
Americanos vivem em uma história, numa vida perfeitamente artificial, na qual o mundo inteiro se espelha. Estados Unidos são o teatro do planeta, a free speech zone — convenientemente, o lugar que mais protege o livre discurso.
Se, com frequência, o brasileiro ou o europeu se surpreendem com a falta de conhecimento do americano médio sobre o resto do mundo, é simplesmente porque quebraria a quarta parede se fossem escolados demais sobre o universo aqui fora. Os EUA são o cercadinho onde o mundo vê suas fantasias. O personagem não conversa com a audiência.
Os americanos nascem e são jogados imediatamente na jornada do herói, com seu arco de queda e redenção. É tudo tão relatable.
Bolsonaro? É apenas um Donald Trump dos trópicos. O brasileiro assiste aos americanos na TV, xingando ou elogiando Trump, e pensa "wow, they are literally me". Até o Bolsonaro acredita que é literalmente Trump. Todos discutimos sobre gênero, manspreading e bropriating como perfeitos americanos falidos por empréstimos estudantis.
O arco da pandemia não teve forças para resistir a mais de uma temporada, então voltamos para uma saga antiga mas que deixou o público com gostinho de quero mais, a fan favorite, Black Lives Matter.
Era o que todos nós, não-americanos, precisávamos para sair às ruas. Uma história americana perfeitamente coreografada por americanos. Que montagem. Finalmente tivemos algo que nos incitasse realmente a protestar contra a violência policial no Brasil. Eventos brasileiros não são tão bem filmados.
Há algum tempo, estudar no Múltipla Escolha e tomar suco com a rapaziada no Gigabyte eram perfeitas metonímias da vida no Brasil, não importa o quão distantes estivessem da vida do brasileiro médio. E, assim como Malhação, o bairro do Limoeiro da Turma da Mônica tem lá seu je ne sais quoi que nos enfeitiça a acreditar que aquilo se trata realmente do Brasil. A artificialidade da construção desses settings não tem qualquer importância.
Mas esses são modelos de uma época que passou. Hoje nós somos os EUA. Olhamos para seus ônibus escolares amarelos e pensamos "wow, that is literally me".
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