10 de junho de 2005

Bingo

Conversei com uns meus amigos sobre a Petrobras e posicionei-me xiitamente a favor da privatização da empresa, exaltando minha posição de elite parasitária que domina o país há quinhentos anos. "Vende tudo aí", eu falava sem escutar o que me diziam. Até que, num átimo, os ouvi dizer que a privatização da Eletrobrás foi um fracasso, porque ainda aumenta-se o preço da energia, ou algo igualmente idiota, e porque vendemo-la por mixaria. Olha, asseguro-lhes, nem vendemos por mixaria, e, se vendemos, é porque valia aquela ninhariazinha mesmo. Essa gente que fica superestimando nossa massa falida, não sei, não, viu?, gente mais mesquinha.

Eu argumentei sofismaticamente dizendo que a empresa foi vendida em leilão, o que faria, portanto, o preço pago por ela ser justinho, bonitinho, já que ninguém estava disposto a pagar mais nada por aquela porcaria. Porém, foi aí que um de meus amigos disse, com toda aquela pompa dos sábios: "Ah, mas a gente sabe que não foi leilão mesmo! Você sabe que tem muita coisa por trás." Não, eu não sabia que a coisa estava por trás, não, e, inclusive, sempre pensei que a Eletrobrás tivesse sido vendida por leilão mesmo. Descobri estar ridiculamente errado.

Mas se a Eletrobrás não foi vendida por leilão, foi vendida por quê? Por rifa? Cada bilhete custando um bilhão de dólares? Não pode ter sido por torneio de habilidades. Deve ter sido por bingo. Certamente foi por bingo, é o método mais justo. Posso facilmente imaginar um bingo com dezenas de executivos multinacionais senis cruzando os dedos e marcando as cartelas com feijõezinhos. Tanto imagino isso que abaixo lhes narro como penso que foi o bingo da Eletrobrás:

Bingo da Privatização da Eletrobrás

O representante do governo pega um globo do Bingo do Gugu com 99 pedras e, antes de iniciar o Bingo da Privatização, anuncia que "quem completar uma coluna ou uma linha ganha um pequeno montante de ações" e que "quem completar a cartela fica com a mesa diretora". Os velhos executivos estavam nervosos, apreensivos, esperavam ansiosamente pelo começo do jogo, usando pijamas (a maioria de cor vinho) e chinelas.

Começa a sessão. No início parecia que ia haver um equilíbrio até o fim e que o bingo seria decidido somente nas duas últimas bolas, mas logo viu-se que somente dois concorrentes estavam com sorte naquela tarde. Depois de cada número que o sorteador entoava, ouvia-se dos executivos coisas como "Uhhh!" ou "Gira esse globo direito! Tá viciado!". Vez por outra alguém completava uma linha ou uma coluna:

- Dois patinhos na lagoa, vinte e dois!
- Coluna! Completei a G!

Eventualmente o grito de "Coluna!" era sucedido por um "Puta que pariu!" inconformado do fundo da sala, mas normalmente ninguém se exasperava e o bingo continuava a transcorrer normalmente.

Nas últimas bolas, os dois últimos executivos com chances reais suavam frio, esperando cada número como se daquilo dependesse a aquisição de uma grande empresa de gerência de sistemas elétricos de um país sul-americano:

- Quarenta e sete, quatro, sete! - bradou o sorteador.
- Vou bater! - disse um executivo.
- Eu também! - falou outro, que, além de pijama, usava um gorro de dormir muito garrido.

O sorteador, então, enunciou o que seria a última bola:

- A idade de Cristo! Trinta e três!
- Bati! - se levanta o executivo de gorro.

E levantou-se furiosamente o outro executivo, o que estava pau a pau com o de gorro, apontando o indicador na direção do vencedor e gritando "É impossível! O controle acionário é meu! Meu!". Então saiu correndo atrás do concorrente, no intuito de roubar-lhe a cartela premiada, fazendo breves pausas na na corrida para descansar um pouco (porque ele já era um senhor de idade e não podia forçar a coluna), enquanto o ganhador fugiu rapidamente para conferir sua vitória.

4 de junho de 2005

Posts

Saí da Revista Paradoxo e, por isso, decidi postar meus textos de lá aqui no meu blog, para não perdê-los, coitados, eles têm valor sentimental. Estão todos aí embaixo, para se quiserem ler, reler, se emocionar.

Testemunhas-de-Jeová

Desisti de ir a uma palestra de Abram Zylbersztajn sobre humor judaico. Zylbersztajn já lançou dois livros de compilações de piadas de judeu, os volumes 1 e 2 de "As Melhores Piadas do Humor Judaico". É um especialista no tema. Nunca fui a uma palestra sobre piadas de coisa alguma e, pelo visto, passarei mais algum tempo sem ir. Não sei o que Abram disse na palestra, mas espero que ele tenha dedicado um tempo a explicar como se pronuncia de seu sobrenome, que é algo que me intriga mais do que as piadas de judeu. Dar palestra sobre piada de judeu é moleza, não tem segredo algum. Para fazer uma piada dessas, basta assumir que todos os judeus são avarentos, que todos os judeus têm o nariz grande e recurvado, que todos os judeus têm sotaque de judeu e que todos os judeus falam na terceira pessoa. Muito mais interessante que uma palestra sobre piadas de judeu seria uma palestra sobre piadas de anão - muito embora os anões sejam engraçados por si só, não precisando de piada nenhuma. Mesmo assim, se ficarem sabendo de alguma palestra sobre piadas de anão, não hesitem em me chamar.

* * *

Recentemente foi inaugurado um monumento em Berlim que homenageia os judeus mortos pelo nazismo. Desenhado pelo arquiteto americano Peter Eisenman, o monumento é constituído de 2.711 blocos de concreto de diferentes tamanhos e sua idéia é transmitir uma sensação de desconforto e solidão que lembre o sofrimento dos judeus vitimados pelo Terceiro Reich. No entanto, o único sofrimento de que lembro quando olho o monumento é o meu, porque a construção é absurdamente feia e agride os meus olhos. Espero que, visto de dentro, ele lembre mais os pobres judeus.

Uma crítica feita ao monumento foi ao fato de ele não homenagear todas as vítimas do nazismo, mas apenas os judeus, excluindo os ciganos e as testemunhas-de-Jeová, por exemplo. Não conheço absolutamente nada dos ciganos, mas, se as testemunhas-de-Jeová realmente se incomodaram, as autoridades alemãs podem ficar sossegadas, pois elas (as testemunhas-de-Jeová) têm um longo histórico de mudanças de idéia. Se agora estão revoltadas com a omissão alemã do seu sofrimento, em breve, chuto, elas mudarão de idéia e ficarão até felizes com o fato.

As testemunhas-de-Jeová achavam que o Armagedom viria antes que a geração de 1914 desaparecesse. A geração de 1914, entretanto, vem morrendo e o Armagedom ainda não veio. Por isso, pensaram até em mudar o ano da geração do juízo final de 1914 para 1957 para dar mais tempo para o Armagedom chegar, porque ele é meio lentinho e não aparece quando deve. Tentaram justificar a mudança do ano com o lançamento do Sputinik pelos soviéticos. Esperemos, pois, que as testemunhas-de-Jeová não considerem mais pecado a transfusão de sangue após o homem pisar em Marte.

Também em 1914, acreditavam as testemunhas-de-Jeová, havia começado o julgamento das nações, em que Jesus estava separando os cabritos das ovelhas. Um tempo depois, decidiram que o julgamento só começará após a vinda de Cristo. Sobre o serviço militar, as testemunhas-de-Jeová achavam que não era bíblico. Mas, em 1978, o Corpo Governante da Sociedade Torre de Vigia - instituição das testemunhas-de-Jeová - decidiu votar o serviço militar alternativo (atividades administrativas em vez de essencialmente militares), mostrando que havia algumas dúvidas e talvez o serviço militar fosse um pouquinho bíblico. Hoje em dia, a Torre de Vigia admite que o serviço militar alternativo não é pecado.

Os judeus precisam de Abram Zylbersztajn para fazer piada de si mesmos. As testemunhas-de-Jeová, pelo menos, já fazem de sua crença uma piada. (A propósito, avisem-me se conhecerem uma testemunha-de-Jeová anã. Deve ser a coisa mais hilária do planeta.)

Malvinas

A declaração final da Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes (reunião entre países inexpressivos) traz um parágrafo defendendo a soberania da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, de domínio do Reino Unido. Os latino-americanos criticam a inclusão das ilhas como território ultramarino britânico no Tratado Constitucional da União Européia, buscando restabelecer negociações entre a Grã-Bretanha e a Argentina, para, desta forma, encontrar "uma solução justa, pacífica e duradoura" para a querela.

As Malvinas - Falklands, para os britânicos - são dominadas pelo Reino Unido desde 1833. Para a Argentina, as ilhas são palco de uma "disputa de soberania", mas o ponto é que a disputa pela soberania foi em 1982, quando os argentinos tentaram reimpor àquele lugar sua administração e levaram uma surra dos britânicos - em dez semanas. Hoje não há mais disputa pela soberania, todo mundo está feliz, deixem as ilhazinhas lá com o Reino Unido. A tal solução pacífica e duradoura já foi encontrada há muito tempo, e, arrisco-me a dizer, é muito justa: haverá paz duradoura, exceto se a Argentina quiser as Malvinas de volta. Os kelpers, habitantes das ilhas, pensam como eu e preferem a cidadania britânica. A propósito, dói-me o coração ver como pessoas tão lúcidas como os kelpers são ignoradas no debate pela posse das Malvinas. Qualquer um preferiria ser inglês a ser argentino, e os kelpers não são exceção.

***

Na minha opinião, todas as ilhas do mundo deveriam ser possessão britânica. É assim que o mundo foi concebido e não cabe a nós, meros produtos da Criação, mudarmos essa situação. Um grande trabalho que venho desenvolvendo é o de transformar o terreno onde meu prédio se situa numa ilha. A primeira coisa que fiz foi cavar um grande buraco em volta dele, e, agora, todos os dias, passo horas e mais horas enchendo o buraco com água da mangueira. Em poucos meses, meu prédio se transformará numa ilha no meio de Recife - pretendo até encher o buraco com piranhas e crocodilos - e humildemente enviarei uma cartinha à Rainha Elizabeth, pedindo a formalização de seu domínio sobre meu prédio. Se ela estranhamente se recusar a assumir a posse da minha ilha (Ilha Erickland, oficialmente), pedirei proteção à Rainha Beatrix da Holanda, que certamente quererá reafirmar o domínio histórico de seu país sobre Pernambuco. Não há dúvidas sobre isso.

Arrumo as malas

Pretendo deixar o país o mais breve possível. Temo ver outro jornalista constrangedoramente falando sobre Severino Cavalcanti enquanto faz um paralelo com Morte e Vida Severina. Comparar o Severino de João Cabral com o Presidente da Câmara é um crime, que, por conta de nossa Constituição arcaica, não tem pena prevista em lei. Felizmente, José Carlos Aleluia não foi eleito, não dando margem para análises políticas intituladas ?E agora, José??, que ficariam sem as punições cabíveis.

Enquanto coloco estes chocolates com recheio de baunilha na bagagem, caros, eu lhes digo que esses não são Severinos iguais em tudo na vida. Cavalcanti não é filho de Maria nem do finado Zacarias, portanto, jornalistas, parem de escrever tais coisas degradantes. Alguém tem que pôr um ponto final nisso tudo. Proponho a Severino Cavalcanti a paralisação da votação de todas as Medidas Provisórias enquanto o Presidente Lula não baixar um decreto proibindo a citação de João Cabral de Melo Neto em colunas sobre o cenário político nacional.

Morando em Recife, posso captar o sentimento da população quanto a Severino Cavalcanti. Em geral, os pernambucanos ficaram muito magoados com sua eleição, pois, segundo o consenso, ele não representa o povo, não representa os reais Severinos, pobres, sofridos, só com a cova que lhes cabe dentro do latifúndio. Triste. Somos assim, não nos importamos com os reais problemas da nação, nunca atentamos para o que de fato deve ser observado. Em vez de nos indignarmos com a eleição de Severino Cavalcanti, deveríamos fazer um levante contra a utilização de poemas em análises políticas. Em que mundo você quer que seus filhos vivam? Num mundo onde todo mundo sai falando sobre Severinos que morrem de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia? Eu não quero esse mundo para as próximas gerações. E isso não é muito alarde por pouco. O povo pernambucano só se conscientizará da importância de zelar pela integridade de nossos poemas quando um recifense for eleito Presidente do Senado e alguém citar Vou-me embora para Pasárgada.

Outra vantagem de viver em Recife é que há muitas embaixadas por aqui. Penso em ir até a embaixada de Rondônia e pedir asilo intelectual. Será maravilhoso, porque um lugar inóspito como Rondônia não deve possuir jornais ou qualquer tipo de veículo de comunicação. E, mesmo que possua, imagino que o Rei daquele país filtre toda a informação que chega aos rondonienses. Portanto, estarei a salvo de comparações ridículas entre um personagem ficcional e um Presidente de Câmara. Vou-me embora para Rondônia. Em Rondônia não tem nada, é outra civilização.

Olhar assexuado

Quando me deixaram escrever na Revista Paradoxo, achei de bom tom lê-la, já que nunca tinha feito isso. Na capa havia uma entrevista com Ferréz, mas não achei que seria um bom começo para mim na revista. Primeiro por causa dos óculos horríveis que ele usa. Eu, instintivamente, ao ver a foto de Ferréz, fecharia a janela e não leria nada. Também pelo fato de Ferréz ser marginal demais para mim. Creio que não estou preparado para tanta marginalidade. Achei melhor ler um artigo sobre o velório do Papa João Paulo II, mas parei quando o articulista usou a expressão "modelo consumista ocidentalizado". Poxa, eu gosto tanto do modelo consumista ocidentalizado, não quero que fiquem falando pelas costas do pobrezinho. E, inclusive, não tenho preconceito contra o modelo consumista orientalizado, se é que ele existe. Gostaria que todos os modelos consumistas vivessem juntinhos, em harmonia.

Na seção de colunas da revista, chamou minha atenção a descrição da coluna da Sarah Bergamasco: "Minha missão é revelar um olhar novo e feminino sobre as questões mais inusitadas." Gostaria de dizer às mulheres para pararem de querer lançar olhares femininos sobre tudo. Façam como eu, lancem olhares assexuados sobre algum assunto clichê, às vezes. Transformem-se mentalmente numa alface e falem, digamos, sobre economia. Noto que as alfaces não fazem ação afirmativa de gênero, um exemplo muito digno que deveria ser seguido pelas mulheres.

Esclareço que não tenho nada contra os olhares femininos, acho-os muito bonitos e elegantes (sou particularmente atraído por cílios bem feitos), mas pretendo evitar que as mulheres usem seu olhar assim, a esmo, para não vulgarizá-lo.

***

Não quero que pensem que escrevi essa coluna falando mal da Sarah Bergamasco somente para aparecer. É claro que foi somente para aparecer, mas eu não quero que pensem isso, quero que pensem que foi por algum motivo nobre. Pensem que foi pela valorização do sexo feminino, pela paz mundial ou algo igualmente vergonhoso. Só espero que vocês não fiquem falando coisas desagradáveis a meu respeito por aí, como que eu não tenho respeito por ninguém, ou que só escrevo esses absurdos para chamar atenção, porque ninguém gosta de ficar ouvindo obviedades.

28 de maio de 2005

O tímido

Sempre foi melhor escrevendo que falando. Certo dia, resolveu vencer sua timidez indo à noite a um bar, onde mandou um torpedo a uma bela moça, que mandou-lhe um de volta, chamando-o para sentar-se com ela. Sentou-se, tirou um bloquinho de notas do bolso e escreveu "Oi, tudo bem?".

8 de maio de 2005

Feliz Dia das Mães

Eu estava mesmo me sentindo bom demais para escrever num simples bloguinho para meus leitores antigos e fiéis, mas aí lembrei que escrevo de graça para a Revista Paradoxo. Sempre que escrevo uma coluna para lá, bate uma dor no peito, minha consciência pesa e fatalmente desmaio. Nenhum sentimento de superioridade resiste a trabalho, muito menos trabalho não-remunerado, como o meu. Em meu blog, eu trabalho de graça, mas ao menos trabalho para mim mesmo.

Outra coisa desagradabilíssima de escrever para a Revista Paradoxo é o fato de ter que fazer uma coluna por semana. Escrevi a primeira e poucos dias depois a segunda foi ao ar. Nesta quarta-feira a terceira coluna será publicada e assim continuará infinitamente, deixando-me completamente desgastado.

Contudo, não é por isso que não venho postando neste blog. A verdade é que certos fatos isolados têm-me tolhido a vontade de escrever. Anteontem, por exemplo, eu estava motivadíssimo a postar, até que bebi uma cerveja chamada Bossa Nova e fiquei bastante abatido. Foi horrível, desejo isso a todos os meus piores inimigos. Não obstante, não entendo: a maconha é proibida, a Bossa Nova é permitida, qual é o critério?

Aproveito este post cheio de assuntos desconexos para dizer que desprezo muito todos os blogueiros que fazem piadinhas utilizando o striketrough ("Eu odeio amo o Zezinho dos Sapatos Lustrosos!" "Nós saímos para encher a cara nos divertir como pessoas saudáveis e civilizadas..."). Portanto, leitor, se você utiliza striketrough para fazer piadinhas, saiba que está abaixo da cerveja Bossa Nova no meu conceito. Bando de gente obscena.

30 de abril de 2005

Coluna

Comecei a escrever uma coluna na Revista Paradoxo. Aqui está o link direto para o meu primeiro artigo, com o qual fiquei particularmente satisfeito. Visitem, amigos.

(A propósito, não passarei mais duas semanas sem postar. Voltarei à regularidade.)

16 de abril de 2005

George Clooney

Todos os homens do mundo querem invariavelmente ser o George Clooney. De uma forma ou de outra, querem ter o charme dele, se vestir como ele, e até falar pouco como ele. Até mesmo quem diz que quer ser o Richard Gere quer ser o George Clooney. Não dá para querer ser o Richard Gere por uma razão simples: ele faz diferentes papéis de vez em quando - mas não sempre, claro. Às vezes ele modifica um pouco sua atuação dependendo do filme, então nós nunca podemos saber quem é o verdadeiro Richard Gere. Quem será o real Richard Gere, o galã ingênuo ou o galã conquistador? É algo que nunca saberemos e talvez fiquemos discutindo isso por toda a vida.

George Clooney é o contrário disso tudo. Nós sabemos bem quem é ele, seu papel nunca muda, nunca vai nos pegar no contrapé. Ele é como a história de Malhação, pode até mudar a casca, mas não muda a essência. Em Plantão Médico, doutor Doug Ross garbosamente salvava vidas, com aquele sorrisinho sarcástico no rosto. A imagem saturou e George Clooney mudou de roupa, colocou um paletó, camisa, esqueceu a gravata e continuou com o sorrisinho sarcástico, sendo o que sempre foi. Pela constância, no duelo dos galãs, Clooney ganha, não há rivais à altura, ninguém é suficientemente charmoso para fazer-lhe frente.

Tento ser como George Clooney em todas as situações da minha vida, por exemplo, quando vou comprar pão. Você pode achar que uma situação prosaica como comprar pão não exige elegância, mas engana-se redondamente. Clooney nos ensinou que em todas as situações da vida deve-se demonstrar um sorrisinho sarcástico para adquirir a confiança do interlocutor, ou para conseguir favores sexuais, ou para não pagar a conta da padaria, ou os três. Então, quando for pedir pães lembre-se de fazê-lo como George faria, sorrindo sarcasticamente e com um olhar sedutor. "Quatro pães franceses, por favor" - diga e tente imaginar onde ficaria a câmera, você sabe, para pegar seu melhor perfil, mas tente também não conseguir favores sexuais com a padeira gorda.

11 de abril de 2005

Soja

(Para dre, que tem a irritante mania de comer soja. E para o Ian, de quem roubei uma piada do post.)

Arrependo-me de muitas coisas. Arrepender-se é um ato muito saudável e demonstra auto-crítica, por isso não confie em gente que só diz que se arrepende do que não fez. Essa gente exibe a presunção de nunca ter cometido alguma tolice, o que obviamente é uma mentira, afinal, todo mundo faz besteira. Para comprovar isso, é só olhar seu último almoço. Aposto que você comeu um monte de bobagem, é melhor começar a se arrepender. Eu, por exemplo, já comi carne de soja.

***

Soja não foi feita para ser leite, nem para ser carne, nem para ser comida. Quando eu fui ao interior de Goiás - fui para lá ontem, não de corpo, fui mentalmente -, conheci um menininho franzino chamado Francisco. Ele brincava feliz em meio aos pés de soja, de vez em quando pegando um grãozinho de soja e usando-o como bolinha de gude, ou jogando-o no riacho para vê-lo quicar. Perguntei-lhe se ele sabia que aquele grãozinho com o qual brincava feliz podia virar leite e, pior, carne. Ele me respondeu negativamente e, com os olhos grandes cheios de lágrimas, indagou: "Se isso é leite, o que é que sai das tetas da Marilda?" Eu não soube responder, fiquei meio encabulado. Francisco, então, argutamente, disse a mim: "Ora, mas isso não é nem comida! Quanto mais leite! Não podemos comer essa coisa que só serve para diversão, que só serve para eu brincar com os grãos! E não pode ser leite algo que não sai das tetas da Marilda! Não pode ser carne algo que não é animal! A cada vez que você comer um grão de soja, ferirá a minha alma. Não coma soja, isso não é da natureza. Dica de goiano."

Foi o Francisco que disse. Dica de goiano.

5 de abril de 2005

Papa

Mas que coisa triste esse episódio do papa, não? Bom é a vida, quem vive de passado é museu, falemos sobre outra coisa. Eu soube que o domínio do blog de um amigo de um meu amigo, o Parmalat mas não morde, foi tirado do ar por pedido da Parmalat. E ainda dizem que as empresas capitalistas só visam o lucro, que não têm nenhuma responsabilidade social, que não se preocupam com o fato de a juventude estar se afundando nas drogas.

Percebe-se que a Parmalat contraria todos esses preconceitos, não visando lucro algum, portanto, estando quase falida, e ainda protegendo a nossa sociedade de domínios com trocadilhos ridiculamente infames.

À primeira vista, parece apenas mais um arroubo de autoritarismo, já que o menino que tinha o blog com tal nome não prejudicava de forma nenhuma os negócios da empresa. Mas analisando o caso mais a fundo, vemos que a Parmalat em momento algum pretendeu ceifar a liberdade do rapaz, mal se preocupou com a patente de sua marca sendo usada por outrem - ela quis apenas privar a sociedade de tal título tão enfadonho.

Posso até imaginar um dos executivos da Parmalat, esquálido, navegando na internet quando dá de cara com o blog Parmalat mas não morde e pula da cadeira, tapando os olhos de tanto desprazer. Como apenas a própria Parmalat podia acabar com esse ataque ao Estado de Direito, seus diretores imediatamente decidiram-se pela remoção do domínio do garoto. "Não podemos deixar que este endereço corrompa nossos filhos." - disseram.

Cai até uma lágrima de meus olhos ao pensar no zelo que a Parmalat tem pelo bom-gosto na internet. Deus seja louvado.

3 de abril de 2005

Paternidade

O pai de uma participante do Big Brother acaba de falar no Domingão do Faustão que gosta tanto de sua filha que desejava que ela tivesse saído de sua barriga. A declaração parece muito elogiosa, muito lisonjeira, parece até demonstrar grande carinho do pai pela filha, mas isso é um engodo, melhor abrir os olhos.

Ao contrário das mulheres, homens não possuem útero nem qualquer outro órgão similar que pudesse abrigar um feto. (Provavelmente homens não têm nem estômago, mas isso não vem ao caso, não estamos falando sobre digestão.) Desta forma, a única estrutura na barriga do macho humano a que o pai da moça poderia se referir era o intestino. Ou seja, o pai tencionava defecar a filha - o que é realmente pavoroso, nada elogioso, bem pouco lisonjeiro e, me arrisco a dizer, sem ternura alguma.

Portanto, peço aqui aos leitores que tomem cuidado com essas declarações apaixonadas de seus pais (os pais mesmo, os homens), pois elas podem revelar que seu pai queria lhe cagar. Aí já viu, né. Nenhum amor resiste a isso.

2 de abril de 2005

Coragem

Depois de assistir a diversas brigas na internet, chego à conclusão de que sempre constatam que as pessoas são muito corajosas atrás do computador. "Atrás do computador, você é só coragem!", sempre leio por aí alguém dizendo com grande satisfação, demonstrando que ele sim é muito bravo e seu oponente não passa de um frangotezinho, um borra-botas, um troca-tintas, um suja-laudas. Sugiro novas frasezinhas de revolta: "Na internet, você é o He-man!"; ou "Só faz isso aqui, né?!"

***

Gostaria de conhecer alguém que é um poltrão na internet, mas muito destemido na vida real. Seria muito mais pitoresco e infinitamente mais intrigante. "Vamos, não quer brigar?" "Ora, você muito corajoso na vida real! Gostaria de saber se você é assim na internet! Desafio-te para uma partida de Counter Strike!" "Ah, não, não, perdoe-me, não te afrontarei mais." - ele falaria morrendo de vergonha.

***

So to speak, acho ainda que seria melhor se todos fossem como eu: covardes tanto na vida real quanto na internet.

25 de março de 2005

Heróis

Astroboy, herói do desenho animado que leva seu nome, é um robô que usa sunga e voa por aí salvando todo mundo das situações mais adversas. Eu me recuso a ser salvo por um robô de sunga, I'm very sorry, Astro. Assim como me recuso a ser salvo pelo Super-Homem, pelo Batman, pelo Flash, pelo Lanterna Verde ou por qualquer outro herói que use sungas.

A razão disso é muito simples: não podemos ser salvos por gente inferior a nós. Se alguém nos salva, é porque é superior a nós, porque tem habilidades de que não dispomos, porque é superdotado de alguma forma, e gente de sunga não é superior a ninguém. Talvez gente de sunga seja superior a você, mas não é superior a mim, e acho que se Bruce Wayne lutasse contra o mal usando seu elegante terno, Gotham City lhe seria muito mais grata. Só sou salvo por gente mais bem vestida que eu, porque assim minha auto-estima não é afetada. Você pode até pensar o contrário, pode pensar que isso é uma tolice, mas perceba que os melhores nadadores não usam sungas e sim colants e que os melhores surfistas não usam sungas e sim bermudas.

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Estou convicto de que Terri Schiavo, a mulher que está há quinze anos viva por meio de aparelhos, quer morrer. Não sei se ela queria morrer antes, só que agora muito provavelmente ela quer, deve ter perdido o amor pela vida, certamente está triste pelo modo com que os acontecimentos se desenrolaram. O Judiciário americano havia determinado o desligamento dos aparelhos, mas o Congresso votou uma lei que proibe a eutanásia, o que manterá Terri viva.

Se ela de alguma forma soube que isso aconteceu, morrerá de desgosto, com sua auto-estima profundamente combalida, totalmente humilhada. Terri Schiavo teve sua vida salva por políticos. É melhor deixar claro: nem gente de sunga é inferior a um político.

(Ps.: Escrevi este texto levianamente, sem conferir nada, e acabo de descobrir que os aparelhos de Terri Schiavo estão desligados. Ela não vai morrer tão infeliz, at least.)