
Andando pela rua, vi uma criança segurando uma espada recortada em papelão. Ele segurava a espada na frente do próprio corpo. Sem enxergar bem, eu não entendia o que estava acontecendo, era como se o universo estivesse censurando a criança. Na maior parte do seu corpo, eu conseguia ver todos os detalhes, mas, sem entender que era uma espada recortada em papelão na frente do seu corpo, parecia que um trecho de sua existência tinha sido blurred, censurada, estava com uma cor uniforme demais. Até que eu entendi que era uma criança segurando uma espada recortada em papelão.
Em certo momento de Boston Legal, depois de Denny Crane admitir que tem Alzheimer e decidir não tomar mais remédios, ele diz que aprecia o fog. O fato de ele não conseguir acessar toda a sua memória, ou todo o seu repertório emocional, se torna, para ele, uma pequena bênção. Um descanso, um alívio das angústias diárias. Em vez de se importar com a continuidade, Denny agora tem o salvo conduto para simplesmente agir, sem o peso do passado.
O mais próximo que eu chego disso é indo para a academia, quando decido não usar óculos. Com 3 graus de astigmatismo em cada olho, o mundo se torna um blur. A interação é limitada e esse pequeno fog me agrada. Só ver as formas gerais das figuras, não se focar nos detalhes. Estar liberado do peso da concentração.
Minha vida é gasta na frente de telas. Trabalho e entretenimento mediados por telas brilhantes. Um computador numa mesa, iPad, celular. Mesmo ao se desligar das telas, ler, eu estou comandando a minha visão. Ter algo para guiar a visão o tempo inteiro é overwhelming. Imagino que audiobooks sejam uma alternativa. Já ouvi que os gráficos da imaginação são melhores do que qualquer explosão de efeitos visuais, mas o que sempre me atraiu naquilo que eu visualizo mentalmente é a indefinição. A mutabilidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário