5 de dezembro de 2004

O triste fim do Cinema Guararapes

Eu estava voltando para casa outro dia, como normalmente faço, quando um travesti passou uma cantada em mim. "Gatcinhô!" Saí correndo para evitar contato com tal pessoa. Temi por minha vida. Esses travestis são maiores e mais fortes que eu. Formam um paredão de prostituição na avenida Domingos Ferreira, por onde eu ando. Saí correndo do primeiro travesti. Rapidamente, mais cinco organizaram um paredão à frente. Passei a rasteira no da esquerda. Dei uma voadora no que estava ao lado.

Os três que eu ainda não havia nocauteado ficaram à minha volta. Protegi a traseira do meu corpinho imaculado. Percebi que estava sem saída. Só restou uma saída: desenhei a constelação de Pégaso no ar e usei os meteoros.

Corri para o aconchego do meu lar. Mais 136 travestis se organizaram em posição de ataque atrás de mim. Mas não sou louco. Meu cosmo ainda não era capaz de enfrentá-los. Fugi.

No caminho para casa, pensei no que fazer naquele dia. Decidi ir ao Cinema Guararapes, curiosamente localizado no Shopping Guararapes. Algo que não fosse danoso à minha integridade física.

Pensei em chamar alguém para ir. Mas o Cinema Guararapes é muito legal e eu não gosto de dividir minha felicidade com ninguém. Gosto apenas de fazer inveja nas outras pessoas. Fui pegar o ônibus. Como o ônibus vai direto ao Shopping Guararapes, percebi que, saltando lá, alguém poderia me seguir até o cinema e eu não mais poderia me divertir sozinho. Fui a pé.

Umas cinco horas se passaram e eu cheguei ao shopping. Dirigi-me diretamente ao cinema. Não me lembro do filme que passava. Isso não faz a mínima diferença, no entanto. Comprei o bilhete da única película em cartaz e fui dá-lo ao lanterninha que estava na entrada da sala.

Não havia ninguém perto do cinema. Todos mantinham uma distância segura de 150 metros do local. Talvez fosse por isso que o lanterninha me olhava de forma tão desconfiada. Estendeu a mão e disse:

- Dai-me teu passe e guiarei-te pelo caminho tortuoso e sombrio para que possas chegar a seu assento.

Abriu a cortina na entrada do cinema. Entrei, pá, bati na parede, virei e sentei.


Começou o filme. Eu não sabia qual era. Estava sozinho no cinema. Só me restou uma alternativa. Levantei o braço e minhas mãos ficaram refletidas na tela. Fiz um coelhinho com as mãos. Fiquei brincando até o filme terminar. O Cinema Guararapes era o único cinema com o projetor no mesmo plano do espectador.

Acabou o filme. Fui embora para casa. No dia seguinte, o Cinema Guararapes foi demolido. Colocaram uma filial do Box Cinemas no lugar.

E foi assim que tristemente acabou o melhor cinema do mundo. Alguns desalmados tiraram minha diversão.

Malditos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário