgap de um ritual de pagamento.

Machine learning ainda garante que, com o conhecimento dos desejos mais íntimos do ser humano, a classe capitalista seja finalmente empoderada para atender todas as nossas necessidades no momento em que sejam apresentadas. Nunca mais teríamos que nos deparar com a frustração da inexistência de um produto numa prateleira -- qualquer bem já terá sido produzido e enviado para sua residência no momento a manifestação de sua demanda, como predita pelo algoritmo.

17 de novembro de 2018

Eu não quero pagar por nada, eu só quero um jeito de baixar um Whopper via torrent



Speed Talker Mark Zuckerberg, o do filme, não o real, o que é interpretado por aquele moleque de queixo fino cujo nome eu esqueço, disse, em uma das mais memoráveis citações de The Social Network, que os sujeitos que o interpelavam na ação judicial não faziam ideia do nível de trabalho avançado que ele estava desenvolvendo e ao qual ele poderia estar se aplicando, se não estivesse sendo injustamente detido em processos frívolos. Pelo menos eu acho que foi assim, nem vou olhar no IMDb. Me parece uma pretensão comum de tech workers, de que o trabalho que desenvolvem é tão elevado, quando as features avançadas que estão sendo adicionadas à experiência humana são a habilidade de selecionar entre cinco tipos de reações a uma mensagem em vez de apenas o like.

Empresas de tecnologia também parecem hellbent em me oferecer novas formas de pagamento para as coisas. Atualizo meu celular, a contragosto, e a Samsung recoloca o Samsung Pay escondido na parte inferior da tela. Se eu havia optado por desativar o Samsung Pay antes da atualização, ele retorna como uma fênix para saber se eu mudei de ideia. Ainda não aceita nenhum dos meus cartões.

O mercado de soluções de pagamento via celular me faz sentir desconectado da experiência dos fellow humans, espécie da qual eu faço parte, sem nenhuma dúvida. Prometem uma experiência mais rápida, fácil, sem esforço na hora de pagar, mas eu nunca fiquei acordado à noite pensando em como poderiam ser otimizados os passos envolvidos em dar dinheiro pra um comerciante. O processo de colocar um cartão numa máquina e digitar um código de 4 números deveria ser suficientemente simples, mas claramente apenas tolos pensam dessa forma. Em realidade, se trata de mais uma atividade que eu aceito impensadamente, que tem muito a ser polida e um longo caminho para se tornar perfeitamente africcional.

Quanto tempo tempo combinado, em man-hours, nós coletivamente gastamos fazendo pagamentos, laboriosamente digitando 4 números de um PIN repetidamente, por dias, anos e, agora, décadas. O salto tecnológico que poderiamos ter dado (medido em features adicionadas ao Facebook) se não fosse essa ineficiência fundamental; choro de pensar na tragédia.