9 de setembro de 2005

Faço templates a 40 reais, uma pechincha, promoção e pra mocinha, aproveite, o estoque é limitado

Comemoro hoje o aniversário do meu diarinho, o Manipulação, acrescentando que não sei se hoje é o aniversário do blog, porque nunca comemorei o aniversário dele e nem sei quando postei pela primeira vez. Portanto, hoje é só uma data figurativa, não sei a idade do blog na verdade. Não é nada improvável, inclusive, que ele, o blog, já seja um homem feito, pronto para casar - talvez também, não dá para precisar, o blog também seja uma moça já formada, com os peitinhos grandes e redondinhos, que enchem uma mão. (Ele nunca me confidencia essas coisas de sexualidade, o(a) Manipulação é muito reservado(a), mas o(a) amo mesmo assim.)

Para presentear o blog, além de ter mudado a cor do blog daquele divertido verde-luzinha-de-computador para este elegante azul-turquesa, como muito bem definiu um leitor nos comentários de algum post anterior, preparei uma festinha para ele, com bexigas e saborosos beijinhos (vocês sabem, aquelas bolinhas de leite, amarelinhas, gostosas. Na festinha do meu blog, elas não têm aqueles cravos horríveis em cima, coitados dos beijinhos, não fizeram nada para ter uma coisa daquelas enterrada neles), e todos os amiguinhos.

Um presente que não fiz para meu blog foi um brasão, que é um plano antigo. Quero desde tempos remotos fazer um brasão para este blog, para que o reconheçam na rua somente pelas cores que traja, mas desisti porque ia dar muito trabalho, Deus está de prova. Sou um admirador da parassematografia, a arte de confeccionar brasões, nada mais natural, então, que querer um emblema para o Manipulação. Tenho até o emblema na minha mente, ele seria assim: azul-turquesa e verde-luzinha-de-computador seriam suas cores principais, óbvio, são cores familiares; li no site da monarquia brasileira que o losango presente na bandeira brasileira é uma homenagem heráldica às mulheres - pois bem, no brasão de meu blog, mesmo que fosse errado misturar bandeira com brasão e tal, não sei e não me importo, também queria homenagear as mulheres, então no emblema deveria haver um losango, digamos, um cinto de castidade em volta e uma vassoura no interior dele, para demonstrar a estima que nutro por elas neste território; e também tinha que ter golfinhos pulando em volta do símbolo, porque golfinhos são maneiros. No resto do brasão eu não pensei, mas já deu para ter uma idéia, eu acho. Poderia, quem sabe, colocar um livro representando os dez mandamentos em algum lugar, só que, veja, já está dando trabalho, deixa para lá. Não vou fazer nada, e nessas festinhas só tem muquirana, lamento, blog.

7 de setembro de 2005

Faço templates por 50 reais

Pensei em acabar com esse blog e me tornar tão baixo quanto, bem, quanto pessoas que acabam blogs por aí o tempo todo, mas pensei que não ia ter tantos comentários dizendo "oh, frost, por favor, volte, precisamos de você", então desisti. O único motivo razoável para se acabar com um blog é fazer os outros pedirem para você voltar, assim como o único motivo razoável para ter um blog e não ganhar dinheiro é receber comentários elogiosos. Pensei em fazer várias coisas idiotas nesta semana, não apenas acabar com o blog. Pensei, por exemplo, em praticar Tai Chi Chuan, porque vi na TV gente fazendo isso - eram pessoas comemorando os 130 anos do Mercado de São José, um mercado popular de Recife. Praticar Tai Chi Chuan é um jeito muito pitoresco de comemorar alguma coisa, mas, sabe-se lá, provavelmente o Tai Chi Chuan fosse o que melhor representasse a alegria do povo por tal data marcante.

(Claro que abandonei a idéia de praticar Tai Chi Chuan, claro, claro, quer dizer, sou muito influenciável pela TV, mas logo me volta o senso do ridículo. Deixe-me contar-lhes uma coisa, muito confidencial, sei que provavelmente vocês são leitores de bom gosto, que não gostam de dar tapas nas outras pessoas, principalmente na nuca, mas hoje pensei nisso, me parece divertidíssimo; já pensaram em dar um "Pedala, Robinho!" em alguém praticando Tai Chi Chuan? Assim, dar um bofetão na nuca do praticante, para que ele caia em slowmotion, com aquela baba voando lentamente de sua boca, gritando numa voz grave "nããããããooooooo". Poderiam considerar, pensar nisso me diverte, vocês nem sabem.)

Acho que é a segunda vez que falo de Tai Chi Chuan neste blog, devo ser a pessoa que mais despendeu tempo falando disso na história mundial, tirando os mestres chineses, que, dizem por aí, escreveram livros sobre como se movimentar lentamente. Porém, acho que eles não contam, porque o tempo no mundo dos praticantes de Tai Chi Chuan passa umas cinqüenta vezes mais lentamente. Pois, devo ter garantido um espacinho no próximo Guiness.

31 de agosto de 2005

Com embasamento

Experimentar coisas somente para falar mal depois é uma das coisas mais degradantes do mundo, como é degradante, nem me fale, e é por isso que todo mundo só vive falando isso, "oh, meu Deus, não fale mal sem conhecer, tem que falar mal com embasamento, atitudes como a sua contribuem para a má qualidade do debate na internet!!!". A internet está infestada de gente que quer debates de alta qualidade, não sei para quê, visto que, ora, o debate é de baixa qualidade porque as pessoas são de baixa qualidade, os inteligentes não se preocupam com debates de alta qualidade, nem em falar mal com embasamento.

"Não fale mal de colocar o dedo na tomada, você nunca nem colocou, para saber, sua atitude inconseqüente contribui para o enfraquecimento do já debilitado debate da internet hodierno", eu gostaria de ver alguém dizer, à mesa de jantar, após eu dizer que jamais colocaria o dedo na tomada para não acontecer essas coisas chatas, levar um choque, talvez. Essa é basicamente a atitude de quem lê Paulo Coelho para falar mal com embasamento: colocar a mão na tomada para saber como é e achar muito bonito. Essa atitude deve advir de revolta das pessoas, sabe-se lá, fizeram algo muito estúpido e agora saem pelo mundo incentivando os outros a fazerem coisas igualmente estúpidas. "Eu li Código da Vinci, leia você também", diz o arauto do bom debate na internet, "li e agora falo com propriedade, não saio destilando críticas sem conteúdo". É como você martelar o próprio dedo e sair pelo mundo propalando as maravilhas de martelar o próprio dedo, para que você possa falar sem medo sobre como é martelar o próprio dedo.

Mas essas pessoas não me pegam, sou muito esperto, tenho os reflexos rápidos como os de uma raposa do deserto azul, animal muito ágil que acabo de inventar, ninguém vai me fazer ler Paulo Coelho, talvez eu nem leia Código da Vinci, que comecei outro dia, mas Paulo Coelho nunca. E mesmo que eu leia Código da Vinci, não falarei para que vocês leiam, pois não tenho esses impulsos sádicos, nem discuto na internet, a única coisa que faço online são raps, e aproveitando o ensejo, gostaria de chamá-los para lá, para a Comunidade Rap, para que você se junte a mim, a nós, na arte de fazer raps. E essa propaganda é a única razão de este post existir.

11 de agosto de 2005

Expressões constrangedoras

Das mais para as menos constrangedoras:

- "dar muito beijo na boca";
- "muita gente bonita";
- "ver por dois ângulos principais";
- "básico";
- "é relativo".

É importante frisar que as primeiras duas expressões remetem imediatamente a Hebe Camargo. Ou seja, se você as usa, já usou, pensa ou pensou nelas, ceteris paribus, você é Hebe Camargo. Questão puramente lógica, ou erro em minha reflexão?

Provo-a com um exemplo simples. Basta imaginar Hebe Camargo conversando com a ex-Casa dos Artistas Mari Alexandre:

Mari Alexandre: Sabe, Hebe, é que ainda estou estudando as propostas das revistas para posar nua. Ainda não surgiu uma proposta que me balançasse. (E dá uma balançadinha na cabeça enquanto fala "balançasse".)
Hebe: Tem que fazer isso mesmo. E você, jovem e bonita, tem mais é que aproveitar a vida, sair por aí e dar muito beijo na boca!

A terceira e a última expressões não precisam nem de explicações, porque, ora, que coisa horrível é alguém chegar e dizer na sua cara para você olhar de dois ângulos um assunto, e que o assunto é todo relativo, e que você não pode dar "essa explicação tão simplista", e essas coisas. Enfim, não vou me estender neste ponto, parece-me óbvio.

Ah, e "básico". "Para sair para a night, você põe aquele jeans básico." Note que "básico" é expressão predominantemente usada por VJs da MTV. Isto significa que, se você a usa, provavelmente você é o Léo Madeira.

Update:

Outras expressões repulsivas:

- "balada";
- "monopólio da ética".

1 de agosto de 2005

Perguntão

Apreciaria por demais se alguém me explicasse por que a Nova York dos filmes está constantemente em incêndio, como neste filme que vejo agora, no Corujão, às quatro da manhã, em que ocorre uma briga no metrô da cidade com muita fumaça ao fundo. O que é aquilo? Fumaça mesmo? Vultos? Gás lacrimogêneo? Peidos? Vejam, neste momento a cena acaba de mudar para dentro da casa da pessoa e continua aquela fumaça passando. A noite de Nova York tem tanta fumaça assim? Estou ficando louco com esta dúvida.

Mas mudo de assunto. Deixe-me contar que, ontem, um meu tio e sua mulher, que moram no interior de Pernambuco e, portanto, não podem nos visitar freqüentemente, vieram à minha casa e ficaram aqui durante umas três ou quatro horas, conversando frivolidades com minha mãe, enfim, matando as saudades, vez que eles vêm poucas vezes para a parte do estado que mais se aproxima da civilização.

Minha mãe lhes entreteu mostrando os encantos do mundo moderno, deixando-os maravilhados com coisas como fósforos ("Santo Deus, é só riscar nessa parte marrom da caixa que acende?") e velcro ("Olha como cola um lado no outro!"), e, ademais, ela se divertiu conversando com parentes que quase nunca vê. O ponto é que, ao irem os dois embora, ela veio me reclamar: "Olha só, perdi minha novela!"

E, bem, isso sempre acontece. Certo dia, não brinco, veio nossa velha vizinha, Dona Saudade, aqui em casa para conversar às nove e meia da manhã. Passaram aproximadamente quinze minutos conversando, até que Dona Saudade ficou com sono, ou alguma coisa assim, nunca se sabe, e voltou para casa. Isso fez com que minha mãe irresignadamente corresse até mim para queixar-se: "Olha só, perdi minha novela!"

Mamãe sempre perde ou perderá uma novela, por mais estranha que seja a hora em que acontecem as visitas, o que nos leva a perguntas lógicas, pois hoje estou perguntão e vou explorar os comentaristas deste blog: 1) Quantas novelas passam na TV aberta brasileira e elas passam em horários esparsos como as visitas à minha casa? 2) De manhã passa novela ou a TV Globinho é uma novela? 3) Qual a duração média de cada capítulo das novelas nacionais?

Muito grato pelas respostas, embora a questão da fumaça seja muito mais aflitiva, e talvez responda por que Nova York fede tanto. (Nada contra, mesmo, mesmo, mas é que fede, vou dizer o quê? E tem aqueles ratos asquerosos.)

28 de julho de 2005

Japoneses

Vi há algum tempo no Globo Repórter que as crianças japonesas do ensino fundamental usam capacetes quando na escola. É por isso que o Brasil continuará perpetuamente sendo um país de terceiro mundo, porque sua bandeira é muito feia, com aquele bordão horroroso no meio, e também porque os brasileiros ignoram que suas crianças podem, de uma hora para outra, começar a bater a cabeça na parede sem motivo aparente.

Os japoneses sabem que não dá para confiar no discernimento das crianças e colocam capacetes nelas, e por isso são os segundos no mundo - também por causa da bandeira deles, que só tem uma bola no meio e é muito divertida de desenhar, ao contrário da nossa, muito complexa; nunca acertarei a posição das estrelinhas, mesmo tentando desenhá-las em todos os dias de minha vida.

Como quero ser lembrado como alguém bem pouco patriotinha, reproduzirei aqui uma citação de Nelson Rodrigues, para mostrar que sou muito conservador e que cuspo no Brasil e nos brasileiros: "O brasileiro é o povo mais idiota do mundo pois, ao contrário do japonês, não faz com que suas crianças usem capacetes para se protegerem de impulsos doentios de bater a cabeça na parede sem motivo aparente."

Seu Nelson falou, tá falado!

27 de julho de 2005

Menina de olho

A emocionante história de uma boxeadora que fica tetraplégica, sem poder nem mesmo falar. Seu treinador lhe dá a opção do suicídio assistido: ela deveria piscar se quisesse morrer ou ficar com os olhos abertos se quisesse continuar vivendo. O filme termina com o falecimento da ex-boxeadora graças a uma infecção generalizada, provavelmente ocorrida graças a uma sujeira que caiu em seu olho.

Breve nos cinemas.

19 de julho de 2005

Conto do banheiro

O banheiro do shopping estava vazio, até que dois homens, ambos altos e fortes, ora se não eram, entraram, trancaram-se em cubículos vizinhos e puseram-se a urinar. Passaram-se alguns segundos de silêncio, somente com o barulho característico das urinas tocando na água da privada, você sabe, e um dos homens acabou por se irritar:

- Que barulho enjoado! Mija na louça! - disse.
- Tá falando comigo? - o outro rapaz indagou.
- Claro!
- E o que você quer?
- Mija na louça!
- Hã?!
- Mija na louça da privada! Tá fazendo barulho!

Os dois se calam por alguns minutos, pois, como já deve ser de conhecimento dos leitores, a mijada de ambos personagens desta anedota, para fins fabulísticos, demora várias horas. Ambos continuam a mijar, o rapaz se irrita novamente e diz, com um tom mais agressivo:

- Mira o mijo na louça do vaso!
- Ah, é muito difícil! Não vou fazer isso, não!
- Mas e esse barulho?
- Vai ter que agüentar!
- Ah, não vou, não! Ouvi dizer que, para fins fabulísticos, nosso mijo demora várias horas! Vou enlouquecer com esse barulho! Você vai ter que mijar na louça!

Então, o rapaz, o que estava exasperado por causa do ruído do mijo alheio ao bater na água, mira sua urina para o chão, para que ela escorra até os pés do vizinho:

- Epa, o que é isso? - o rapaz do cubículo ao lado pergunta, enquanto tenta se manter urinando na privada e sacode os pés, esforçando-se para se livrar do líquido.
- E aí, vai mijar na louça?
- Pára de mijar no meu pé!
- Nunca!
- Vou mijar na sua cabeça! - disse, enquanto subia no vaso e mirava sua urina para que ela passasse por cima da divisória dos cubículos e acertasse o vizinho.
- Porra! - o outro exclamou quando sentiu sua careca molhada, e saiu correndo do cubículo, colocando o pinto para dentro da calça.

Ao sair de lá, ele foi lavar as mãos. Viu o outro se aproximar um tempo depois, já que, para fins de fábula, os personagens desta história também demoram várias horas lavando as mãos. Chegou e os dois ficaram enxaguando as mãos em pias próximas durante alguns minutos. Passou-se um tempo e o que havia começado a lavar mão primeiro virou para o outro:

- Mira a água no ralo. Tá fazendo barulho.

10 de junho de 2005

Bingo

Conversei com uns meus amigos sobre a Petrobras e posicionei-me xiitamente a favor da privatização da empresa, exaltando minha posição de elite parasitária que domina o país há quinhentos anos. "Vende tudo aí", eu falava sem escutar o que me diziam. Até que, num átimo, os ouvi dizer que a privatização da Eletrobrás foi um fracasso, porque ainda aumenta-se o preço da energia, ou algo igualmente idiota, e porque vendemo-la por mixaria. Olha, asseguro-lhes, nem vendemos por mixaria, e, se vendemos, é porque valia aquela ninhariazinha mesmo. Essa gente que fica superestimando nossa massa falida, não sei, não, viu?, gente mais mesquinha.

Eu argumentei sofismaticamente dizendo que a empresa foi vendida em leilão, o que faria, portanto, o preço pago por ela ser justinho, bonitinho, já que ninguém estava disposto a pagar mais nada por aquela porcaria. Porém, foi aí que um de meus amigos disse, com toda aquela pompa dos sábios: "Ah, mas a gente sabe que não foi leilão mesmo! Você sabe que tem muita coisa por trás." Não, eu não sabia que a coisa estava por trás, não, e, inclusive, sempre pensei que a Eletrobrás tivesse sido vendida por leilão mesmo. Descobri estar ridiculamente errado.

Mas se a Eletrobrás não foi vendida por leilão, foi vendida por quê? Por rifa? Cada bilhete custando um bilhão de dólares? Não pode ter sido por torneio de habilidades. Deve ter sido por bingo. Certamente foi por bingo, é o método mais justo. Posso facilmente imaginar um bingo com dezenas de executivos multinacionais senis cruzando os dedos e marcando as cartelas com feijõezinhos. Tanto imagino isso que abaixo lhes narro como penso que foi o bingo da Eletrobrás:

Bingo da Privatização da Eletrobrás

O representante do governo pega um globo do Bingo do Gugu com 99 pedras e, antes de iniciar o Bingo da Privatização, anuncia que "quem completar uma coluna ou uma linha ganha um pequeno montante de ações" e que "quem completar a cartela fica com a mesa diretora". Os velhos executivos estavam nervosos, apreensivos, esperavam ansiosamente pelo começo do jogo, usando pijamas (a maioria de cor vinho) e chinelas.

Começa a sessão. No início parecia que ia haver um equilíbrio até o fim e que o bingo seria decidido somente nas duas últimas bolas, mas logo viu-se que somente dois concorrentes estavam com sorte naquela tarde. Depois de cada número que o sorteador entoava, ouvia-se dos executivos coisas como "Uhhh!" ou "Gira esse globo direito! Tá viciado!". Vez por outra alguém completava uma linha ou uma coluna:

- Dois patinhos na lagoa, vinte e dois!
- Coluna! Completei a G!

Eventualmente o grito de "Coluna!" era sucedido por um "Puta que pariu!" inconformado do fundo da sala, mas normalmente ninguém se exasperava e o bingo continuava a transcorrer normalmente.

Nas últimas bolas, os dois últimos executivos com chances reais suavam frio, esperando cada número como se daquilo dependesse a aquisição de uma grande empresa de gerência de sistemas elétricos de um país sul-americano:

- Quarenta e sete, quatro, sete! - bradou o sorteador.
- Vou bater! - disse um executivo.
- Eu também! - falou outro, que, além de pijama, usava um gorro de dormir muito garrido.

O sorteador, então, enunciou o que seria a última bola:

- A idade de Cristo! Trinta e três!
- Bati! - se levanta o executivo de gorro.

E levantou-se furiosamente o outro executivo, o que estava pau a pau com o de gorro, apontando o indicador na direção do vencedor e gritando "É impossível! O controle acionário é meu! Meu!". Então saiu correndo atrás do concorrente, no intuito de roubar-lhe a cartela premiada, fazendo breves pausas na na corrida para descansar um pouco (porque ele já era um senhor de idade e não podia forçar a coluna), enquanto o ganhador fugiu rapidamente para conferir sua vitória.

4 de junho de 2005

Posts

Saí da Revista Paradoxo e, por isso, decidi postar meus textos de lá aqui no meu blog, para não perdê-los, coitados, eles têm valor sentimental. Estão todos aí embaixo, para se quiserem ler, reler, se emocionar.

Testemunhas-de-Jeová

Desisti de ir a uma palestra de Abram Zylbersztajn sobre humor judaico. Zylbersztajn já lançou dois livros de compilações de piadas de judeu, os volumes 1 e 2 de "As Melhores Piadas do Humor Judaico". É um especialista no tema. Nunca fui a uma palestra sobre piadas de coisa alguma e, pelo visto, passarei mais algum tempo sem ir. Não sei o que Abram disse na palestra, mas espero que ele tenha dedicado um tempo a explicar como se pronuncia de seu sobrenome, que é algo que me intriga mais do que as piadas de judeu. Dar palestra sobre piada de judeu é moleza, não tem segredo algum. Para fazer uma piada dessas, basta assumir que todos os judeus são avarentos, que todos os judeus têm o nariz grande e recurvado, que todos os judeus têm sotaque de judeu e que todos os judeus falam na terceira pessoa. Muito mais interessante que uma palestra sobre piadas de judeu seria uma palestra sobre piadas de anão - muito embora os anões sejam engraçados por si só, não precisando de piada nenhuma. Mesmo assim, se ficarem sabendo de alguma palestra sobre piadas de anão, não hesitem em me chamar.

* * *

Recentemente foi inaugurado um monumento em Berlim que homenageia os judeus mortos pelo nazismo. Desenhado pelo arquiteto americano Peter Eisenman, o monumento é constituído de 2.711 blocos de concreto de diferentes tamanhos e sua idéia é transmitir uma sensação de desconforto e solidão que lembre o sofrimento dos judeus vitimados pelo Terceiro Reich. No entanto, o único sofrimento de que lembro quando olho o monumento é o meu, porque a construção é absurdamente feia e agride os meus olhos. Espero que, visto de dentro, ele lembre mais os pobres judeus.

Uma crítica feita ao monumento foi ao fato de ele não homenagear todas as vítimas do nazismo, mas apenas os judeus, excluindo os ciganos e as testemunhas-de-Jeová, por exemplo. Não conheço absolutamente nada dos ciganos, mas, se as testemunhas-de-Jeová realmente se incomodaram, as autoridades alemãs podem ficar sossegadas, pois elas (as testemunhas-de-Jeová) têm um longo histórico de mudanças de idéia. Se agora estão revoltadas com a omissão alemã do seu sofrimento, em breve, chuto, elas mudarão de idéia e ficarão até felizes com o fato.

As testemunhas-de-Jeová achavam que o Armagedom viria antes que a geração de 1914 desaparecesse. A geração de 1914, entretanto, vem morrendo e o Armagedom ainda não veio. Por isso, pensaram até em mudar o ano da geração do juízo final de 1914 para 1957 para dar mais tempo para o Armagedom chegar, porque ele é meio lentinho e não aparece quando deve. Tentaram justificar a mudança do ano com o lançamento do Sputinik pelos soviéticos. Esperemos, pois, que as testemunhas-de-Jeová não considerem mais pecado a transfusão de sangue após o homem pisar em Marte.

Também em 1914, acreditavam as testemunhas-de-Jeová, havia começado o julgamento das nações, em que Jesus estava separando os cabritos das ovelhas. Um tempo depois, decidiram que o julgamento só começará após a vinda de Cristo. Sobre o serviço militar, as testemunhas-de-Jeová achavam que não era bíblico. Mas, em 1978, o Corpo Governante da Sociedade Torre de Vigia - instituição das testemunhas-de-Jeová - decidiu votar o serviço militar alternativo (atividades administrativas em vez de essencialmente militares), mostrando que havia algumas dúvidas e talvez o serviço militar fosse um pouquinho bíblico. Hoje em dia, a Torre de Vigia admite que o serviço militar alternativo não é pecado.

Os judeus precisam de Abram Zylbersztajn para fazer piada de si mesmos. As testemunhas-de-Jeová, pelo menos, já fazem de sua crença uma piada. (A propósito, avisem-me se conhecerem uma testemunha-de-Jeová anã. Deve ser a coisa mais hilária do planeta.)

Malvinas

A declaração final da Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes (reunião entre países inexpressivos) traz um parágrafo defendendo a soberania da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, de domínio do Reino Unido. Os latino-americanos criticam a inclusão das ilhas como território ultramarino britânico no Tratado Constitucional da União Européia, buscando restabelecer negociações entre a Grã-Bretanha e a Argentina, para, desta forma, encontrar "uma solução justa, pacífica e duradoura" para a querela.

As Malvinas - Falklands, para os britânicos - são dominadas pelo Reino Unido desde 1833. Para a Argentina, as ilhas são palco de uma "disputa de soberania", mas o ponto é que a disputa pela soberania foi em 1982, quando os argentinos tentaram reimpor àquele lugar sua administração e levaram uma surra dos britânicos - em dez semanas. Hoje não há mais disputa pela soberania, todo mundo está feliz, deixem as ilhazinhas lá com o Reino Unido. A tal solução pacífica e duradoura já foi encontrada há muito tempo, e, arrisco-me a dizer, é muito justa: haverá paz duradoura, exceto se a Argentina quiser as Malvinas de volta. Os kelpers, habitantes das ilhas, pensam como eu e preferem a cidadania britânica. A propósito, dói-me o coração ver como pessoas tão lúcidas como os kelpers são ignoradas no debate pela posse das Malvinas. Qualquer um preferiria ser inglês a ser argentino, e os kelpers não são exceção.

***

Na minha opinião, todas as ilhas do mundo deveriam ser possessão britânica. É assim que o mundo foi concebido e não cabe a nós, meros produtos da Criação, mudarmos essa situação. Um grande trabalho que venho desenvolvendo é o de transformar o terreno onde meu prédio se situa numa ilha. A primeira coisa que fiz foi cavar um grande buraco em volta dele, e, agora, todos os dias, passo horas e mais horas enchendo o buraco com água da mangueira. Em poucos meses, meu prédio se transformará numa ilha no meio de Recife - pretendo até encher o buraco com piranhas e crocodilos - e humildemente enviarei uma cartinha à Rainha Elizabeth, pedindo a formalização de seu domínio sobre meu prédio. Se ela estranhamente se recusar a assumir a posse da minha ilha (Ilha Erickland, oficialmente), pedirei proteção à Rainha Beatrix da Holanda, que certamente quererá reafirmar o domínio histórico de seu país sobre Pernambuco. Não há dúvidas sobre isso.

Arrumo as malas

Pretendo deixar o país o mais breve possível. Temo ver outro jornalista constrangedoramente falando sobre Severino Cavalcanti enquanto faz um paralelo com Morte e Vida Severina. Comparar o Severino de João Cabral com o Presidente da Câmara é um crime, que, por conta de nossa Constituição arcaica, não tem pena prevista em lei. Felizmente, José Carlos Aleluia não foi eleito, não dando margem para análises políticas intituladas ?E agora, José??, que ficariam sem as punições cabíveis.

Enquanto coloco estes chocolates com recheio de baunilha na bagagem, caros, eu lhes digo que esses não são Severinos iguais em tudo na vida. Cavalcanti não é filho de Maria nem do finado Zacarias, portanto, jornalistas, parem de escrever tais coisas degradantes. Alguém tem que pôr um ponto final nisso tudo. Proponho a Severino Cavalcanti a paralisação da votação de todas as Medidas Provisórias enquanto o Presidente Lula não baixar um decreto proibindo a citação de João Cabral de Melo Neto em colunas sobre o cenário político nacional.

Morando em Recife, posso captar o sentimento da população quanto a Severino Cavalcanti. Em geral, os pernambucanos ficaram muito magoados com sua eleição, pois, segundo o consenso, ele não representa o povo, não representa os reais Severinos, pobres, sofridos, só com a cova que lhes cabe dentro do latifúndio. Triste. Somos assim, não nos importamos com os reais problemas da nação, nunca atentamos para o que de fato deve ser observado. Em vez de nos indignarmos com a eleição de Severino Cavalcanti, deveríamos fazer um levante contra a utilização de poemas em análises políticas. Em que mundo você quer que seus filhos vivam? Num mundo onde todo mundo sai falando sobre Severinos que morrem de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia? Eu não quero esse mundo para as próximas gerações. E isso não é muito alarde por pouco. O povo pernambucano só se conscientizará da importância de zelar pela integridade de nossos poemas quando um recifense for eleito Presidente do Senado e alguém citar Vou-me embora para Pasárgada.

Outra vantagem de viver em Recife é que há muitas embaixadas por aqui. Penso em ir até a embaixada de Rondônia e pedir asilo intelectual. Será maravilhoso, porque um lugar inóspito como Rondônia não deve possuir jornais ou qualquer tipo de veículo de comunicação. E, mesmo que possua, imagino que o Rei daquele país filtre toda a informação que chega aos rondonienses. Portanto, estarei a salvo de comparações ridículas entre um personagem ficcional e um Presidente de Câmara. Vou-me embora para Rondônia. Em Rondônia não tem nada, é outra civilização.

Olhar assexuado

Quando me deixaram escrever na Revista Paradoxo, achei de bom tom lê-la, já que nunca tinha feito isso. Na capa havia uma entrevista com Ferréz, mas não achei que seria um bom começo para mim na revista. Primeiro por causa dos óculos horríveis que ele usa. Eu, instintivamente, ao ver a foto de Ferréz, fecharia a janela e não leria nada. Também pelo fato de Ferréz ser marginal demais para mim. Creio que não estou preparado para tanta marginalidade. Achei melhor ler um artigo sobre o velório do Papa João Paulo II, mas parei quando o articulista usou a expressão "modelo consumista ocidentalizado". Poxa, eu gosto tanto do modelo consumista ocidentalizado, não quero que fiquem falando pelas costas do pobrezinho. E, inclusive, não tenho preconceito contra o modelo consumista orientalizado, se é que ele existe. Gostaria que todos os modelos consumistas vivessem juntinhos, em harmonia.

Na seção de colunas da revista, chamou minha atenção a descrição da coluna da Sarah Bergamasco: "Minha missão é revelar um olhar novo e feminino sobre as questões mais inusitadas." Gostaria de dizer às mulheres para pararem de querer lançar olhares femininos sobre tudo. Façam como eu, lancem olhares assexuados sobre algum assunto clichê, às vezes. Transformem-se mentalmente numa alface e falem, digamos, sobre economia. Noto que as alfaces não fazem ação afirmativa de gênero, um exemplo muito digno que deveria ser seguido pelas mulheres.

Esclareço que não tenho nada contra os olhares femininos, acho-os muito bonitos e elegantes (sou particularmente atraído por cílios bem feitos), mas pretendo evitar que as mulheres usem seu olhar assim, a esmo, para não vulgarizá-lo.

***

Não quero que pensem que escrevi essa coluna falando mal da Sarah Bergamasco somente para aparecer. É claro que foi somente para aparecer, mas eu não quero que pensem isso, quero que pensem que foi por algum motivo nobre. Pensem que foi pela valorização do sexo feminino, pela paz mundial ou algo igualmente vergonhoso. Só espero que vocês não fiquem falando coisas desagradáveis a meu respeito por aí, como que eu não tenho respeito por ninguém, ou que só escrevo esses absurdos para chamar atenção, porque ninguém gosta de ficar ouvindo obviedades.

28 de maio de 2005

O tímido

Sempre foi melhor escrevendo que falando. Certo dia, resolveu vencer sua timidez indo à noite a um bar, onde mandou um torpedo a uma bela moça, que mandou-lhe um de volta, chamando-o para sentar-se com ela. Sentou-se, tirou um bloquinho de notas do bolso e escreveu "Oi, tudo bem?".