Eu argumentei sofismaticamente dizendo que a empresa foi vendida em leilão, o que faria, portanto, o preço pago por ela ser justinho, bonitinho, já que ninguém estava disposto a pagar mais nada por aquela porcaria. Porém, foi aí que um de meus amigos disse, com toda aquela pompa dos sábios: "Ah, mas a gente sabe que não foi leilão mesmo! Você sabe que tem muita coisa por trás." Não, eu não sabia que a coisa estava por trás, não, e, inclusive, sempre pensei que a Eletrobrás tivesse sido vendida por leilão mesmo. Descobri estar ridiculamente errado.
Mas se a Eletrobrás não foi vendida por leilão, foi vendida por quê? Por rifa? Cada bilhete custando um bilhão de dólares? Não pode ter sido por torneio de habilidades. Deve ter sido por bingo. Certamente foi por bingo, é o método mais justo. Posso facilmente imaginar um bingo com dezenas de executivos multinacionais senis cruzando os dedos e marcando as cartelas com feijõezinhos. Tanto imagino isso que abaixo lhes narro como penso que foi o bingo da Eletrobrás:
Bingo da Privatização da Eletrobrás
O representante do governo pega um globo do Bingo do Gugu com 99 pedras e, antes de iniciar o Bingo da Privatização, anuncia que "quem completar uma coluna ou uma linha ganha um pequeno montante de ações" e que "quem completar a cartela fica com a mesa diretora". Os velhos executivos estavam nervosos, apreensivos, esperavam ansiosamente pelo começo do jogo, usando pijamas (a maioria de cor vinho) e chinelas.
Começa a sessão. No início parecia que ia haver um equilíbrio até o fim e que o bingo seria decidido somente nas duas últimas bolas, mas logo viu-se que somente dois concorrentes estavam com sorte naquela tarde. Depois de cada número que o sorteador entoava, ouvia-se dos executivos coisas como "Uhhh!" ou "Gira esse globo direito! Tá viciado!". Vez por outra alguém completava uma linha ou uma coluna:
- Dois patinhos na lagoa, vinte e dois!
- Coluna! Completei a G!
Eventualmente o grito de "Coluna!" era sucedido por um "Puta que pariu!" inconformado do fundo da sala, mas normalmente ninguém se exasperava e o bingo continuava a transcorrer normalmente.
Nas últimas bolas, os dois últimos executivos com chances reais suavam frio, esperando cada número como se daquilo dependesse a aquisição de uma grande empresa de gerência de sistemas elétricos de um país sul-americano:
- Quarenta e sete, quatro, sete! - bradou o sorteador.
- Vou bater! - disse um executivo.
- Eu também! - falou outro, que, além de pijama, usava um gorro de dormir muito garrido.
O sorteador, então, enunciou o que seria a última bola:
- A idade de Cristo! Trinta e três!
- Bati! - se levanta o executivo de gorro.
E levantou-se furiosamente o outro executivo, o que estava pau a pau com o de gorro, apontando o indicador na direção do vencedor e gritando "É impossível! O controle acionário é meu! Meu!". Então saiu correndo atrás do concorrente, no intuito de roubar-lhe a cartela premiada, fazendo breves pausas na na corrida para descansar um pouco (porque ele já era um senhor de idade e não podia forçar a coluna), enquanto o ganhador fugiu rapidamente para conferir sua vitória.
O representante do governo pega um globo do Bingo do Gugu com 99 pedras e, antes de iniciar o Bingo da Privatização, anuncia que "quem completar uma coluna ou uma linha ganha um pequeno montante de ações" e que "quem completar a cartela fica com a mesa diretora". Os velhos executivos estavam nervosos, apreensivos, esperavam ansiosamente pelo começo do jogo, usando pijamas (a maioria de cor vinho) e chinelas.
Começa a sessão. No início parecia que ia haver um equilíbrio até o fim e que o bingo seria decidido somente nas duas últimas bolas, mas logo viu-se que somente dois concorrentes estavam com sorte naquela tarde. Depois de cada número que o sorteador entoava, ouvia-se dos executivos coisas como "Uhhh!" ou "Gira esse globo direito! Tá viciado!". Vez por outra alguém completava uma linha ou uma coluna:
- Dois patinhos na lagoa, vinte e dois!
- Coluna! Completei a G!
Eventualmente o grito de "Coluna!" era sucedido por um "Puta que pariu!" inconformado do fundo da sala, mas normalmente ninguém se exasperava e o bingo continuava a transcorrer normalmente.
Nas últimas bolas, os dois últimos executivos com chances reais suavam frio, esperando cada número como se daquilo dependesse a aquisição de uma grande empresa de gerência de sistemas elétricos de um país sul-americano:
- Quarenta e sete, quatro, sete! - bradou o sorteador.
- Vou bater! - disse um executivo.
- Eu também! - falou outro, que, além de pijama, usava um gorro de dormir muito garrido.
O sorteador, então, enunciou o que seria a última bola:
- A idade de Cristo! Trinta e três!
- Bati! - se levanta o executivo de gorro.
E levantou-se furiosamente o outro executivo, o que estava pau a pau com o de gorro, apontando o indicador na direção do vencedor e gritando "É impossível! O controle acionário é meu! Meu!". Então saiu correndo atrás do concorrente, no intuito de roubar-lhe a cartela premiada, fazendo breves pausas na na corrida para descansar um pouco (porque ele já era um senhor de idade e não podia forçar a coluna), enquanto o ganhador fugiu rapidamente para conferir sua vitória.