A diferença entre um repórter estrangeiro entrevistando a Madonna e um repórter brasileiro entrevistando a Madonna é que, enquanto o estrangeiro pergunta qual o último trabalho da Madonna, o brasileiro pergunta se ela conhece alguma coisa de música brasileira. Esse é o ponto principal da técnica de fazer entrevistas com estrangeiros, que, estou certo, não aprenderei no curso de jornalismo: deixar transparecer a imagem de que os brasileiros são megalomaníacos. E, ao final da entrevista - depois de ter perguntado se a Madonna já provou caipirinha e se já comeu feijoada -, o repórter brasileiro tem que pedir para ela "mandar um alô para os fãs brasileiros".
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A série "Percepções", ou algo assim, do Fantástico, leva uns deficientes para diferentes lugares da América do Sul para que eles experimentem diferentes sensações. Nada de especial, claro, porque eu sei que os humanos são todos como o Demolidor, que têm suas percepções aguçadas tanto maior forem suas privações. Viajam juntos um surdo, um cego e um paralítico, pelo que me lembro. O verdadeiro problema é o paralítico. Estavam outro dia as pessoas numa trilha no Deserto do Atacama, empurrando a cadeira do aleijado com uma grande dificuldade, passando por cima de pedras, porque a trilha não era espaçosa o suficiente. Então ele começou a reclamar de quem fez a trilha, dizendo que "poderiam pensar mais nos deficientes na hora de fazer essas trilhas". Qual! Tenho certeza de que quem abriu a trilha no deserto pensou que muitos paralíticos fariam travessias pelo deserto de sal!
Noutro dia, ele foi ao Equador, ver o marco da linha do Equador, e teve que subir escadas para ver o monumento. Novamente reclamou da falta de acesso aos deficientes físicos. De fato, creio que o tal deficiente pensa que monumentos e desertos são repartições públicas, que devem ter acesso para todos. Mas o melhor ainda estava por vir, quando ele visitou a cidade inca de Machu Picchu no Peru. Estava ficando decepcionado com a falta de protestos por parte do aleijado. Quando minha paciência se esgotava, ao final da matéria, o paralítico brindou os espectadores com sua revolta: "Eu sei que é difícil, mas podiam fazer umas rampas..." O que foi realmente decepcionante, porque, veja, eu esperava por algo surpreendente desta vez, como por exemplo "Malditos incas que não respeitam os paraplégicos, eu os amaldiçôo!". Mas assim é a vida, e há sempre um novo domingo pela frente com novas possibilidades.
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Estão acompanhando Lost? Tenho motivos para acreditar que Lost é uma reedição de Caverna do Dragão. Como em Caverna do Dragão, é possível que todos os personagens tenham morrido na queda do avião e que a ilha seja o Inferno. Jack é a reencarnação de Hank, só que sem o arco de força, que era a arma mais legalzona; a namorada de Jack seria, sei lá eu, a Sheila; o negão de Oz seria a Diana, e seu filho, o Bobby. Os ursos polares da ilha fazem o papel de dragão Tiamat. Provavelmente há correspondentes dos outros personagens, mas eu não fui capaz de correlacioná-los ainda. Oh, sim, há outro que me ocorreu. Aquele hobbit de O Senhor dos Anéis (o Merry ou o Pippin ou o Sam, um desses, não sei qual - são todos iguais, por Deus; enfim, vocês sabem qual é, é o que gosta da grávida), em Lost, na minha opinião, faz o papel de Uni, o unicórnio.
22 de fevereiro de 2006
21 de fevereiro de 2006
Diagnóstico
Vou confessar uma coisa aqui hoje, gente; e depois dessa é possível que eu mude o nome deste blog criativamente para "No Divã". Mas tenho que confessar, ou acho que tenho. Portanto, confesso relutantemente que estou desapontado com as visitas e com a falta de comentários deste blog. Pronto, falei. Sinto falta daqueles áureos tempos em que eu tinha, digamos, 13 comentários; são comentários que fazem falta, ferem meu peito como uma flecha de prata. Mas espere, vou me acalmar. Pronto. Então, como essas visitas e comentários me fazem falta, senti uma necessidade doentia de diagnosticar o motivo de suas ausências. Creio que seja em parte por ocasião do meu retorno recente; outra causa pode ser também o fato de eu só ter leitores endinheirados que viajaram para São Paulo para assistir ao show da banda irlandesa Detonautas. Algum de vocês foi nesse showzão?
17 de fevereiro de 2006
Sugestões
Os piores espíritos do mundo estão sempre a comentar sobre os mesmos livros. O que, claro, seria um vício natural, porque, afinal, estamos falando dos piores espíritos do mundo; mas o que me incomoda especialmente é o fato de quererem sempre que eu leia os tais livros, e que aprenda, que veja uma nova realidade dantes obscura aos meus olhos. Por exemplo, insistem para que eu leia "O Nome da Rosa". Não é uma insistência sincera, mas sim velada; todos os meus professores da faculdade, a certo momento, já comentaram sobre "O Nome da Rosa". Percebo em seus olhos a paixão que empregam na tarefa de me fazer ler esse livro. Mas professores são assim mesmo, e eu não os ouço, eles não sabem o que falam, por isso fizeram teses de mestrado. O que de fato é incômodo é a vontade de não-professores de que eu leia esse livro. E complementam, profundamente crentes de que eu correrei ardorosamente para as páginas do livro, dizendo que "esse livro mostra todos os podres da Igreja Católica durante a Idade Média, cara!". Uau, big news, hein, buddy? Perco até o sono só de pensar nos podres da Igreja Católica durante a Idade Média; como se ninguém soubesse que, já naquela época, a Igreja Católica promovia raves regadas a ecstasy e sexo bizarro. Duh!
Não quero, contudo, que pensem que tenho má vontade de ler livros que me são incansavelmente indicados. Hoje, por exemplo, depois de muita insistência de muitas pessoas, comecei a ler "Feliz Ano Velho". Estou certo de que o amável leitor conhece "Feliz Ano Velho". É aquela história do cara que ficou paralítico aos 20 anos - o tal Marcelo Rubens Paiva. O prefácio, escrito por um sujeito chamado Luis Travassos, já me fez arrepender-me de não ter lido o livro antes:
Não quero, contudo, que pensem que tenho má vontade de ler livros que me são incansavelmente indicados. Hoje, por exemplo, depois de muita insistência de muitas pessoas, comecei a ler "Feliz Ano Velho". Estou certo de que o amável leitor conhece "Feliz Ano Velho". É aquela história do cara que ficou paralítico aos 20 anos - o tal Marcelo Rubens Paiva. O prefácio, escrito por um sujeito chamado Luis Travassos, já me fez arrepender-me de não ter lido o livro antes:
"Marcelo, cara, peguei teu texto para ler em um dia de tremendo baixo astral. Como sempre acontece comigo (desde que te conheço), recebi uma porrada de energia na boca do estômago e o moral subiu dos intestinos para a cabeça."E prossegue, apaixonantemente:
"O teu livro está um barato, especialmente porque dá pra sentir um gozo aberto tipo poker descoberto. No fundo eu acho que a transa da literatura está ligada à transa da verdade (assim como a revolução, o amor e um montão de coisas). E é aí que está todo o pique do que você escreveu. A tua história está transada de um jeito putamente terno, bem-humorado, erótico e sedutor, o que, aliás, é a sua maneira de ser. (...)Segundo Marcelo Rubens Paiva, Luis Travassos foi presidente da UNE em 68 e tinha 36 anos quando escreveu esse prefácio, em 1981. Em virtude de seu vocabulário, Travassos foi perseguido pela ditadura e teve de se exilar em vários países. No entanto, creio que sua morte em 1982, aos 37 anos, tenha sido devida a um soco no estômago que, além do moral, levou outras estranhas substâncias à sua cabeça. O que mostra que tenho que ser mais aberto a sugestões literárias.
"Tem uma firmeza no teu texto que espero que você mantenha: é um texto limpo de teorias e com um puta sentimento que expressa e defende suas idéias. Por exemplo, é deliciosa a maneira como na história há elementos críticos sobre as pessoas, comportamentos etc. sem nenhuma cagação de regras ou ironias baratas, mas com uma puta firmeza."
11 de fevereiro de 2006
Entrevista
Em virtude de meu sumiço, há alguns dias fui solicitado pela produção da MTV a dar uma entrevista exclusivíssima, que agora publico aqui, dando minha versão da história de que eu havia morrido, contando as novidades, dando algumas dicas para a galera. Aceitei o convite e mandaram Léo Madeira para me entrevistar; depois, me passaram a gravação, que publico agora, integralmente, neste blog.
Léo Madeira: Estamos aqui com os caras do Jack Frost, que sumiram faz alguns meses e agora voltam com um novo trabalho. Frost, como vai você?
Frost: "Senhor", por favor.
Léo Madeira: Pensei que o senhor preferisse manter um ambiente informal durante as entrevistas.
Frost: De fato, mas isso não é questão de formalidade, é uma espécie de mantra para mim. Quanto mais vezes for repetido "senhor", uma aura mais positiva se criará ao meu redor, entende? Não é nada pessoal, meu jovem.
Léo Madeira: Ah, sei... Super legal. Mas o senhor acredita nessas coisas?
Frost: Piamente. Acredito em energia positiva, em aura azul e vermelha, naquele negócio de numerologia, em búzios - acredito muito mesmo em Búzios, porque já passei férias lá, é uma cidade muito bonita. Gostaria que minha mãe tivesse me batizado como "Jhack Frost", compreende?, com um bonito H na metade do meu nome, mas ela não fez isso, por causa daquele preconceito pequeno-burguês que pensa que rejeita esses nomes que melhor se alinham com o universo como "coisas de pobre". Acho um tipo de discriminação muito negativo mesmo, o senhor entende?
Léo Madeira: Senhor? O Senhor está no céu! (risos)
Frost: (risos)
Léo Madeira: (cambalhotas)
Frost: (risos)
Léo Madeira: O senhor ficou sabendo dos boatos sobre sua morte?
Frost: Sim. Mas eu não daria esse tipo de prazer a meus inimigos! (risos)
Léo Madeira: (risos)
Frost: Comigo é assim: é preto no branco.
Léo Madeira: Então por que o senhor desapareceu durante tanto tempo?
Frost: Ah, foi um lamentável episódio ocorrido com meu computador, por conta da falta de conteúdo do meu provedor. Comecei a gritar pelos corredores de meu prédio "Eu não estou aqui para sofrer!" e arremessei meu monitor pelas escadas. Logo depois eu assinei o UOL. Não calculei, porém, que seria necessário um monitor para que eu pudesse desfrutar das vantagens do UOL, o maior conteúdo da América Latina.
Léo Madeira: Compreendo. A propósito, não pude deixar de notar que o senhor está com o Caco dos Muppets na sua mão. Foi feito com uma meia?
Frost: Sim; os olhos são botões brancos com pontinhos pretos coloridos com hidrocor.
Léo Madeira: Super legal.
Frost: Claro que é. Se quiser, posso te dar a Piggie para você não ficar muito excluído; porque, você sabe, eu estou aqui me divertindo com o Caco e você está aí, fazendo essas perguntas. Sou muito comiserioso, note. Se você não aceitar esta oferta serei obrigado a lhe virar as costas. Não posso ver sofrimento sem virar as costas.
Léo Madeira: Super legal mesmo. O senhor pode pegar a Piggie para mim?
Frost: Pois não, aqui está.
Léo Madeira: E o que o senhor fez durante a ausência?
Frost: Ah, muitas coisas, sou uma pessoa muito atarefada. Vi filmes, li livros. Ler é muito bom, e a gente tem que dar o bom exemplo, não é? Pois então. Tentei até ler o Código da Vinci, eu juro, me declaro culpado! Mas é para pessoas como eu que lançaram a versão do Código da Vinci com figuras, da qual pretendo ver as ilustrações em breve.
Léo Madeira: E o coração, hein? (risos)
Frost: (risos) Tá aqui, tá batendo! Vou trazer o meu exame cardíaco na próxima vez!
Léo Madeira: O senhor sabe o que eu quis dizer...
Frost: Mas você há de entender, Léo, que não existe apenas preto e branco, existem também as tonalidades de cinza.
Léo Madeira: Super legal. O senhor quer deixar uma mensagem para os jovens?
Frost: Por que não? Eu gostaria de dizer a eles para usarem camisinha, para se cuidarem, se prevenirem, sem caô, o negócio é prevenção. Eu, por exemplo, me cuidando, me prevenindo, só tive meu filho com vinte e dois anos, quando eu quis, e não por acidente. Temos que dar informação para o jovem.
Léo Madeira: Obrigado pela entrevista, senhor Jack Frost.
Frost: Devolva a Piggie, estou com medo que você saia correndo com ela.
Léo Madeira: Estamos aqui com os caras do Jack Frost, que sumiram faz alguns meses e agora voltam com um novo trabalho. Frost, como vai você?
Frost: "Senhor", por favor.
Léo Madeira: Pensei que o senhor preferisse manter um ambiente informal durante as entrevistas.
Frost: De fato, mas isso não é questão de formalidade, é uma espécie de mantra para mim. Quanto mais vezes for repetido "senhor", uma aura mais positiva se criará ao meu redor, entende? Não é nada pessoal, meu jovem.
Léo Madeira: Ah, sei... Super legal. Mas o senhor acredita nessas coisas?
Frost: Piamente. Acredito em energia positiva, em aura azul e vermelha, naquele negócio de numerologia, em búzios - acredito muito mesmo em Búzios, porque já passei férias lá, é uma cidade muito bonita. Gostaria que minha mãe tivesse me batizado como "Jhack Frost", compreende?, com um bonito H na metade do meu nome, mas ela não fez isso, por causa daquele preconceito pequeno-burguês que pensa que rejeita esses nomes que melhor se alinham com o universo como "coisas de pobre". Acho um tipo de discriminação muito negativo mesmo, o senhor entende?
Léo Madeira: Senhor? O Senhor está no céu! (risos)
Frost: (risos)
Léo Madeira: (cambalhotas)
Frost: (risos)
Léo Madeira: O senhor ficou sabendo dos boatos sobre sua morte?
Frost: Sim. Mas eu não daria esse tipo de prazer a meus inimigos! (risos)
Léo Madeira: (risos)
Frost: Comigo é assim: é preto no branco.
Léo Madeira: Então por que o senhor desapareceu durante tanto tempo?
Frost: Ah, foi um lamentável episódio ocorrido com meu computador, por conta da falta de conteúdo do meu provedor. Comecei a gritar pelos corredores de meu prédio "Eu não estou aqui para sofrer!" e arremessei meu monitor pelas escadas. Logo depois eu assinei o UOL. Não calculei, porém, que seria necessário um monitor para que eu pudesse desfrutar das vantagens do UOL, o maior conteúdo da América Latina.
Léo Madeira: Compreendo. A propósito, não pude deixar de notar que o senhor está com o Caco dos Muppets na sua mão. Foi feito com uma meia?
Frost: Sim; os olhos são botões brancos com pontinhos pretos coloridos com hidrocor.
Léo Madeira: Super legal.
Frost: Claro que é. Se quiser, posso te dar a Piggie para você não ficar muito excluído; porque, você sabe, eu estou aqui me divertindo com o Caco e você está aí, fazendo essas perguntas. Sou muito comiserioso, note. Se você não aceitar esta oferta serei obrigado a lhe virar as costas. Não posso ver sofrimento sem virar as costas.
Léo Madeira: Super legal mesmo. O senhor pode pegar a Piggie para mim?
Frost: Pois não, aqui está.
Léo Madeira: E o que o senhor fez durante a ausência?
Frost: Ah, muitas coisas, sou uma pessoa muito atarefada. Vi filmes, li livros. Ler é muito bom, e a gente tem que dar o bom exemplo, não é? Pois então. Tentei até ler o Código da Vinci, eu juro, me declaro culpado! Mas é para pessoas como eu que lançaram a versão do Código da Vinci com figuras, da qual pretendo ver as ilustrações em breve.
Léo Madeira: E o coração, hein? (risos)
Frost: (risos) Tá aqui, tá batendo! Vou trazer o meu exame cardíaco na próxima vez!
Léo Madeira: O senhor sabe o que eu quis dizer...
Frost: Mas você há de entender, Léo, que não existe apenas preto e branco, existem também as tonalidades de cinza.
Léo Madeira: Super legal. O senhor quer deixar uma mensagem para os jovens?
Frost: Por que não? Eu gostaria de dizer a eles para usarem camisinha, para se cuidarem, se prevenirem, sem caô, o negócio é prevenção. Eu, por exemplo, me cuidando, me prevenindo, só tive meu filho com vinte e dois anos, quando eu quis, e não por acidente. Temos que dar informação para o jovem.
Léo Madeira: Obrigado pela entrevista, senhor Jack Frost.
Frost: Devolva a Piggie, estou com medo que você saia correndo com ela.
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