24 de setembro de 2007

Sobre o amor e seus caprichos

(Eu estava com a idéia deste conto há um tempo já e pretendia postá-lo inteiro. Mas se eu fosse esperar completar o texto para depois postá-lo, eu só ia terminar em 2019. Assim, decidi postar o que já tenho pronto e ir postando à medida que eu for escrevendo. Dessa forma eu fico com aquela sensação de que realmente estou progredindo, mais próximo do fim, coisa e tal. Então lá vão as duas primeiras partes.)

***

I

A experiência nos ensina que só há uma forma cem por cento segura de se apaixonar. Ela consiste no seguinte: uma pessoa deve esbarrar na outra, de forma que esta derrube acidentalmente no chão os livros, as revistas, os cadernos, ou coisa que o valha, que carregava. As duas, então, agacham-se para recolher o material derrubado, balbuciando desculpas, até que os olhares de ambas se cruzam. A paixão é imediata. Elas levantam e sabem que se amam mutuamente. Não se conhece um caso na história em que o esbarrão e subseqüente recolhimento de material do chão não tenha resultado numa fulminante paixão e, em certos casos, por que não, num amor duradouro.

II

Apesar de, atualmente, imaginarmos que esse tipo de paixão só ocorre em séries de TV como Dawson's Creek e Veronica Mars, a detetive adolescente, há registros de esbarrões e recolhimentos de materiais em todas as épocas da história humana. Manuscritos apócrifos contam que Moisés só se casou com Ziporá quando os dois se chocaram e fizeram com que o profeta largasse as duas tábuas dos Dez Mandamentos. Quando foram recolhê-las no chão, seus olhares se cruzaram e nada mais foi como antes.

Uma passagem omitida por copistas tardios do Livro das Mil e Uma Noites, por preocupação com a coerência, dá conta que o rei Sharyah na verdade não mata Sharazad por conta da paixão fulminante que tem por ela, que lhe acometeu após eles se esbarrarem e se agacharrem para pegar alguns palimpsestos do chão.

(Continua — como o episódio de House da semana passada na Record, que adiou a conclusão para esta semana e me deixou com muita raiva.)

18 de setembro de 2007

Eu as vi naquela situação e fiquei tocado

Acabo de voltar do Rio. Lá eu vi pessoas em estado terminal de sotaque do Rio. Uma coisa triste de se ver, é dali pra pior. A pessoa pode estar saudável num momento, mas em outro começa a falar com o sotaque do Rio e vai definhando, não dá pra parar o processo.

21 de agosto de 2007

Uma nota sobre a fragrância suave Brut

Ironicamente, no meu desodorante, o Brut, tem escrito na parte de trás que ele é uma "fragrância suave para homens modernos e seguros". Sério, Brut é para homens modernos. Fico meio triste pelos homens antiquados e inseguros quando vejo esses slogans de desodorante, penso no triste destino deles, que são obrigados a ficar para sempre com CC (haha, acho engraçado escrever isso).

(E não admira que sejam inseguros. Ficam lá, fedendo o tempo todo — embora este seja um raciocínio um tanto circular.)

12 de agosto de 2007

Olá, visitantes advindos do mapa da blogosfera brasileira

Só hoje fui ver que André Dahmer fez um mapa do mundo dos blogs brasileiro, e lá estou eu, perto do Soares Silva, do Leite de Pato, do Liberal, Libertário, Libertino e do Cláudio Humberto. Estou feliz com o meu continente, apesar de que deles eu só leio o Soares Silva mesmo. Mas respeitarei a opinião dos outros se eles não gostarem da minha companhia.

Então, se alguém tiver alguma objeção a fazer fronteira comigo, eu faço questão de espalhar no Manipulação umas quinhentas e seis propagandas (mais aquele script que coloca um link em todas as palavras dos textos para uma busca no Mercado Livre) e fazer o meu país migrar para o continente do Interney. Como naquele livro do Saramago.

24 de julho de 2007

Carta aberta a todos os segundos e terceiros colocados de todas as modalidades nos Jogos Pan-americanos

Caros,

Venho por meio deste dar meus sinceros parabéns àqueles brasileiros que ganharam medalhas de prata ou bronze nestes Jogos Pan-americanos, em todas as modalidades. Vocês são um orgulho para o país ao prestarem um serviço tão nobre como o de critério de desempate no quadro de medalhas. Vejam que, caso o Brasil venha a empatar com Cuba nas medalhas de ouro, aqueles que ganharam medalhas de prata vão prestar um enorme serviço à pátria, desempatando a competição, colocando o país no segundo lugar geral das Américas.

A importância de suas medalhas é análoga à do número de vitórias ou ao saldo de gols de um time do Brasileirão; isto é, no caso das medalhas de prata. No caso das de bronze, elas não são mais que o número de empates ou, talvez, os gols pró. Não quero que pensem que estou desmerecendo suas conquistas ao dizer isso — longe de mim. Elas são grandes façanhas, uma medalha de prata a mais e o Fluminense passaria do Goiás na tabela do campeonato, um bronze e o Figueirense superaria o Internacional. Suas conquistas são importantes, é necessário haver segundos colocados, sustentáculos, apêndices, vice-escolhidos, critérios de desempate, para que se destaquem aqueles que realmente merecem.

Para demonstrar meu apreço por seus serviços, pretendo inclusive confeccionar-lhes, não gratuitamente, mas a um módico custo, não maior que o incorrido para que chegassem onde chegaram — a saber, no máximo no segundo lugar —, algumas camisetas com mensagens edificantes, como por exemplo "Sou critério de desempate, mas sou feliz", "Fiquei em segundo/terceiro, mas vou virar comentarista da Globo no próximo Pan" e "Prata não conta, mas é mais bonita". Espero que gostem.

Sem mais.

Yours sincerely,

21 de julho de 2007

Roliudi IV

Depois de mais de duas semanas, voltei ao Roliudi, numa resenha um tanto afetada aqui e numa notícia atrasada aqui.

15 de julho de 2007

Coisas que não têm graça, mas que continuam a ser tratadas como se tivessem #2

Chamar o Lula de apedeuta, de Lulla, de Mula, ou mesmo do combo Mulla, com ou sem os ll em verde e amarelo, para espertamente aludir a Collor: Lulla — de fato, qualquer apelido inventado para o Lula é estúpido (não que eu goste do Lula; poucos o devem odiar mais do que eu, mas eu tenho consciência de que ele se fortalece sempre que um seu adversário o apelida de alguma coisa).

Marketing inteligente

Esta dúvida está me consumindo, tirando meu sono, formando mechas e mais mechas de cabelos acima das minhas orelhas, me criando rugas na testa, pés-de-galinha ao lado dos olhos e bolsas de cansaço ao redor deles: na propaganda da Brahma, que diabos aquele Z tem a ver com a cerveja?

4 de julho de 2007

Conto dos absurdos

Acordara naquela manhã e, percebendo o misterioso uso do pretérito mais-que-perfeito para descrever o que ocorria, teve suas suspeitas despertadas. Fora escovar os dentes, mas, antes de entrar no banheiro, ouvira um trecho da conversa de sua mulher com uma amiga qualquer, na qual ela, sua mulher, não a amiga qualquer, o mencionava. Transcrevo literalmente a curta frase da mulher: "Sim, lá foi o meu esposo." Chocado com o vocabulário usado por sua amada, que outrora não ousaria terminar um adjetivo substantivado (como, por exemplo, esquisitice, burrice, etc) com ss, tivera suas suspeitas ainda mais aguçadas. Fora para o trabalho; houvera se esquecido de que naquele dia era seu aniversário. Ao chegar lá, o que viu não foi senão um enorme bolo, de onde saiu um travesti, que o puxou para dançar - o que divertiu à beça seus colegas de serviço, que riam como bebês tendo as barrigas acariciadas. Não pudera acreditar que existiam de fato pessoas que achavam travestis engraçados, e, durante a dança, seus membros eram levados sem resistência para onde quer que os movessem. O que sentia era um torpor, uma estupefação, diante da absurdidade dos eventos. Não havia dúvidas, as evidências eram conclusivas, e ele não podia fazer nada além de aceitar a conclusão inescapável. Estava num conto.

30 de junho de 2007

23 de junho de 2007

Roliudi III

Estou lá hoje, exorcizando meus demônios.

22 de junho de 2007

Quando este era um post sério...

No Ensino Médio, tive um professor que gostava de dizer que certas pessoas haviam deixado de ser sérias. Especificamente, Fernando Henrique e Lula haviam deixado de ser sérios quando foram eleitos para presidente. "Fernando Henrique, durante a ditadura, durante os anos oitenta, era um homem sério. Depois foi eleito para presidente e..." Ás vezes era algo mais sutil: "Lula, durante as greves no ABC, isto é, quando ele ainda era um homem sério...".

Nunca entendi muito bem o que ele queria dizer; eu sempre acabava pensando que Lula e FHC haviam se tornado pessoas mais afáveis, mais brincalhonas, mais calorosas, menos sisudas - quer dizer, tinha havido uma mudança positiva, na qual Lula e FHC, percebendo que não podiam ficar para sempre com aquela cara fechada, descobrindo que haviam prazeres na vida, empreenderam um certo esforço para se tornarem pessoas mais agradáveis. Enfim, viraram pessoas engraçadas. (Mas eu devo dizer que nunca vi a menor graça em qualquer político, é necessário ter um senso de humor muito distorcido para rir desse tipo de coisa.)

15 de junho de 2007

I am all, but what am I?

Se tudo é arte, tudo na vida é contemplação?

Não é questão de achar que é intolerância dizer que quem fala que "tudo é arte" tem um padrão baixo do que é belo - é uma necessidade lógica. Se você pensa que tudo é arte, em termos práticos é impossível que você aprecie a beleza de tudo. Essa impossibilidade de apreciação de todas as coisas o cega para outros tipos de beleza, sua atenção é dispersa e, no fim, sua cabeça explode.

11 de junho de 2007

The Great Sunday TV Schedule Scam

Quando me dizem que a programação televisiva de domingo é ruim, encaro com incredulidade. Parece-me o mesmo que dizer que este é o pior planeta habitável que existe no universo: qual o parâmetro? Alguém vai dizer que você pode comparar a programação dos domingos com a dos outros dias da semana, mas acredito que essa comparação seja inválida; a programação de domingo aparentemente tem que ser aquela, já está lá há tanto tempo, reclamar disso é como reclamar do passar das estações ou da duração dos dias.

Mas mesmo aceitando que possamos comparar, o "argumento" (repare nas scary quotes desmoralizando sem misericórdia o argumento adversário) é falso. As pessoas pensam que a programação durante a semana é boa, mas essa é só uma ilusão que alimentaram por muito tempo, uma daquelas idéias ridículas que as pessoas mantêm de estimação, porque ninguém realmente vê TV durante a semana. Você pode ver Jornal Nacional, mas o Jornal Nacional não é algo que você realmente assiste, é algo que está lá passando enquanto você está sentado no sofá, não havendo qualquer esforço consciente para manter a atenção - prova cabal do que acabei de dizer é aquela estatística segundo a qual não sei quantos por cento das pessoas dão boa noite para o William e para a Fátima.

Mas além do Jornal Nacional e da novela, que eu admito que alguém pode realmente assistir, isso é tudo o que o brasileiro vê na televisão. No resto do dia, está fora de casa, trabalhando, estudando ou dormindo. Se as pessoas realmente soubessem o que passa na televisão enquanto estão fora de casa, parariam de reclamar da programação de domingo. Você sabe o que passa de tarde na Globo, amigo leitor? Da Cor do Pecado. Sério! Depois passa um filme, digamos, Bud, o cão amigo, e Malhação. Pela manhã, passam desenhos horríveis, como "Avatar". Pois é, eu sabia que você preferiria não ter tomado dessas coisas, mas agora é tarde.

E vocês reclamando do Sérgio Loroza na Dança dos Famosos, hein?

10 de junho de 2007

Roliudi II

Também estou aqui e aqui.