31 de dezembro de 2018

A arquitetura do eterno



No 31 de dezembro, eu me encontro do final do Tempo. Não há nada depois deste momento, então só nos resta recordar o que ocorreu no resto do Tempo, quando o universo ainda ocorria.

Num desenvolvimento surpreendente de eventos, pretendo me mudar para São Paulo. Lembro de anos remotos, vivendo, como a maior parte dos capixabas, no Espírito Santo. Até que ocorreu a diáspora do nosso povo. Espalhados pelo mundo, sem um senso de identidade, vivemos numa busca incessante por uma sentido que inexiste além da crença de que nós, sim, nós não temos sotaque.

Como um absoluto idiota, em vez de avançar o plot da minha vida, me mudei para Recife, onde passei 14 anos antes de vir para o Rio de Janeiro. Mediante análise aprofundada de mapas do Brasil, o leitor atento percebe que Recife é muito mais longe de São Paulo que o Rio de Janeiro. Parece insanidade porque é.

E agora, no Rio de Janeiro há 3 anos, me vejo de malas prontas para São Paulo, como um múltiplo retirante que se recusava a aceitar o próprio destino, como se São Paulo não fosse o destino óbvio desde sempre. Agora, minha finalidade predeterminada se aproxima.

Se existe uma coisa que me irrita profundamente é o pacing da minha vida. O plot da minha existência simplesmente não avança num compasso adequado, evoluindo paulatinamente. O personagem principal, eu, sequer mostra sinais de desenvolvimento. Se sua existência não fosse tão inextricavelmente ligada ao meu senso de self, certamente eu já teria dropado a série.

Minha vida, eu diria, é mal escrita, mal dirigida. São Paulo finalmente me permitirá explorar o endgame content.

Nunca houve qualquer outra alternativa, porque enquanto escritor, eu faço parte da classe de empregados em trabalhos artificiais keynesianos. O único lugar que sustenta pesos sociais dessa laia é a terra da garoa. São Paulo juntou uma massa crítica de gente como eu, nódulos no multiplicador monetário, assalariados que servem apenas para receber dinheiro, passá-lo para frente e aumentar o fator de velocidade da moeda.

Eu gostaria de encontrar um throughline, uma linha temática que amarre todos os eventos de 2018. Como millennial, minha existência se dá em estado de fluxo. Meu sonho era conquistar estrutura. Uma casa, uma família; a confiança reconfortante no fim do dia que meu lugar na ordem geral das coisas estava assegurado.

Fracassei. Não consegui construir nem uma casa, nem uma família, nem estabelecer um status quo seguro. O que eu sempre busquei foi a certeza de que minhas ações são causa e têm efeitos determinados. Assim, eu poderia me estabelecer objetivos claros, trabalhar em direção a eles e, finalmente, retornar ao status quo: minha casa, meu lar, minha família, um porto seguro.

Todos os eventos fazem sentido numa escala impossivelmente grande. A batalha humana é comprimir uma estrutura que faz sentido em termos universais para uma escala microscópica que encaixe num cérebro primata. É fútil.

Essa é a lição de 2018. O tempo foi destruído. Embrace the random.

Feliz 2019.

24 de dezembro de 2018

Como fazer sua pirâmide



Neste thread, descobri que agora os esquemas de pirâmide evoluíram para incorporar a estética feminista. Ao invés de te prometer Rolex e andar de Porsche, como a Hinode, a Mandala dos Sonhos (ou Tear dos Sonhos, ou Mandala da Prosperidade; tem algumas variações sobre o mesmo tema) promete empoderamento e apoio às minas, ou quem sabe às manas.

Em discussões sobre pirâmide, claro, aparece sempre algum otário que está sendo ativamente extorquido pelo esquema para defendê-lo. Não é diferente aqui: rolando a página para baixo você já consegue rapidamente uma infeliz que foi engambelada. A parte boa, porém, é sua estética na defesa do esquema: ocorre que o sistema capitalista em si é uma grande pirâmide, porque existe uma minoria que ganha mais acima de todos nós. Assim, claramente não há diferença entre esquemas Ponzi e desigualdade de renda na sociedade. Afinal, a Mandala dos Sonhos sequer é no formato de pirâmide, mas no formato de mandala (você começa nas extremidades e gradualmente se aproxima do centro, claro).

Fiquei fascinado com uma pirâmide que adota todas buzzwords feministas (sororidade, união feminina, luta contra o patriarcado, todas juntas), porque, obviamente, esquemas de pirâmide convencionais adotam uma estética geared para a pobreza. Falam em pagar boleto, em fazer grandes viagens, em cruzeiros, em carros espetaculares; desejos tão distintos, mas ao mesmo tempo tão básicos, fundantes da identidade do indivíduo que podem ser facilmente manipulados pela pirâmide.

Se para pobres o desejo ativado é um e para feminista é outro, mas o resultado piramidal é o mesmo, estava pensando numa estética para adotar para um esquema Ponzi bro normie. Ao invés de formato pirâmide ou formato mandala, meu esquema teria formato campo de futebol. Você começa no meio do campo, mas gradualmente se aproxima das extremidades, para marcar o gol.

Se na Hinode ou Herbalife, os níveis têm nomes como "Diamante Ultra Plus Black" e "Duplo Platina Master", no meu esquema campo de futebol não-pirâmide, os níveis teriam nomes como "zagueiro", "ala", "marcador", "atacante", "craque", "artilheiro", "bola de ouro". Ao invés de enfatizar viagens de cruzeiro, que são fantasias das classes baixas, neste caso podemos falar de viagens a Ibiza, clubes, mulheres. Acho que já cheguei a um conceito vencedor, vou fazer o site.

Feliz Natal a todos.

Don't apologize



Qualquer recomendação, resenha, comentário ou discurso público que mencione JRPGs tem que, necessariamente, falar que adotam ou não as mecânicas datadas que são típicas do gênero. Nenhum outro gênero parece sofrer disso -- nem mesmo aqueles que são efetivamente datados e menos populares. É uma impressão geral que eu tenho, mas não quero ter que procurar exemplos. Se você de alguma maneira pensa que já viu esse discurso repetido pela internet, prossiga.

É difícil encontrar alguém que critique as mecânicas gerais de text adventures -- é um gênero de nicho com características próprias, seria borderline insano exigir que ele fosse adaptado a sensibilidades modernas. O mais provável é que o próprio jogador deva se adaptar aos tropes & ropes do gênero; o cérebro humano possui plasticidade, é possível se colocar num estado mental capaz de aproveitar mídias em outros termos.

A questão é mais profunda, contudo: JRPG parece ser o único gênero de videogame em que suas próprias características são detestadas no discurso público. Tudo que torna JRPGs JRPGs é reviled. Batalhas em turno? Datadas. Encontros aleatórios? Terríveis. Histórias lineares? Deveriam ter ficado nos anos 90.

Imagino que boa parte desse discurso parta de reviewers profissionais de jogos. Gente que é paga para jogar a maior quantidade de videogames possível, detesta a cadência desacelerada de JRPGs e se acostumou a achar que "variedade" dentro de jogos é um fator inexoravelmente positivo -- o que explica as perpétuas notas altas de jogos em que as atividades que ocupam a maior parte do tempo são absolutamente genéricas, como os da Rockstar.

É curioso notar que jogos que adotam tantos tropes datados, como Final Fantasy VII, ou Dragon Quest VIII, ou mesmo Pokémon, ainda são amplamente jogados, venerados, destrinchados. Gêneros modernos, por outro lado, que adotam as mais novas tendências do design de jogos, no entanto, parecem não resistir por muito tempo.

Onde ficaram todos os cover shooters de 3 anos atrás? Pra onde foram todos os console FPSs com HP regenerativo? Os novos Final Fantasies, com suas lutas tão cheias de ação, não parecem ter o mesmo staying power de Final Fantasy VI, com sua ATB e plot linear.

O discurso sobre JRPGs precisa evoluir -- o que significa voltar para os anos 1990. Como Octopath Traveler, JRPGs não precisam se esconder e o gênero pode ser recomendado sem nenhuma ressalva. E se o próximo Dragon Quest vier sem batalhas em turno, a culpa vai ser do Polygon.

16 de dezembro de 2018

A look back



Terminei meu autodesafio, escrever todos os dias por um mês. Por que eu fiz isso? Porque eu cansei do grind diário da minha vida e queria voltar a ter este outlet criativo. Realmente sentia falta de escrever -- e escrever sem muita preocupação -- e essa foi uma das coisas que o desafio me mostrou: eu precisava produzir sem limitações.

Outra coisa que o mês me mostrou foi que eu passei a pensar diferente. Desde sempre, meu approach com este blog foi simplesmente deixar que aparecessem Coisas Para Escrever. Eu nunca sairia do meu caminho, os posts seriam equivalentes a uma revelação divina. Daí sua infrequência durante tantos anos.

Era um jeito errado de encarar este blog. Este blog sempre foi um escape. Outros sites abrigam meus escritos sérios -- e meu day job também requer que eu escreva. Mas aqui? Aqui era pra eu simplesmente escrever whatever, sem qualquer constraint ou pressão. O erro é imaginar que, por não ter que escrever neste blog, eu não deva. Que o que eu escrevo em outros lugares é meu trabalho sério ou worthwhile. Não. Aqui está o writing que eu consigo dizer que é realmente meu. Se nós precisamos gastar 10.000 horas numa habilidade para dominá-la, eu posso dizer que já dominei escrever; mas não escrever do jeito que eu quero, aqui. Ainda preciso de umas milhares de horas neste blog.

Digna de nota é a minha percepção do que significa escrever. Mentalmente, eu passei a classificar as experiências diárias como eu as escreveria. Isso derrubou a barreira entre o mundo e o que eu escrevo. Qualquer coisa é digna de estar aqui, precisa só do meu input criativo.

Apesar dos atrasos, das course corrections e dos demais problemas off-blog que tive ao longo do mês, a experiência foi das melhores. Agora, como eu disse em outro post, vou trabalhar pra mover todo o conteúdo daqui para o meu próprio servidor, porque não há mais esperança para o Blogger. Quero fazer um trabalho melhor de preservar tudo o que eu já produzi. So, let's do it.

14 de dezembro de 2018

On sight



Andando pela rua, vi uma criança segurando uma espada recortada em papelão. Ele segurava a espada na frente do próprio corpo. Sem enxergar bem, eu não entendia o que estava acontecendo, era como se o universo estivesse censurando a criança. Na maior parte do seu corpo, eu conseguia ver todos os detalhes, mas, sem entender que era uma espada recortada em papelão na frente do seu corpo, parecia que um trecho de sua existência tinha sido blurred, censurada, estava com uma cor uniforme demais. Até que eu entendi que era uma criança segurando uma espada recortada em papelão.

Em certo momento de Boston Legal, depois de Denny Crane admitir que tem Alzheimer e decidir não tomar mais remédios, ele diz que aprecia o fog. O fato de ele não conseguir acessar toda a sua memória, ou todo o seu repertório emocional, se torna, para ele, uma pequena bênção. Um descanso, um alívio das angústias diárias. Em vez de se importar com a continuidade, Denny agora tem o salvo conduto para simplesmente agir, sem o peso do passado.

O mais próximo que eu chego disso é indo para a academia, quando decido não usar óculos. Com 3 graus de astigmatismo em cada olho, o mundo se torna um blur. A interação é limitada e esse pequeno fog me agrada. Só ver as formas gerais das figuras, não se focar nos detalhes. Estar liberado do peso da concentração.

Minha vida é gasta na frente de telas. Trabalho e entretenimento mediados por telas brilhantes. Um computador numa mesa, iPad, celular. Mesmo ao se desligar das telas, ler, eu estou comandando a minha visão. Ter algo para guiar a visão o tempo inteiro é overwhelming. Imagino que audiobooks sejam uma alternativa. Já ouvi que os gráficos da imaginação são melhores do que qualquer explosão de efeitos visuais, mas o que sempre me atraiu naquilo que eu visualizo mentalmente é a indefinição. A mutabilidade.

11 de dezembro de 2018

A internet decidiu coletivamente hog minha visão a todo o tempo. I'm fighting back and you should too



De forma um tanto curiosa, o desenvolvimento e streamlining das plataformas de publicação de vídeo na internet aparentemente foi concomitante com o interesse exclusivo das audiências por vídeos. Não áudio, jamais textos; apenas, tão somente, vídeo. Parabéns ao Empreendimento Humano por tão rapidamente captar o desejo exclusivo da sociedade de nunca mais consumir nada em formato não-audiovisual.

O famoso pivot to video, propalado pelo Facebook, que agora recebe processo dos descamisados que antes focavam em outras mídias, sempre foi baseado numa farsa. Que teria sido percebida facilmente se a internet, como os demais movimentos coletivos humanos, não funcionasse à base de histerias e passos em manada.

Vídeos são como um bebê que chora e precisa de atenção imediata. São, efetivamente, a mídia mais heavy handed. São consumidos em pedaços grandes, que frequentemente não podem ser repartidos. Têm um throughline específico e um pacing que requer que sejam assistidos de uma só vez.

Compare com textos, livros, quadrinhos e, por que não?, música. Estas são mídias mais suaves. Elas não requerem 100% da sua atenção a todo momento. Podem ser consumidos, geralmente, em nacos menores. Podem ser deixados de lado sem grandes consequências e retomados sem causar maiores danos. Recompensam a atenção não-dividida e o investimento ininterrupto, mas não punem pelo não-compliance.

Vídeo, por outro lado, tem um piso rígido para a atenção requerida. Assim, as empresas fazem vídeos, com produções cristalinas, aumentam seus custos e não alcançam o público. Como?

Perceba que a expansão de "vídeos" efetivamente se deu não com conteúdo que se beneficia da visualidade. Podcasts, vídeos "analíticos", reviews, streams de videogame. O conteúdo predominante do YouTube e toda a base do Twitch é de conteúdos de baixa demanda -- grande parte dos quais poderia ser facilmente traduzido em texto. É como se, coletivamente, tivéssemos só agora descoberto a fórmula do sucesso de Big Bang Theory -- o fato de que a maioria das pessoas deixa a TV ligada em um episódio sem prestar completa atenção. Porque é possível entender um episódio nesses termos.

Anos atrás, na histeria pré-vídeo, com áudio no formato podcast, Welcome to Night Vale ganhou notoriedade. Li os scripts, achei interessante, por vezes excepcionalmente clever. Decidi ouvir o podcast. A cadência não me desceu. Não conseguia escutar a voz do narrador. Desisti. Mas o texto tinha apelo. Eu poderia continuar a consumir o podcast em seu formato legado, apesar da insistência da internet.

E se o portal de notícias decidiu que eu posso gastar 8 minutos assistindo a um vídeo em vez de publicar textualmente a informação, eu casualmente declino e aperto o pause.

Learning not to be ill



Pouco mais de três anos atrás, no dia 19 de agosto de 2015, operei minhas costas para curar uma hérnia de disco. Não funcionou, eu escrevi whining and moaning about it. Mesmo depois de substituir meu disco fissurado que se encontrava entre as vértebras L5 e S1 por um disco sintético afixado por parafusos de titânio, minhas costas pareciam ainda sofrer, o nervo ciático ainda se sentindo empurrado por um abaulamento inexistente.

Fui em médicos; todos me disseram que não havia nada de errado. Minhas costas, estruturalmente, estavam perfeitas. Eu não devia sentir dor, embora ela estivesse lá. Uma dor fantasma, talvez, a sofrência de algo que desaprendeu a ser saudável.

Um problema é que você se acha incapaz de dizer que melhorou; você sabe que sente dores, mas como dizer se estão mais brandas do que antes da cirurgia? Se dizer que piorou, é sinal de capitulação. Tudo que você fez foi em vão, todo o sofrimento acessório à cirurgia, toda a recuperação, todo o trabalho pra convencer o plano de saúde a gastar alguns milhares de reais na empreitada.

Então você se convence, como eu me convenci, de que, não sendo perfeita, era uma situação um pouco melhor, uma elevação da utilidade, meu ótimo de Pareto. Mas eu continuava a sentir dor.

Porém, sem nem me dar conta, as dores foram se moderando, tornando-se ocasionais, cedendo em seu relentless drive. Talvez a fonte da dor de fato não exista há 3 anos, mas só agora meu cérebro aprendeu que não deve mais sentir nada na região e meu ciático se acostumou a não ser pressionado pelo disco lesionado.

Essa dor, this fucking pain, é uma chaga na minha vida há mais de meia década. Desaprendi a viver em liberdade. A não estar sempre consciente do meu desconforto presente ou potencial. Minha grumpiness está sempre pronta para assomar à face ao primeiro sinal de dor de coluna.

And yet, agora essa muleta, pouco a pouco, vai sumindo. Já posso ir na academia sem maiores restrições. Finalmente faço atividade física por tempo estendido, levanto peso. Faço a posição do Alá, alongamento de coluna, mais como ritual diário, não porque é estritamente necessária ao bem estar.

Funnily enough, indo a uma academia de jiu-jitsu para sondar preços, falo da minha insegurança com o professor, que diz que todo jiteiro tem várias hérnias de disco anyway, então não é um big deal. Fiquei absolutamente horrorizado com aquela menção e mentalmente já me fechei à possibilidade da prática do esporte.

Mas esse é um receio que não me cabe mais. Vivi por anos no regime do medo, resignado ao destino de que meu corpo ia me falhar. Não é mais o caso.

Quem tem o corpo saudável -- no sentido de funcionalidade, sem dores ou limitações específicas, não com um significado vago de wellness -- normalmente não percebe suas práticas diárias vêm do hábito de não ter limitações. E eu percebo que preciso reganhar esses hábitos porque desaprendi a funcionar.

Sobre Newtypes e Alaya-Vijnana systems



A presença dos Newtypes, humanos com habilidades psíquicas expandidas, em Mobile Suit Gundam, de fato empresta certa poesia ao fato de que se trata de uma série sobre os horrores da guerra (com a presença de robôs gigantes, máquinas de combate mortíferas à mesma medida que vendáveis em forma de brinquedos). Os Newtypes, especialmente os mais desenvolvidos, têm amplas habilidades empatas. São capazes de perceber outros indivíduos espacialmente e se comunicar mentalmente, de forma somewhat limitada.

Ironia fundamental em Gundam é o fato de que, como uma série de guerra, essas habilidades, essencialmente construtivas e potencialmente conciliadoras, são usadas para a guerra. A rivalidade principal da timeline original de Gundam, entre Amuro e Char, ocorre basicamente por um desentendimento. Como Newtypes, ambos seriam capazes de perceber com maior acuidade os reais sentimentos um do outro, mas isso jamais acontece.

Quando aparecem logo no final da série original de 1979, os Newtypes parecem um plot device sem qualquer signficado. De fato, sua inclusão nas demais séries de Gundam parece ser uneven, mas o diretor, Yoshiyuki Tomino, parecia estar consciente da contradição fundamental no âmago dos Newtypes serem tratados como soldados. A primeira personagem com habilidades especiais que vemos, afinal, Lalah Sune, é absolutamente pacífica e é jogada no meio da guerra como retribuição ao apoio que Char lhe deu ao longo da vida.

Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans, uma série em um universo paralelo que recicla alguns temas da original, tem o sistema Alaya-Vijnana em vez dos Newtypes. Como os poderes psíquicos Newtypes, o Alaya-Vijnana permite que os pilotos dos robozões sejam máquinas de guerra muito mais eficientes. É um plugue implantado diretamente na coluna do paciente e permite que máquinas sejam conectadas diretamente ao piloto, para dar uma interface de controle imediato através do sistema nervoso.

Mas, em contraposição aos Newtypes, o implante AV é como uma estrela amarela, uma marca das classes inferiores. O perigo da cirurgia do implante indica a falta de valor da vida dos que são sujeitados a ela. Os que recebem o implante com sucesso ganham valor como trabalhadores, mas apenas enquanto puderem executar os trabalhos mais perigosos.

A contraposição dos dois conceitos me parece interessante. Enquanto o Newtype é, em essência, um sistema de comunicação humana elevada, o AV é um sistema de comunicação com máquinas. Há uma divisão intensa entre a comunicação humana, nuançada e imperfeita, e o infodump dos robôs gigantes, em comunicação direta com a coluna cervical dos pilotos.

Enquanto a guerra, no Universal Century, com a presença dos Newtypes parece uma fatalidade evitável, no universo de Iron-Blooded Orphans, o implante do AV em membros da underclass é sua metonímia.

10 de dezembro de 2018

Marketing singularity



Vendo anúncios de produtos como o FreeCô, dá pra presumir que nós estamos vivendo numa realidade totalmente moldada por Nathan For You, onde todo aspecto da existência é perfeitamente saturado de marketing; um mascote pra uma parada que você borrifa no vaso parece algo exaustivamente colocado à prova em A/B testing; o site do produto é perfeitamente moderno, amplamente ilustrado; você pode comprar caixas com dezenas de frascos, existe um programa de assinatura, há um kit com uma necessaire que vem com um cocô mascote de pelúcia.

A certo ponto, a sátira perde totalmente o sentido. A Amazon já casualmente reportou que empregou os preceitos de The Movement para uma de suas entregadoras.

Se os recursos do design servem para instrumentalizar os impulsos humanos generalizados, o marketing parece viver sob a ilusão de que, se perfeitamente manicurar uma marca, não um produto, ela realmente vai dizer algo. Departamentos de marketing ficam obcecados com cores, com palavras proibidas, em inspirar os consumidores. Produtos sequer entram na equação.

Acomete-me o sentimento de que, chegando a dezembro, eu já assisti à 15ª revolução tecnologica, uma completa destruição criativa, uma disruption que reorganizou os dados do mercado. Sim, um novo aplicativo entrou no mercado e, com ele, as pessoas podem conversar umas com as outras através de uma interface de chat. Uma singularidade do marketing. Imagine as oportunidades.

Em 2019, nada pode parar a carreata de inovações através de novos aplicativos de chat.

7 de dezembro de 2018

Internet analytics are a sham



Analytics dão às pessoas a sensação de que elas têm um controle muito grande sobre o próprio sucesso, quando a verdade é que o que o determina é uma série de fatores fora do controle do autor.

Produtores de vídeos para o Youtube, streamers, escritores, personalides do Twitter -- todos pensam que, com as ferramentas adequadas de visualização da audiência, com dados, vão conseguir prever quais os fatores preponderantes para o sucesso. Os números dão uma ideia de objetividade, de preditividade óbvia: mas são apenas a faceta visualizável de um sucesso que, até onde sabemos, pode ser once in a lifetime.

Não só: mesmo com essa capacidade, que vão conseguir reproduzir infinitamente os fatores que levaram ao sucesso inicial, como se a capacidade humana de replicar os fatores sensíveis que levam ao spread de algo fosse infinita, ou que a audiência vai sempre buscar as mesmas características que levaram ao sucesso no princípio.

Existe uma indústria inteira baseada nessa ideia: social media, onde eu já trabalhei. É requerido de você que publique relatórios mensais, semestrais, anuais, sempre mostrando "crescimento" de alguma forma em indicadores como likes, visualizações, minutos assistidos, permanência na página, etc.

Sinto que a busca pela bala de prata é perpétua e que inevitavelmente termina numa conclusão simples, que apenas se tivesse sido seguida poderia ter mudado todo o rumo do sucesso do conteúdo na internet. O marketing pago não foi suficiente? Pôsters não foram colocados em locais apropriados? O thumbnail não funcionou corretamente? Não houve uma mensagem chamativa o suficiente?

Hoje em dia, estou mais confortável com o fato de que quase tudo está fora das minhas mãos. A única coisa que eu, de fato, controlo é o quanto eu escrevo. O gap entre as mentes das pessoas é um obstáculo insuperável, mas com iterações suficientes, nós nos aproximamos. Ser prolífico é a única resposta.

Mais um inacreditável post sobre Death Note



Não me lembro se no piloto ou se na própria série (imagino que fosse no piloto), mas em algum momento de Death Note, o personagem principal escreve o nome de alguém no caderno com o caveat de que a pessoa teria uma "morte pacífica". Era possível descrever como a vítima morreria no caderno e esse sempre foi um bit específico de nonsense da história que adicionava um pouco de sabor. A regra permanece na versão final de Death Note, onde há momentos em que Light escreve que alguém será morto por atropelamento, forçando a pessoa a atravessar a rua.

A ideia de que o Death Note não é só uma máquina de ataque exógena, mas algo que se aloja no cérebro da vítima é interessante.

Imagina se, canonicamente, o Death Note fosse uma ferramenta de controle mental do Projeto MKULTRA? Afinal, esse é o maior poder do caderno. Talvez as mortes fossem só um efeito colateral do uso de psicotrópicos.

E o shinigami acoplado ao caderno? Outra alucinação. O Death Note, afinal, era só mais uma obra de arte expressionista financiada pela CIA.

Mas, de fato, o fator mais solto em Death Note era a tal morte pacífica, porque não apenas o caderno poderia te atacar de alguma forma, mesmo que sobrenaturalmente, mas poderia modificar a própria estrutura da realidade, cessando sua vida sem dor, sem doença, sem trauma. Um processo de senescência infinito. Talvez o dono do caderno pudesse escrever sobre uma próxima vítima: "Ele desaparecerá do universo sem deixar rastros, sua matéria subtraída do tecido do real para sempre".

4 de dezembro de 2018

Agência



Sou um maximalista de agência.

Me parece claro que o cérebro humano, por existir no tempo, formata narrativas que tentam coerenciar imagens díspares do self. Essas imagens coalescem e formam um todo mais ou menos rígido, que é o que nós somos. Não o que nós somos em determinado momento, mas o que nós somos em essência. O eu platônico.

Claro que esse é um funcionamento desotimizado da máquina humana, mas frequentemente nós não conseguimos escapar dessas histórias autoimpostas. O que sou eu? O que eu (um eu dettached) faria nesta situação? E então nós seguimos, como mindless drones, para uma conclusão qualquer imposta pelas auto-histórias.

Vocé é mau e por isso faz coisas ruins ou é mau porque faz coisas ruins? A primeira opção é uma escolha conveniente, tira sua agência, sua escolha, seu poder. É uma narrativa autolimitante. A moralidade aplicada ao passado é uma parábola, não uma bússola para a ação; você não vai melhorar só porque sabe que é mau e já agiu mal no passado.

Talvez o problema seja a limitação temporal a que estamos submetidos neste vale de lágrimas. Mas se é impossível escapar de narrativas porque somos indivíduos discretos com histórias particulares, a resposta é abandonar nossos corpos.

Com o upload da mente para o hivemind, podemos viver apenas com uma culpa coletiva, católica, dispersa, que jamais será capaz de nos limitar. Agência total.

Isekai



Quando a Globo ficou tão obviamente flanderizada?

Em algum momento do passado, parei de assistir TV, porque eu imagino que é o que todo o mundo tenha coletivamente concordado em fazer. Agora, para minha surpesa, em vez de canais sortidos do grupo Trending do Youtube, os aparelhos de televisão da academia passam novelas da Globo enquanto eu estou fazendo meu (muito curto) cardio. Sempre sem som, com closed captions.

Via a novela das 6h, Espelho da Vida. Nela, uma mulher chamou um homem para uma sala e o seduziu. Quando os dois se beijavam, apareceu uma outra mulher, que claramente tinha um relacionamento prévio com o homem que se deixou levar pelos encantos de uma outra. Agora que sua parceira entrava em cena, ela já começava a falar, de acordo com as legendas providas com algum delay: "Foi para isso que você me chamou aqui, Fulano? Seu cafajeste, etc, etc".

Então o cara foi atrás da mulher dizendo: "Não é isso que você está pensando! Calma, Sicrana!"

E a sedutora ficou para trás, admirando sua maquinação bem sucedida, com um sorriso no rosto. Talvez ela tenha esfregado as mãos, mas eu não pude comprovar. Ela estava muito satisfeita.

Nesse interim, a sensação constante é que estamos numa low power simulation, como o Jerry ouvindo Human Music.

É como se a dramaturgia Globo ideal tivesse sido extraída do meu cérebro e transportada para o universo real. Uma caricatura total do que significa uma novela.

Todas as falas sempre montadas com face shots alternados, de forma que a geografia do local onde os personagens se encontram sempre pareça um tanto confusa. Como se Hermes e Renato tivessem sido chamados pra reencenar O Proxeneta perpetuamente na rede líder nacional.

Tem algo de errado. Essa não pode ser aa real Globo.

Estou com medo que todas pessoas no meu mundo tenham sido substituídas por doppelgangers agora. Quem é real? São todos impostores? Isso não pode ser a síndrome de Capgras porque é real.

2 de dezembro de 2018

Capitalismo como sistema biomimético



Existe algo de fundamentalmente galbraithiano no fato de que a aceitação e a respeitabilidade de alguma atividade vêm com sua produção corporativa, que normalmente escova todo caos que escorre pelo meio. Afinal, as grandes corporações, assim como o grande público, são alérgicos à natureza capitalista de qualquer atividade. Antes de passar na TV, é necessário esconder diligentemente qualquer sinal de dinheiro que não circule pelos canais autorizados. Assim, MMA e jogos de luta, que são essencialmente prizefighting, se tornam campeonatos esterilizados. Morfados em TV programming, sua importância deriva do fato de que aparecem num grande canal -- não porque são atividades que, em si, importam para alguém.

Circula a ideia de que o capitalismo sem freios se manifesta, necessariamente, num sistema parecido com o atual, em que basicamente tudo tem que passar por grandes tubos corporativos para se manter vivo. Mas isso parece muito mais um capitalismo regulado, burocratizado e carimbado, certo?

Grandes corporações, afinal, são grandes forças disciplinadoras do mundo atual, achatando toda a complexidade, escovando todo o sinal de complexidade. Autores de esquerda gostam de comparar o capitalismo a um mecanismo, uma força impessoalizada de processamento de valores; e, no caso da sociedade corporativa, suspeito que estejam certos.

Mas, o capitalismo, quando se manifesta sem freio, é um vetor de complexidade fractal, conectividade crescente. Se manifesta menos como algo parecido como máquina e mais como um tecido orgânico. Se Apple, Google, Amazon e os oligopólios de mídia são tecnomecânicos, o capitalismo total é biomimético.

1 de dezembro de 2018

Monetized into meaninglessness



O final do documentário Fighting in the Age of Loneliness (doravante FitAoL), depois de uma resenha geralmente correta sobre o estado do MMA em 2018, traz a seguinte passagem:
Fighting has rid itself from so much of its magic. It does not transcend the world anymore. It is our world. If you somehow made it to the end of this and you're not an MMA fan, I hope you take away one thing from all of this: This will happen to everything that you love. Nothing you like will remain untouched, and it will get further and further monetized into meaninglessness.
Essa passagem martelou na minha cabeça por algum tempo, principalmente porque, no mesmo dia, vi outro documentário: Stay Free: The Team Spooky Story. Para meu hipotético leitor que não conhece o Team Spooky, é o maior canal de transmissão de torneios de jogos de luta. E essas são duas coisas que eu amo: MMA e jogos de luta. É difícil até diferenciar as duas coisas na minha cabeça; são fight cards.

A pessoa Spooky, Victor Fontanez, era só um cara qualquer que decidiu fazer torneios de Melty Blood na calçada em Nova York e gravar os vídeos para colocar na internet. Eventualmente, ele abriu um canal no Justin.tv e, mais tarde, no Twitch. Como o próprio Spooky era respeitado na Fighting Game Community, ele começou a fazer torneios cada vez maiores.

Até que, em 2010, nas finais de Super Street Fighter IV no EVO, o maior torneio da FGC, o stream oficial caiu. A decepção generalizada levou a uma campanha para que o Spooky assumisse as transmissões do EVO.

Parte interessante dessa história é que, com status ascendente, o EVO seria transmitido pela IGN. O dilema era: nós monetizamos nosso torneio into meaninglessness ou damos a transmissão para esse cara qualquer que jogava Melty na calçada?

Spooky fez o stream.

*

O MMA em 2018 é tão absolutamente corporativo, amorfo, polido. É um produto perfeitamente degustável e descartável. Todo o teatro de Conor McGregor cheira a ensaiado, a roteirizado, ensaboado, scripted com tropes enfadonhos. Suas brigas fora do cage soam premeditadas. E os stakes são baixíssimos. Conor McGregor nunca vai ser preso, não importa quantos carrinhos de mala ele arremessar em ônibus de outras pessoas.

O UFC está na TV, com um schedule muito previsível: se uma luta acabar muito cedo, nós temos 15 minutos de filler com pundits usando gravatas nas mesas decoradas com uma quantidade exorbitante de LED. Todos os nossos atletas são uniformizados e fazem testes antidoping aleatórios.

Lembra do Pride? Com lutas com figuras burlescas como Zuluzinho e Hong-Man Choi, e a run absurda de Maurício Shogun Rua no Pride GP de 2005, que jamais vai ser superada. Um evento quirky, feito por pessoas quirky, ocasionalmente pagas pela máfia japonesa. Isso nunca mais vai acontecer.

Com um sorriso no rosto, o UFC agora é um produto perfeito. O caminho natural, aponta FitAoL, é adotar a exclamação do Jeb Bush:



*

Nós presumimos que esse é o rumo inevitável do capitalismo: você tem algo de valor potencial, que se transforma em hobby, cresce em adeptos, recebe dinheiro e se reempacota como produto. No caminho, você perde toda a estranheza original da comunidade em prol da acessibilidade total.

O MMA, um outlet de pessoas esquisitas, que seguiram rumos estranhos e eram frequentemente pagas em maletas de dinheiro por yakuza no Japão para lutar, agora é um esporte perfeitamente pasteurizado. Em Stay Free, Seth Killian diz que a estratégia principal para mostrar que torneios de jogos de luta importavam era colocar cada vez mais dinheiro.

Dana White sonhava com a uniformidade e a respeitabilidade que as grandes redes de TV dariam ao UFC. Seriam comparáveis aos esportes veneráveis: futebol americano, basquete. Commodities estabelecidas.

É a estratégia de vendas do capitalismo corporativo -- a única que ele conhece. O leitor pode observar que o dinheiro entra em atividades de todo tipo de maneira: em torneios de Muay Thai, onde as apostas alimentam todo o negócio. Nos prize pots de jogos de luta. Em lutas de MMA, o sujeito faz uma tatuagem com uma marca ou raspa os pelos do peito para fazer propaganda de outra. O short de um lutador traz a marca Condom Depot.

Por todos os nichos culturais, o dinheiro flui de forma caótica.

O capitalismo corporativo se esforça para disciplinar esse fluxo. Elas secam todos os elementos caóticos e eminentemente atraentes à cultura interna do nicho para sacrificá-los no altar da Presentation. O salto em production values de qualquer coisa sempre é acompanhado, eu observo, pela destruição de qualquer tipo de personalidade. O dinheiro que flui no seu torneio é invisível, ilegível para entidades como o IGN ou a ESPN. Por isso, a torneira deles é sempre fechada.

Não precisa ser assim. É possível escolher o Team Spooky em vez do IGN.

A produção de mídia em 2018 é avessa à uniformidade e refratária à respeitabilidade. É possível abraçar o aleatório e, com isso, monetize the things you love into meaningfulness.