30 de maio de 2006

E depois de dois anos

Um novo layout. Agora posso ficar mais dois anos apenas mudando a cor deste.

10 de abril de 2006

América, o filho do Brasil

INTRODUÇÃO

Em todas as vezes que sou abordado na rua, sou indagado com muita aflição, mas, Frost, por que é que torcer para o América (do Rio, claro, que é o único que existe) é tão inofensivo? Todo brasileiro reconhece intuitivamente que o América não é um time de verdade, mas não é capaz de identificar corretamente as causas dessa sensação, e por isso permanecendo em constante estado de perturbação mental. Pretendo aqui esclarerecer todas as dúvidas acerca do assunto para, de tal forma, melhorar a qualidade de vida de boa parte da população brasileira.

AMÉRICA/RJ COMO FENÔMENO SÓCIO-PSICOLÓGICO

Todos os dias, milhares de pessoas se deparam com o mesmo problema: como explicar o fato de que torcer para o América não faz diferença nenhuma na vida de um ser humano racional? Pode-se notar que torcer para o Vasco, como eu corretamente torço, é algo que altera a vida do indivíduo. Contudo, intuitivamente percebe-se também que torcer para o Vasco e para o América ao mesmo tempo, embora sejam times da mesma cidade, não é contraditório como torcer para o Vasco e para o Flamengo simultaneamente.

POSIÇÃO DO AMÉRICA NA HIERARQUIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA

Para a consciência humana em estado normal (i.e., sem interferência de agentes exógenos como drogas, bebidas alcoólicas etc), não há contradição entre torcer entre o Vasco e o América porque este não é exatamente um time de futebol, mas antes, digamos, uma equipe de críquete, que, acidentalmente, joga futebol, talvez até usando os tacos de críquete, mas ninguém parou para prestar muita atenção. Trata-se tão somente de ramos diferentes de torcida para diferentes esportes; seria absurdo, por exemplo, tentar torcer para o Vasco num torneio de sinuca, thou shall agree.

A EMPATIA DESPERTADA PELO AMÉRICA

Neste ano, o América chegou perto das finais da Taça Rio, e rapidamente milhões de pessoas como eu e você, pessoas normais, que naturalmente torcem para um time - talvez até dois, mas em cidades diferentes -, passaram a torcer para o América. A razão disso é que o América é a criança dos times de futebol, e todo mundo gosta de criança. O feito do América, conseguir jogar futebol, a ponto de quase chegar numa final, se pode ser relacionado facilmente ao feito de uma criança de quatro anos que, esforçadamente, consegue colorir os desenhos de seu caderninho por dentro das bordas. Pessoas de coração bom apoiariam sem pensar aquela criança, mas se ela por um infortúnio viesse a borrar o desenho, ou a riscar fora das linhas, ninguém ficaria muito triste, chocado ou decepcionado. Se, por um acaso da Vida, o América começa a jogar futebol, o apoiaremos - e esqueceremos caso ele volte a não jogar.

POR QUE O HINO DO AMÉRICA É O MAIS BONITO DENTRE OS DOS TIMES CARIOCAS

Lamartine Babo é lembrado por ter escrito o hino de todos os times do Rio, dos quais o mais belo seria o do América. Como já foi demonstrado, o América não pode ser considerado um time de futebol, mas antes uma equipe de críquete, de polo a cavalo ou de marcha atlética. Por isso, quando o América joga futebol, desperta uma empatia semelhante a que sentimos por crianças, pelos nossos filhos, por causa de seu esforço num labor desconhecido. Obviamente, uma homenagem a um filho (América) é feita com muito mais sentimento do que uma homenagem a um amigo (Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo), donde se explica convincentemente o fato de o América ter o mais bonito dos hinos cariocas.

CONCLUSÃO

Não surpreendentemente, todos se esqueceram do América após ele ter sido eliminado nas semi-finais da Taça Rio. Quando nosso time oficial é eliminado de uma competição importante, lamentamos o fato, e caso isso aconteça com um time rival, lembraremos do ocorrido para importunar os torcedores adversários. Isso não ocorre com o América. Ninguém pensa em importunar um torcedor americano frustrado. A eliminação do América teve impacto psicológico nas pessoas (lembrando que é impossível torcer legitimamente para o América, ele deve ser sempre o segundo time) igual ao da eliminação de um filho de sete anos de um campeonato de karatê. Torcemos para nossos filhos em campeonatos de karatê, ficamos felizes se eles ganharem, tristes se perderem, mas não nos importamos muito. A única coisa que somos capazes de dizer é um "Parabéns, quer almoçar?", ou um "O importante é competir", ou "No ano que vem você consegue, filhão", até que esquecemos do assunto uma hora depois.

7 de abril de 2006

O Pequeno Timmy

É de conhecimento geral que há várias coisas erradas com as corridas de Formula 1, tais como Felipe Massa, mas a pior dessas é o fato de não se poder completar as corridas a pé, como em Road Rash, do Playstation, onde, se nossas motos quebrassem, poderíamos completar o percurso correndo, com o cuidado de não encontrarmos policiais no caminho que nos prendessem sem motivo - talvez por estar correndo, vai saber, esses jogos eletrônicos têm as leis mais estranhas em seus mundos virtuais. Jenson Button, no último Grande Prêmio, parou a poucos metros da linha de chegada e não pôde sair do carro e terminar a corrida a pé, o que considero um completo absurdo, porque, ora, quem precisa completar a corrida é o piloto, não o carro, caso contrário teríamos os números dos carros na tabela de classificação e não os nomes dos pilotos. Atribuo essa proibição ridícula à uma proteção à auto-estima dos pilotos de equipes obscuras com pilotos patéticos, como a Honda, que se sentiriam diminuídos sabendo que chegaram atrás de um cara que completou a prova correndo, que provavelmente ficaria dançando e cantando que chegou primeiro, tal como eu faço para ridicularizar os pernambucanos, as testemunhas-de-Jeová, os anões e outras minorias, com um senso de humor passando do ridículo engraçado para o ridículo dispensável, cuspindo na hospitalidade do estado que me acolheu.

***

Por que, mas por que você não posta com mais freqüência?, é a pergunta do Gentil Leitor Hipotético que vive na minha mente, que por sinal sabiamente não escuta Cansei de Ser Sexy. Gentil Leitor Hipotético, não tenho postado tanto por causa das minhas reuniões com os acionistas. Essas reuniões com os acionistas não têm apenas prejudicado meu desempenho no meu blog, mas também junto a minha família.

Noutro dia, cheguei em casa, cansado após um dia de trabalho árduo na empresa, e minha esposa me perguntou o que eu fazia até tão tarde na rua, ao que respondi, desanimado, "reuniões com acionistas, meu bem, reuniões com os acionistas". Ela perguntou-me então se eu ainda me lembrava de que tinha uma esposa e um filho, e lhe respondi que sim, mas que tudo o que fazia era para o melhor das pessoas que amo, que se no momento eu estava muito ausente era para no futuro dar-lhes o melhor de mim. Minha esposa perguntou-me então se eu ainda lembrava que o aniversário do Pequeno Timmy seria em uma semana, e que, afinal, eu havia prometido que iria ao jogo de baseball dele. Disse que sim, e que essa era minha prioridade. Mas nos dias que antecediam o aniversário de meu petiz, não poderia deixar de trabalhar, naturalmente.

Passou-se a semana e eu cheguei com o presente do aniversário de meu filho nas mãos, exausto, em minha casa escura, às 11h da noite, depois de várias reuniões com os acionistas, sem ter ido ao jogo do Pequeno Timmy. Abri silenciosamente a porta do quarto do Pequeno Timmy e o observei dormir, com lágrimas jazendo nos cantos de seus olhos, abraçado a um porta-retrato onde havia uma foto minha, dele e de minha esposa. Aproximei-me e pus o pacote do presente em sua mesa de cabeceira.

Idêntica situação acontece com meu blog (talvez sem presente e sem esposa, é possível também que não haja jogo de baseball, mas o ponto central permanece).

20 de março de 2006

Comentários

Denílson Monteiro me envia um email. Admoesta-me por causa de um texto antigo em que falo mal das testemunhas-de-Jeová:
Desculpe meu amigo mas o você é uma das muitas pessoas neste mundo que falam daquilo que não sabem. Li o que escreveu sobre as Testemunnhas de Jeová e achei um grande absurdo em como coloca suas observações, é um tremendo de um desinformado, saiba que não sou TJ, mas conheço a crença e os ensinos deles, quando falou do anão, gostaria de lhe informar que conheço sim, é não é nada hilário, o que é hilario e ridiculo é o seu procedimento, cresça MOLEQUE!
Está desculpado, meu amigo, e obrigado pelo conselho, acabo de comprar um biotônico e estou crescendo a passos largos. Mandarei notícias.

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Terminou a primeira temporada de Lost e as cores da vida ficaram mais desbotadas. Vocês viram o último episódio? Uns mendigos raptaram o moleque preto, o Walt, em alto mar - esses mendigos estão cada vez piores, já não estendem apenas a mão pedindo cinco centavos, mas saem seqüestrando pessoas -, provavelmente porque desenvolveram uma arma de raios movida a meninos pretos, mas o único menino preto que se encaixa perfeitamente na arma de raios é o menino preto de Lost, tal como o Sheep de "Sheep na Cidade Grande".

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Não sei se já disse isso aqui, e se já disse, digo outra vez, que viver em Pernambuco é como morar num enorme boteco. Quando eu morava no Espírito Santo, admirava o pouco apreço que os nativos davam aos times de futebol locais. Todas pessoas, porque eram sãs, não ligavam para a Desportiva Ferroviária ou para o Serra; ao contrário, preferiam humildemente torcer para os times do Rio, Vasco, Flamengo, Olaria. As conversas sobre a Desportiva e o Serra ficavam circunscritas à mesas de botecos com velhos bêbados e sem camisa, enquanto que as pessoas dignas viam jogos do Vasco na TV. Semelhante comportamento pode ser encontrado na maioria dos estados do Nordeste, que são humildes, mas não em Pernambuco, onde todos teimam em não torcer para times do Rio e São Paulo, preferindo antes, como velhos alcoolizados de Pau-de-índio, torcer para o Sport, para o Náutico ou para o Santa Cruz. E ainda arranjam nomes para cada um dos jogos entre os times (Sport e Santa Cruz: "Clássico das Multidões"; Sport e Náutico: "Clássico dos Clássicos"; Santa Cruz e Náutico: "Clássico das Emoções").

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Esta pessoa chamou uma mulher de "patética" no clipe "Jesus of Suburbia", do grupo musical Green Day.

22 de fevereiro de 2006

E o respeito aos deficientes? Mas e o respeito, meu Deus?

A diferença entre um repórter estrangeiro entrevistando a Madonna e um repórter brasileiro entrevistando a Madonna é que, enquanto o estrangeiro pergunta qual o último trabalho da Madonna, o brasileiro pergunta se ela conhece alguma coisa de música brasileira. Esse é o ponto principal da técnica de fazer entrevistas com estrangeiros, que, estou certo, não aprenderei no curso de jornalismo: deixar transparecer a imagem de que os brasileiros são megalomaníacos. E, ao final da entrevista - depois de ter perguntado se a Madonna já provou caipirinha e se já comeu feijoada -, o repórter brasileiro tem que pedir para ela "mandar um alô para os fãs brasileiros".

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A série "Percepções", ou algo assim, do Fantástico, leva uns deficientes para diferentes lugares da América do Sul para que eles experimentem diferentes sensações. Nada de especial, claro, porque eu sei que os humanos são todos como o Demolidor, que têm suas percepções aguçadas tanto maior forem suas privações. Viajam juntos um surdo, um cego e um paralítico, pelo que me lembro. O verdadeiro problema é o paralítico. Estavam outro dia as pessoas numa trilha no Deserto do Atacama, empurrando a cadeira do aleijado com uma grande dificuldade, passando por cima de pedras, porque a trilha não era espaçosa o suficiente. Então ele começou a reclamar de quem fez a trilha, dizendo que "poderiam pensar mais nos deficientes na hora de fazer essas trilhas". Qual! Tenho certeza de que quem abriu a trilha no deserto pensou que muitos paralíticos fariam travessias pelo deserto de sal!

Noutro dia, ele foi ao Equador, ver o marco da linha do Equador, e teve que subir escadas para ver o monumento. Novamente reclamou da falta de acesso aos deficientes físicos. De fato, creio que o tal deficiente pensa que monumentos e desertos são repartições públicas, que devem ter acesso para todos. Mas o melhor ainda estava por vir, quando ele visitou a cidade inca de Machu Picchu no Peru. Estava ficando decepcionado com a falta de protestos por parte do aleijado. Quando minha paciência se esgotava, ao final da matéria, o paralítico brindou os espectadores com sua revolta: "Eu sei que é difícil, mas podiam fazer umas rampas..." O que foi realmente decepcionante, porque, veja, eu esperava por algo surpreendente desta vez, como por exemplo "Malditos incas que não respeitam os paraplégicos, eu os amaldiçôo!". Mas assim é a vida, e há sempre um novo domingo pela frente com novas possibilidades.

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Estão acompanhando Lost? Tenho motivos para acreditar que Lost é uma reedição de Caverna do Dragão. Como em Caverna do Dragão, é possível que todos os personagens tenham morrido na queda do avião e que a ilha seja o Inferno. Jack é a reencarnação de Hank, só que sem o arco de força, que era a arma mais legalzona; a namorada de Jack seria, sei lá eu, a Sheila; o negão de Oz seria a Diana, e seu filho, o Bobby. Os ursos polares da ilha fazem o papel de dragão Tiamat. Provavelmente há correspondentes dos outros personagens, mas eu não fui capaz de correlacioná-los ainda. Oh, sim, há outro que me ocorreu. Aquele hobbit de O Senhor dos Anéis (o Merry ou o Pippin ou o Sam, um desses, não sei qual - são todos iguais, por Deus; enfim, vocês sabem qual é, é o que gosta da grávida), em Lost, na minha opinião, faz o papel de Uni, o unicórnio.

21 de fevereiro de 2006

Diagnóstico

Vou confessar uma coisa aqui hoje, gente; e depois dessa é possível que eu mude o nome deste blog criativamente para "No Divã". Mas tenho que confessar, ou acho que tenho. Portanto, confesso relutantemente que estou desapontado com as visitas e com a falta de comentários deste blog. Pronto, falei. Sinto falta daqueles áureos tempos em que eu tinha, digamos, 13 comentários; são comentários que fazem falta, ferem meu peito como uma flecha de prata. Mas espere, vou me acalmar. Pronto. Então, como essas visitas e comentários me fazem falta, senti uma necessidade doentia de diagnosticar o motivo de suas ausências. Creio que seja em parte por ocasião do meu retorno recente; outra causa pode ser também o fato de eu só ter leitores endinheirados que viajaram para São Paulo para assistir ao show da banda irlandesa Detonautas. Algum de vocês foi nesse showzão?

17 de fevereiro de 2006

Sugestões

Os piores espíritos do mundo estão sempre a comentar sobre os mesmos livros. O que, claro, seria um vício natural, porque, afinal, estamos falando dos piores espíritos do mundo; mas o que me incomoda especialmente é o fato de quererem sempre que eu leia os tais livros, e que aprenda, que veja uma nova realidade dantes obscura aos meus olhos. Por exemplo, insistem para que eu leia "O Nome da Rosa". Não é uma insistência sincera, mas sim velada; todos os meus professores da faculdade, a certo momento, já comentaram sobre "O Nome da Rosa". Percebo em seus olhos a paixão que empregam na tarefa de me fazer ler esse livro. Mas professores são assim mesmo, e eu não os ouço, eles não sabem o que falam, por isso fizeram teses de mestrado. O que de fato é incômodo é a vontade de não-professores de que eu leia esse livro. E complementam, profundamente crentes de que eu correrei ardorosamente para as páginas do livro, dizendo que "esse livro mostra todos os podres da Igreja Católica durante a Idade Média, cara!". Uau, big news, hein, buddy? Perco até o sono só de pensar nos podres da Igreja Católica durante a Idade Média; como se ninguém soubesse que, já naquela época, a Igreja Católica promovia raves regadas a ecstasy e sexo bizarro. Duh!

Não quero, contudo, que pensem que tenho má vontade de ler livros que me são incansavelmente indicados. Hoje, por exemplo, depois de muita insistência de muitas pessoas, comecei a ler "Feliz Ano Velho". Estou certo de que o amável leitor conhece "Feliz Ano Velho". É aquela história do cara que ficou paralítico aos 20 anos - o tal Marcelo Rubens Paiva. O prefácio, escrito por um sujeito chamado Luis Travassos, já me fez arrepender-me de não ter lido o livro antes:

"Marcelo, cara, peguei teu texto para ler em um dia de tremendo baixo astral. Como sempre acontece comigo (desde que te conheço), recebi uma porrada de energia na boca do estômago e o moral subiu dos intestinos para a cabeça."
E prossegue, apaixonantemente:

"O teu livro está um barato, especialmente porque dá pra sentir um gozo aberto tipo poker descoberto. No fundo eu acho que a transa da literatura está ligada à transa da verdade (assim como a revolução, o amor e um montão de coisas). E é aí que está todo o pique do que você escreveu. A tua história está transada de um jeito putamente terno, bem-humorado, erótico e sedutor, o que, aliás, é a sua maneira de ser. (...)

"Tem uma firmeza no teu texto que espero que você mantenha: é um texto limpo de teorias e com um puta sentimento que expressa e defende suas idéias. Por exemplo, é deliciosa a maneira como na história há elementos críticos sobre as pessoas, comportamentos etc. sem nenhuma cagação de regras ou ironias baratas, mas com uma puta firmeza."
Segundo Marcelo Rubens Paiva, Luis Travassos foi presidente da UNE em 68 e tinha 36 anos quando escreveu esse prefácio, em 1981. Em virtude de seu vocabulário, Travassos foi perseguido pela ditadura e teve de se exilar em vários países. No entanto, creio que sua morte em 1982, aos 37 anos, tenha sido devida a um soco no estômago que, além do moral, levou outras estranhas substâncias à sua cabeça. O que mostra que tenho que ser mais aberto a sugestões literárias.

11 de fevereiro de 2006

Entrevista

Em virtude de meu sumiço, há alguns dias fui solicitado pela produção da MTV a dar uma entrevista exclusivíssima, que agora publico aqui, dando minha versão da história de que eu havia morrido, contando as novidades, dando algumas dicas para a galera. Aceitei o convite e mandaram Léo Madeira para me entrevistar; depois, me passaram a gravação, que publico agora, integralmente, neste blog.

Léo Madeira: Estamos aqui com os caras do Jack Frost, que sumiram faz alguns meses e agora voltam com um novo trabalho. Frost, como vai você?
Frost: "Senhor", por favor.
Léo Madeira: Pensei que o senhor preferisse manter um ambiente informal durante as entrevistas.
Frost: De fato, mas isso não é questão de formalidade, é uma espécie de mantra para mim. Quanto mais vezes for repetido "senhor", uma aura mais positiva se criará ao meu redor, entende? Não é nada pessoal, meu jovem.
Léo Madeira: Ah, sei... Super legal. Mas o senhor acredita nessas coisas?
Frost: Piamente. Acredito em energia positiva, em aura azul e vermelha, naquele negócio de numerologia, em búzios - acredito muito mesmo em Búzios, porque já passei férias lá, é uma cidade muito bonita. Gostaria que minha mãe tivesse me batizado como "Jhack Frost", compreende?, com um bonito H na metade do meu nome, mas ela não fez isso, por causa daquele preconceito pequeno-burguês que pensa que rejeita esses nomes que melhor se alinham com o universo como "coisas de pobre". Acho um tipo de discriminação muito negativo mesmo, o senhor entende?
Léo Madeira: Senhor? O Senhor está no céu! (risos)
Frost: (risos)
Léo Madeira: (cambalhotas)
Frost: (risos)
Léo Madeira: O senhor ficou sabendo dos boatos sobre sua morte?
Frost: Sim. Mas eu não daria esse tipo de prazer a meus inimigos! (risos)
Léo Madeira: (risos)
Frost: Comigo é assim: é preto no branco.
Léo Madeira: Então por que o senhor desapareceu durante tanto tempo?
Frost: Ah, foi um lamentável episódio ocorrido com meu computador, por conta da falta de conteúdo do meu provedor. Comecei a gritar pelos corredores de meu prédio "Eu não estou aqui para sofrer!" e arremessei meu monitor pelas escadas. Logo depois eu assinei o UOL. Não calculei, porém, que seria necessário um monitor para que eu pudesse desfrutar das vantagens do UOL, o maior conteúdo da América Latina.
Léo Madeira: Compreendo. A propósito, não pude deixar de notar que o senhor está com o Caco dos Muppets na sua mão. Foi feito com uma meia?
Frost: Sim; os olhos são botões brancos com pontinhos pretos coloridos com hidrocor.
Léo Madeira: Super legal.
Frost: Claro que é. Se quiser, posso te dar a Piggie para você não ficar muito excluído; porque, você sabe, eu estou aqui me divertindo com o Caco e você está aí, fazendo essas perguntas. Sou muito comiserioso, note. Se você não aceitar esta oferta serei obrigado a lhe virar as costas. Não posso ver sofrimento sem virar as costas.
Léo Madeira: Super legal mesmo. O senhor pode pegar a Piggie para mim?
Frost: Pois não, aqui está.
Léo Madeira: E o que o senhor fez durante a ausência?
Frost: Ah, muitas coisas, sou uma pessoa muito atarefada. Vi filmes, li livros. Ler é muito bom, e a gente tem que dar o bom exemplo, não é? Pois então. Tentei até ler o Código da Vinci, eu juro, me declaro culpado! Mas é para pessoas como eu que lançaram a versão do Código da Vinci com figuras, da qual pretendo ver as ilustrações em breve.
Léo Madeira: E o coração, hein? (risos)
Frost: (risos) Tá aqui, tá batendo! Vou trazer o meu exame cardíaco na próxima vez!
Léo Madeira: O senhor sabe o que eu quis dizer...
Frost: Mas você há de entender, Léo, que não existe apenas preto e branco, existem também as tonalidades de cinza.
Léo Madeira: Super legal. O senhor quer deixar uma mensagem para os jovens?
Frost: Por que não? Eu gostaria de dizer a eles para usarem camisinha, para se cuidarem, se prevenirem, sem caô, o negócio é prevenção. Eu, por exemplo, me cuidando, me prevenindo, só tive meu filho com vinte e dois anos, quando eu quis, e não por acidente. Temos que dar informação para o jovem.
Léo Madeira: Obrigado pela entrevista, senhor Jack Frost.
Frost: Devolva a Piggie, estou com medo que você saia correndo com ela.

28 de novembro de 2005

Emos

Emos não valem um post.

25 de novembro de 2005

Ateísmo

Nunca falei neste blog sobre nada do que acredito ou desacredito, creio até que nunca comentei sobre nenhuma pessoalidade minha aqui. Discorrerei um pouco, então, sobre meu ateísmo, já que nada tenho para fazer e não posto aqui faz muito tempo. (Quando eu passar muito tempo sem escrever nada, vocês devem pedir também à Noodle para escrever. Guardem bem isso.)

À primeira vista, parece desnecessário discorrer sobre o ateísmo, que é tão somente a negação de uma crença e não um conjunto organizado de pensamentos, mas considero ser mais que necessário falar do assunto. Em primeiro lugar, rejeito veementemente a idéia de que não se deve organizar um pensamento baseado numa não-idéia. Claro que devemos organizar um pensamento de pessoas que não acreditam em Deus. Exemplifico. Digamos que todas as pessoas do mundo acreditem na idéia idiota de que usar boné é bonito. Eu, ao contrário, recuso tal crença, a qual não tem a menor base factual; sou, conseqüentemente, um aboneísta. Ora, por que o aboneísmo não pode ser um conjunto organizado de pensamentos baseado na rejeição de uma fé? Pelo contrário, o aboneísmo tem quase a obrigação moral de ser um conjunto coeso de pensamentos baseado no axioma de que bonés são estúpidos.

A propósito, falando em moral, teístas perguntam freqüentemente aos ateus como podemos ter condutas morais se não temos uma referência do bem. Bom, isso é verdade, não temos nenhuma referência moral, mas você ganha esse relógio bacana aqui (mostro o relógio) se deixar de acreditar em Deus. A escolha é sua: crença em Deus x relógio com bússola. Não me levem a mal, crentes; os ateus são tão amorais que vieram com a mesma proposta quando eu ainda era católico, foi irresistível. Acho que, se você for um pouco mais resistente que eu, ainda farão a oferta uma caneta com laser junto com o relógio. Aí não tem jeito mesmo, não fique triste.

Perguntam-me ainda qual a beleza do prospecto de não haver nada no post mortem. Dizem-me que nascer, morrer e ser comido pelos vermes abaixo da terra é uma visão muito estreita da existência. Olha só, visão estreita é a que os teístas têm de ficar apodrecendo enterrado; coisa maravilhosa, aquele cheirinho de terra molhada, hum. E, ademais, serviremos no post mortem de adubo para as florezinhas mais lindas deste planeta. Nada pode ser mais belo do que isso. Feio, digo-lhes, é querer ir para um céu sem flores (ouvi dizer que flores não dão em nuvens) e sem relógios com bússola.

9 de novembro de 2005

Tragédia

- Ficou sabendo do que aconteceu na casa da Elizângela?
- Não, me conta!
- Ah, você nem vai querer saber...
- É verdade, não vou.
- Então vou contar, adoro fazer coisas contra a vontade das pessoas. Foi o seguinte, a Elizângela, com aquela carinha de santinha, estava traindo o Alberto com o Marcone!
- Mentira!
- É a mais pura verdade! E, noutro dia, acho que foi na segunda ou na quinta-feira, não lembro bem, o Alberto chegou em seu apartamento e flagrou-a! Flagrou-a tomando chá com o Marcone!
- Meu Jesus amado...
- Pois é, nem preciso lhe dizer como o Alberto ficou irado, né? Começou uma briga enorme na casa da Elizângela, voou chá para todo lado, uma cena horrível de se ver. O Alberto avançou para cima do Marcone, eles se estapearam, ficaram os dois todo estropiados, até que o Alberto pegou uma arma em sua mesa de cabeceira, cruzes, não gosto nem de lembrar...
- Imagino como deve ter sido.
- Ele pegou a arma e saiu atirando no Marcone. O Marcone, que não é bobo nem nada, se escondeu atrás do guarda-roupa. Perto do guarda-roupa tinha uma janela e o Marcone fugiu por ela, só que ele se esqueceu que a Elizângela mora no décimo-segundo andar!
- Ah, meu Deus, que tragédia!
- E não é? Ele saiu voando, o Alberto apareceu na janela e o Marcone disparou um raio laser ótico no infeliz! Uma desgraça sem tamanho.

22 de outubro de 2005

Referendo

Chamam-me para vários debates sobre o referendo, para que eu defenda minha posição embasadamente, aquilo tudo. Coisa mais detestável esse negócio de debate sobre o referendo. Odeio debates, cuspo nos debates, piso nos debates, e, se querem saber, sou a favor do desarmamento. Tirem-me minhas armas, vamos! Se não tirarem, vou sair por aí, baleando debates inocentes. Outro dia mesmo, eu, um cidadão de bem, saí na rua e vi um debate brincando no jardim, nem lhes conto a cena trágica que sucedeu. Tinha uma arma a mãos no momento, e, como vocês sabem, uma arma pode transformar um cidadão de bem num criminoso. Pois que é verdade, dito e feito, saquei minha arma e comecei a atirar no debatezinho indefeso e inocente, matando-o.

Eu ia falar outra coisa, esqueci. Ah, sim, lembrei: também odeio gente que diz que as campanhas do referendo são de baixo nível. "Mas essas campanhas são uma baixaria, hein? Muito baixo nível!" Ora e o que não é baixo nível, minha senhora? Tem gente que ainda completa: "Tanto da frente do Sim quanto da do Não!" O que querem essas pessoas, meu Jesus? Querem que apareçam pessoas dizendo "ah, gente, eu acho que o certo é votar no Não, mas votar no Sim também é suuuper!"? Faça-me o favor, você, você mesmo, pessoa que reclama do baixo nível das campanhas do referendo. E vote no Sim, porque senão pegarei meu revólver e farei com você o mesmo que fiz com aqueles debatezinhos lá do começo do texto.

11 de outubro de 2005

Ascensão e queda do Cineasta Brasileiro

Teve a idéia de retratar as humildes famílias produtoras de paçoca do sertão do Rio Grande do Norte e começou a produção de seu documentário com verbas do Ministério da Cultura. O Cineasta Brasileiro estava retratando, dizia, um importante aspecto da cultura nacional, e que revelar os hábitos do povo pobre de longe dos grandes centros urbanos do Brasil é a tarefa primordial qualquer pessoa que faça cinema no país. Seu filme, Sertão e Suor, mostrava a tocante rotina dos sertanejos que pisavam nos amendoins para moê-los e, como os amendoins do sertão são mais duros que o normal, acabavam com os pés totalmente calejados ao fim do dia de trabalho.

Sertão e Suor ficou em exibição nos cinemas do país por mais de um mês, e foi um recorde de público, uma verdadeira febre. Quando sua obra entrou em cartaz, o Cineasta Brasileiro deu uma entrevista para a Folha Ilustrada, onde declarou que "o cinema deve servir como instrumento de transformação social". Ganhou um Kikito em Gramado, o prêmio mais ridículo do cinema mundial, e também ganhou vários elogios de atores presentes no evento, que acrescentavam ainda que era natural que o filme fosse bom, pois em Gramado está sempre a fina flor do cinema brasileiro. Pouco depois, o Cineasta Brasileiro foi premiado em Cannes, este o prêmio mais banal do cinema mundial, o que encheu os brasileiros de orgulho, pois o talento da nossa gente estava sendo reconhecido. Europeus em Cannes disseram que o documentário foi "um retrato fiel da realidade brasileira, que servirá para que as pessoas despertem uma consciência crítica em relação às mazelas do Terceiro Mundo".

O documentário, por fim, foi o indicado brasileiro ao Oscar, criando grande expectativa no público. No domingo da premiação, Marília Gabriela e Rubens Ewald Filho asseveraram que, neste ano, o Brasil teria que levar a estatueta, pois era mais que merecido, e o talento do Cineasta Brasileiro já estava mais do que provado. Sertão e Suor perdeu para um filme espanhol e, no dia seguinte, em comentário no Jornal da Globo, Arnaldo Jabor afirmou com sua típica acidez: "Os velhinhos da Academia, recostados em suas confortáveis poltronas, não querem saber dos problemas do Terceiro Mundo. Desprezam essas absurdidades presentes em nossos filmes. O Cineasta Brasileiro, com seu talento inegável, levou às telas dos americanos a realidade que eles - e o Bush - tanto desprezam. Ao invés de serem imparciais e premiarem com sensatez, os velhinhos da Academia preferem se curvar ao lobby da Miramax. A nós, pobres terceiro-mundistas, só resta lamentar."

O Cineasta Brasileiro, então, começou a produzir outro filme, um sobre a venda de cocos em balsas nos rios do interior do Amazonas. Algumas vezes, Sertão e Suor concorre com pornochanchadas da Vera Fischer (tais como Gata em Teto de Zinco Quente e Navalha na Carne) no Intercine e perde, porém o filme ainda pode ser assistido de madrugada duas vezes ao ano no Canal Brasil.

6 de outubro de 2005

Contra o dinheiro

Como está passando o Programa do Jô, fui estimulado a prestar atenção em algo que não fosse a TV e, aqui no computador, enquanto ouço o novo CD do Ill Niño (excelente, principalmente a faixa 5, De la Vida, vão baixar lá no Pirate Bay), acabo de descobrir a aterradora realidade: tem gente contra o dinheiro. Como isso é possível, não sei, mas existe sim gente contra o dinheiro, querem até aboli-lo, como se o pobre do dinheiro tivesse feito alguma coisa! Declaro que o dinheiro é inocente!

Tudo bem você não gostar dos desenhinhos do dinheiro (tem um peixe na nota de 100, não estou brincando), mas as pessoas não são contra isso, são contra o que o dinheiro representa. É como se saíssem por aí gritando "eu sou contra um meio de troca indireta, gente!!!", e se descabelando, não querendo utilizar um meio de troca indireta, porque só os meios de troca direta são legais. No fundo é isso que os detratores do dinheiro pregam: a não utilização de um meio de troca indireta e o retorno ao escambo. Nada contra pessoas que querem trocar sacas de arroz por um litro de leite, até admiro alguém que queira fazer isso (imagine-se saindo por aí com 50 quilos de arroz nas costas para trocar por outros bens, que coisa fantástica), mas tem gente que é preguiçosa, que não gosta de fazer exercícios, que só quer ficar em casa ouvindo Ill Niño. Peço condescendência.

Update: O De Repente está de volta!

4 de outubro de 2005

Legítima defesa

Hesitei em escrever esse post porque, ah, está todo mundo postando sobre o tema, não queria parecer vulgar. Mas vamos lá. Há algum tempo, eu estava discutindo no orkut com uma garota sobre o desarmamento, defendendo ardorosamente minha posição a favor das armas, contra a vida e contra a paz. Argumentei dizendo que proibir as armas era um ataque ao direito fundamental da legítima defesa. Ela me respondeu que não, que desarmar não é atacar a legítima defesa, que o desarmamento apenas nos veda um dos meios de exercê-la. Ou seja, se quiser exercer a legítima defesa, pegue um extintor de incêndio e arremesse na cabeça do agressor, porque arma de fogo não vale. Quando ela me disse isso, rapidamente me ocorreu uma situação como a que descrevo a seguir.

Um bandido armado invade a casa de um cidadão à noite e este acorda ouvindo um barulho. O cidadão levanta da cama e pega o revólver para espantar o invasor. Com cuidado, ele chega por trás do bandido e aponta a arma na cabeça dele:

- Parado aí!
- Opa, um minuto aí, legítima defesa, só sem armas!
- Nossa, é verdade, como fui estúpido. - diz o cidadão, enquanto joga seu revólver no chão.
- Foi mesmo. Onde já se viu? Usar armas para exercer a legítima defesa? A que ponto chegamos, meu Deus!
- Olha, espera um minuto aí, não se mexa, não saia do lugar, vou lá na garagem pegar meu facão de churrasco para exercer meu direito, ok?
- Claro, vá em frente. Ainda bem que estou invadindo a casa de uma pessoa racional...