10 de junho de 2005

Bingo

Conversei com uns meus amigos sobre a Petrobras e posicionei-me xiitamente a favor da privatização da empresa, exaltando minha posição de elite parasitária que domina o país há quinhentos anos. "Vende tudo aí", eu falava sem escutar o que me diziam. Até que, num átimo, os ouvi dizer que a privatização da Eletrobrás foi um fracasso, porque ainda aumenta-se o preço da energia, ou algo igualmente idiota, e porque vendemo-la por mixaria. Olha, asseguro-lhes, nem vendemos por mixaria, e, se vendemos, é porque valia aquela ninhariazinha mesmo. Essa gente que fica superestimando nossa massa falida, não sei, não, viu?, gente mais mesquinha.

Eu argumentei sofismaticamente dizendo que a empresa foi vendida em leilão, o que faria, portanto, o preço pago por ela ser justinho, bonitinho, já que ninguém estava disposto a pagar mais nada por aquela porcaria. Porém, foi aí que um de meus amigos disse, com toda aquela pompa dos sábios: "Ah, mas a gente sabe que não foi leilão mesmo! Você sabe que tem muita coisa por trás." Não, eu não sabia que a coisa estava por trás, não, e, inclusive, sempre pensei que a Eletrobrás tivesse sido vendida por leilão mesmo. Descobri estar ridiculamente errado.

Mas se a Eletrobrás não foi vendida por leilão, foi vendida por quê? Por rifa? Cada bilhete custando um bilhão de dólares? Não pode ter sido por torneio de habilidades. Deve ter sido por bingo. Certamente foi por bingo, é o método mais justo. Posso facilmente imaginar um bingo com dezenas de executivos multinacionais senis cruzando os dedos e marcando as cartelas com feijõezinhos. Tanto imagino isso que abaixo lhes narro como penso que foi o bingo da Eletrobrás:

Bingo da Privatização da Eletrobrás

O representante do governo pega um globo do Bingo do Gugu com 99 pedras e, antes de iniciar o Bingo da Privatização, anuncia que "quem completar uma coluna ou uma linha ganha um pequeno montante de ações" e que "quem completar a cartela fica com a mesa diretora". Os velhos executivos estavam nervosos, apreensivos, esperavam ansiosamente pelo começo do jogo, usando pijamas (a maioria de cor vinho) e chinelas.

Começa a sessão. No início parecia que ia haver um equilíbrio até o fim e que o bingo seria decidido somente nas duas últimas bolas, mas logo viu-se que somente dois concorrentes estavam com sorte naquela tarde. Depois de cada número que o sorteador entoava, ouvia-se dos executivos coisas como "Uhhh!" ou "Gira esse globo direito! Tá viciado!". Vez por outra alguém completava uma linha ou uma coluna:

- Dois patinhos na lagoa, vinte e dois!
- Coluna! Completei a G!

Eventualmente o grito de "Coluna!" era sucedido por um "Puta que pariu!" inconformado do fundo da sala, mas normalmente ninguém se exasperava e o bingo continuava a transcorrer normalmente.

Nas últimas bolas, os dois últimos executivos com chances reais suavam frio, esperando cada número como se daquilo dependesse a aquisição de uma grande empresa de gerência de sistemas elétricos de um país sul-americano:

- Quarenta e sete, quatro, sete! - bradou o sorteador.
- Vou bater! - disse um executivo.
- Eu também! - falou outro, que, além de pijama, usava um gorro de dormir muito garrido.

O sorteador, então, enunciou o que seria a última bola:

- A idade de Cristo! Trinta e três!
- Bati! - se levanta o executivo de gorro.

E levantou-se furiosamente o outro executivo, o que estava pau a pau com o de gorro, apontando o indicador na direção do vencedor e gritando "É impossível! O controle acionário é meu! Meu!". Então saiu correndo atrás do concorrente, no intuito de roubar-lhe a cartela premiada, fazendo breves pausas na na corrida para descansar um pouco (porque ele já era um senhor de idade e não podia forçar a coluna), enquanto o ganhador fugiu rapidamente para conferir sua vitória.

4 de junho de 2005

Posts

Saí da Revista Paradoxo e, por isso, decidi postar meus textos de lá aqui no meu blog, para não perdê-los, coitados, eles têm valor sentimental. Estão todos aí embaixo, para se quiserem ler, reler, se emocionar.

Testemunhas-de-Jeová

Desisti de ir a uma palestra de Abram Zylbersztajn sobre humor judaico. Zylbersztajn já lançou dois livros de compilações de piadas de judeu, os volumes 1 e 2 de "As Melhores Piadas do Humor Judaico". É um especialista no tema. Nunca fui a uma palestra sobre piadas de coisa alguma e, pelo visto, passarei mais algum tempo sem ir. Não sei o que Abram disse na palestra, mas espero que ele tenha dedicado um tempo a explicar como se pronuncia de seu sobrenome, que é algo que me intriga mais do que as piadas de judeu. Dar palestra sobre piada de judeu é moleza, não tem segredo algum. Para fazer uma piada dessas, basta assumir que todos os judeus são avarentos, que todos os judeus têm o nariz grande e recurvado, que todos os judeus têm sotaque de judeu e que todos os judeus falam na terceira pessoa. Muito mais interessante que uma palestra sobre piadas de judeu seria uma palestra sobre piadas de anão - muito embora os anões sejam engraçados por si só, não precisando de piada nenhuma. Mesmo assim, se ficarem sabendo de alguma palestra sobre piadas de anão, não hesitem em me chamar.

* * *

Recentemente foi inaugurado um monumento em Berlim que homenageia os judeus mortos pelo nazismo. Desenhado pelo arquiteto americano Peter Eisenman, o monumento é constituído de 2.711 blocos de concreto de diferentes tamanhos e sua idéia é transmitir uma sensação de desconforto e solidão que lembre o sofrimento dos judeus vitimados pelo Terceiro Reich. No entanto, o único sofrimento de que lembro quando olho o monumento é o meu, porque a construção é absurdamente feia e agride os meus olhos. Espero que, visto de dentro, ele lembre mais os pobres judeus.

Uma crítica feita ao monumento foi ao fato de ele não homenagear todas as vítimas do nazismo, mas apenas os judeus, excluindo os ciganos e as testemunhas-de-Jeová, por exemplo. Não conheço absolutamente nada dos ciganos, mas, se as testemunhas-de-Jeová realmente se incomodaram, as autoridades alemãs podem ficar sossegadas, pois elas (as testemunhas-de-Jeová) têm um longo histórico de mudanças de idéia. Se agora estão revoltadas com a omissão alemã do seu sofrimento, em breve, chuto, elas mudarão de idéia e ficarão até felizes com o fato.

As testemunhas-de-Jeová achavam que o Armagedom viria antes que a geração de 1914 desaparecesse. A geração de 1914, entretanto, vem morrendo e o Armagedom ainda não veio. Por isso, pensaram até em mudar o ano da geração do juízo final de 1914 para 1957 para dar mais tempo para o Armagedom chegar, porque ele é meio lentinho e não aparece quando deve. Tentaram justificar a mudança do ano com o lançamento do Sputinik pelos soviéticos. Esperemos, pois, que as testemunhas-de-Jeová não considerem mais pecado a transfusão de sangue após o homem pisar em Marte.

Também em 1914, acreditavam as testemunhas-de-Jeová, havia começado o julgamento das nações, em que Jesus estava separando os cabritos das ovelhas. Um tempo depois, decidiram que o julgamento só começará após a vinda de Cristo. Sobre o serviço militar, as testemunhas-de-Jeová achavam que não era bíblico. Mas, em 1978, o Corpo Governante da Sociedade Torre de Vigia - instituição das testemunhas-de-Jeová - decidiu votar o serviço militar alternativo (atividades administrativas em vez de essencialmente militares), mostrando que havia algumas dúvidas e talvez o serviço militar fosse um pouquinho bíblico. Hoje em dia, a Torre de Vigia admite que o serviço militar alternativo não é pecado.

Os judeus precisam de Abram Zylbersztajn para fazer piada de si mesmos. As testemunhas-de-Jeová, pelo menos, já fazem de sua crença uma piada. (A propósito, avisem-me se conhecerem uma testemunha-de-Jeová anã. Deve ser a coisa mais hilária do planeta.)

Malvinas

A declaração final da Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes (reunião entre países inexpressivos) traz um parágrafo defendendo a soberania da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, de domínio do Reino Unido. Os latino-americanos criticam a inclusão das ilhas como território ultramarino britânico no Tratado Constitucional da União Européia, buscando restabelecer negociações entre a Grã-Bretanha e a Argentina, para, desta forma, encontrar "uma solução justa, pacífica e duradoura" para a querela.

As Malvinas - Falklands, para os britânicos - são dominadas pelo Reino Unido desde 1833. Para a Argentina, as ilhas são palco de uma "disputa de soberania", mas o ponto é que a disputa pela soberania foi em 1982, quando os argentinos tentaram reimpor àquele lugar sua administração e levaram uma surra dos britânicos - em dez semanas. Hoje não há mais disputa pela soberania, todo mundo está feliz, deixem as ilhazinhas lá com o Reino Unido. A tal solução pacífica e duradoura já foi encontrada há muito tempo, e, arrisco-me a dizer, é muito justa: haverá paz duradoura, exceto se a Argentina quiser as Malvinas de volta. Os kelpers, habitantes das ilhas, pensam como eu e preferem a cidadania britânica. A propósito, dói-me o coração ver como pessoas tão lúcidas como os kelpers são ignoradas no debate pela posse das Malvinas. Qualquer um preferiria ser inglês a ser argentino, e os kelpers não são exceção.

***

Na minha opinião, todas as ilhas do mundo deveriam ser possessão britânica. É assim que o mundo foi concebido e não cabe a nós, meros produtos da Criação, mudarmos essa situação. Um grande trabalho que venho desenvolvendo é o de transformar o terreno onde meu prédio se situa numa ilha. A primeira coisa que fiz foi cavar um grande buraco em volta dele, e, agora, todos os dias, passo horas e mais horas enchendo o buraco com água da mangueira. Em poucos meses, meu prédio se transformará numa ilha no meio de Recife - pretendo até encher o buraco com piranhas e crocodilos - e humildemente enviarei uma cartinha à Rainha Elizabeth, pedindo a formalização de seu domínio sobre meu prédio. Se ela estranhamente se recusar a assumir a posse da minha ilha (Ilha Erickland, oficialmente), pedirei proteção à Rainha Beatrix da Holanda, que certamente quererá reafirmar o domínio histórico de seu país sobre Pernambuco. Não há dúvidas sobre isso.

Arrumo as malas

Pretendo deixar o país o mais breve possível. Temo ver outro jornalista constrangedoramente falando sobre Severino Cavalcanti enquanto faz um paralelo com Morte e Vida Severina. Comparar o Severino de João Cabral com o Presidente da Câmara é um crime, que, por conta de nossa Constituição arcaica, não tem pena prevista em lei. Felizmente, José Carlos Aleluia não foi eleito, não dando margem para análises políticas intituladas ?E agora, José??, que ficariam sem as punições cabíveis.

Enquanto coloco estes chocolates com recheio de baunilha na bagagem, caros, eu lhes digo que esses não são Severinos iguais em tudo na vida. Cavalcanti não é filho de Maria nem do finado Zacarias, portanto, jornalistas, parem de escrever tais coisas degradantes. Alguém tem que pôr um ponto final nisso tudo. Proponho a Severino Cavalcanti a paralisação da votação de todas as Medidas Provisórias enquanto o Presidente Lula não baixar um decreto proibindo a citação de João Cabral de Melo Neto em colunas sobre o cenário político nacional.

Morando em Recife, posso captar o sentimento da população quanto a Severino Cavalcanti. Em geral, os pernambucanos ficaram muito magoados com sua eleição, pois, segundo o consenso, ele não representa o povo, não representa os reais Severinos, pobres, sofridos, só com a cova que lhes cabe dentro do latifúndio. Triste. Somos assim, não nos importamos com os reais problemas da nação, nunca atentamos para o que de fato deve ser observado. Em vez de nos indignarmos com a eleição de Severino Cavalcanti, deveríamos fazer um levante contra a utilização de poemas em análises políticas. Em que mundo você quer que seus filhos vivam? Num mundo onde todo mundo sai falando sobre Severinos que morrem de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia? Eu não quero esse mundo para as próximas gerações. E isso não é muito alarde por pouco. O povo pernambucano só se conscientizará da importância de zelar pela integridade de nossos poemas quando um recifense for eleito Presidente do Senado e alguém citar Vou-me embora para Pasárgada.

Outra vantagem de viver em Recife é que há muitas embaixadas por aqui. Penso em ir até a embaixada de Rondônia e pedir asilo intelectual. Será maravilhoso, porque um lugar inóspito como Rondônia não deve possuir jornais ou qualquer tipo de veículo de comunicação. E, mesmo que possua, imagino que o Rei daquele país filtre toda a informação que chega aos rondonienses. Portanto, estarei a salvo de comparações ridículas entre um personagem ficcional e um Presidente de Câmara. Vou-me embora para Rondônia. Em Rondônia não tem nada, é outra civilização.

Olhar assexuado

Quando me deixaram escrever na Revista Paradoxo, achei de bom tom lê-la, já que nunca tinha feito isso. Na capa havia uma entrevista com Ferréz, mas não achei que seria um bom começo para mim na revista. Primeiro por causa dos óculos horríveis que ele usa. Eu, instintivamente, ao ver a foto de Ferréz, fecharia a janela e não leria nada. Também pelo fato de Ferréz ser marginal demais para mim. Creio que não estou preparado para tanta marginalidade. Achei melhor ler um artigo sobre o velório do Papa João Paulo II, mas parei quando o articulista usou a expressão "modelo consumista ocidentalizado". Poxa, eu gosto tanto do modelo consumista ocidentalizado, não quero que fiquem falando pelas costas do pobrezinho. E, inclusive, não tenho preconceito contra o modelo consumista orientalizado, se é que ele existe. Gostaria que todos os modelos consumistas vivessem juntinhos, em harmonia.

Na seção de colunas da revista, chamou minha atenção a descrição da coluna da Sarah Bergamasco: "Minha missão é revelar um olhar novo e feminino sobre as questões mais inusitadas." Gostaria de dizer às mulheres para pararem de querer lançar olhares femininos sobre tudo. Façam como eu, lancem olhares assexuados sobre algum assunto clichê, às vezes. Transformem-se mentalmente numa alface e falem, digamos, sobre economia. Noto que as alfaces não fazem ação afirmativa de gênero, um exemplo muito digno que deveria ser seguido pelas mulheres.

Esclareço que não tenho nada contra os olhares femininos, acho-os muito bonitos e elegantes (sou particularmente atraído por cílios bem feitos), mas pretendo evitar que as mulheres usem seu olhar assim, a esmo, para não vulgarizá-lo.

***

Não quero que pensem que escrevi essa coluna falando mal da Sarah Bergamasco somente para aparecer. É claro que foi somente para aparecer, mas eu não quero que pensem isso, quero que pensem que foi por algum motivo nobre. Pensem que foi pela valorização do sexo feminino, pela paz mundial ou algo igualmente vergonhoso. Só espero que vocês não fiquem falando coisas desagradáveis a meu respeito por aí, como que eu não tenho respeito por ninguém, ou que só escrevo esses absurdos para chamar atenção, porque ninguém gosta de ficar ouvindo obviedades.