10 de abril de 2006

América, o filho do Brasil

INTRODUÇÃO

Em todas as vezes que sou abordado na rua, sou indagado com muita aflição, mas, Frost, por que é que torcer para o América (do Rio, claro, que é o único que existe) é tão inofensivo? Todo brasileiro reconhece intuitivamente que o América não é um time de verdade, mas não é capaz de identificar corretamente as causas dessa sensação, e por isso permanecendo em constante estado de perturbação mental. Pretendo aqui esclarerecer todas as dúvidas acerca do assunto para, de tal forma, melhorar a qualidade de vida de boa parte da população brasileira.

AMÉRICA/RJ COMO FENÔMENO SÓCIO-PSICOLÓGICO

Todos os dias, milhares de pessoas se deparam com o mesmo problema: como explicar o fato de que torcer para o América não faz diferença nenhuma na vida de um ser humano racional? Pode-se notar que torcer para o Vasco, como eu corretamente torço, é algo que altera a vida do indivíduo. Contudo, intuitivamente percebe-se também que torcer para o Vasco e para o América ao mesmo tempo, embora sejam times da mesma cidade, não é contraditório como torcer para o Vasco e para o Flamengo simultaneamente.

POSIÇÃO DO AMÉRICA NA HIERARQUIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA

Para a consciência humana em estado normal (i.e., sem interferência de agentes exógenos como drogas, bebidas alcoólicas etc), não há contradição entre torcer entre o Vasco e o América porque este não é exatamente um time de futebol, mas antes, digamos, uma equipe de críquete, que, acidentalmente, joga futebol, talvez até usando os tacos de críquete, mas ninguém parou para prestar muita atenção. Trata-se tão somente de ramos diferentes de torcida para diferentes esportes; seria absurdo, por exemplo, tentar torcer para o Vasco num torneio de sinuca, thou shall agree.

A EMPATIA DESPERTADA PELO AMÉRICA

Neste ano, o América chegou perto das finais da Taça Rio, e rapidamente milhões de pessoas como eu e você, pessoas normais, que naturalmente torcem para um time - talvez até dois, mas em cidades diferentes -, passaram a torcer para o América. A razão disso é que o América é a criança dos times de futebol, e todo mundo gosta de criança. O feito do América, conseguir jogar futebol, a ponto de quase chegar numa final, se pode ser relacionado facilmente ao feito de uma criança de quatro anos que, esforçadamente, consegue colorir os desenhos de seu caderninho por dentro das bordas. Pessoas de coração bom apoiariam sem pensar aquela criança, mas se ela por um infortúnio viesse a borrar o desenho, ou a riscar fora das linhas, ninguém ficaria muito triste, chocado ou decepcionado. Se, por um acaso da Vida, o América começa a jogar futebol, o apoiaremos - e esqueceremos caso ele volte a não jogar.

POR QUE O HINO DO AMÉRICA É O MAIS BONITO DENTRE OS DOS TIMES CARIOCAS

Lamartine Babo é lembrado por ter escrito o hino de todos os times do Rio, dos quais o mais belo seria o do América. Como já foi demonstrado, o América não pode ser considerado um time de futebol, mas antes uma equipe de críquete, de polo a cavalo ou de marcha atlética. Por isso, quando o América joga futebol, desperta uma empatia semelhante a que sentimos por crianças, pelos nossos filhos, por causa de seu esforço num labor desconhecido. Obviamente, uma homenagem a um filho (América) é feita com muito mais sentimento do que uma homenagem a um amigo (Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo), donde se explica convincentemente o fato de o América ter o mais bonito dos hinos cariocas.

CONCLUSÃO

Não surpreendentemente, todos se esqueceram do América após ele ter sido eliminado nas semi-finais da Taça Rio. Quando nosso time oficial é eliminado de uma competição importante, lamentamos o fato, e caso isso aconteça com um time rival, lembraremos do ocorrido para importunar os torcedores adversários. Isso não ocorre com o América. Ninguém pensa em importunar um torcedor americano frustrado. A eliminação do América teve impacto psicológico nas pessoas (lembrando que é impossível torcer legitimamente para o América, ele deve ser sempre o segundo time) igual ao da eliminação de um filho de sete anos de um campeonato de karatê. Torcemos para nossos filhos em campeonatos de karatê, ficamos felizes se eles ganharem, tristes se perderem, mas não nos importamos muito. A única coisa que somos capazes de dizer é um "Parabéns, quer almoçar?", ou um "O importante é competir", ou "No ano que vem você consegue, filhão", até que esquecemos do assunto uma hora depois.

7 de abril de 2006

O Pequeno Timmy

É de conhecimento geral que há várias coisas erradas com as corridas de Formula 1, tais como Felipe Massa, mas a pior dessas é o fato de não se poder completar as corridas a pé, como em Road Rash, do Playstation, onde, se nossas motos quebrassem, poderíamos completar o percurso correndo, com o cuidado de não encontrarmos policiais no caminho que nos prendessem sem motivo - talvez por estar correndo, vai saber, esses jogos eletrônicos têm as leis mais estranhas em seus mundos virtuais. Jenson Button, no último Grande Prêmio, parou a poucos metros da linha de chegada e não pôde sair do carro e terminar a corrida a pé, o que considero um completo absurdo, porque, ora, quem precisa completar a corrida é o piloto, não o carro, caso contrário teríamos os números dos carros na tabela de classificação e não os nomes dos pilotos. Atribuo essa proibição ridícula à uma proteção à auto-estima dos pilotos de equipes obscuras com pilotos patéticos, como a Honda, que se sentiriam diminuídos sabendo que chegaram atrás de um cara que completou a prova correndo, que provavelmente ficaria dançando e cantando que chegou primeiro, tal como eu faço para ridicularizar os pernambucanos, as testemunhas-de-Jeová, os anões e outras minorias, com um senso de humor passando do ridículo engraçado para o ridículo dispensável, cuspindo na hospitalidade do estado que me acolheu.

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Por que, mas por que você não posta com mais freqüência?, é a pergunta do Gentil Leitor Hipotético que vive na minha mente, que por sinal sabiamente não escuta Cansei de Ser Sexy. Gentil Leitor Hipotético, não tenho postado tanto por causa das minhas reuniões com os acionistas. Essas reuniões com os acionistas não têm apenas prejudicado meu desempenho no meu blog, mas também junto a minha família.

Noutro dia, cheguei em casa, cansado após um dia de trabalho árduo na empresa, e minha esposa me perguntou o que eu fazia até tão tarde na rua, ao que respondi, desanimado, "reuniões com acionistas, meu bem, reuniões com os acionistas". Ela perguntou-me então se eu ainda me lembrava de que tinha uma esposa e um filho, e lhe respondi que sim, mas que tudo o que fazia era para o melhor das pessoas que amo, que se no momento eu estava muito ausente era para no futuro dar-lhes o melhor de mim. Minha esposa perguntou-me então se eu ainda lembrava que o aniversário do Pequeno Timmy seria em uma semana, e que, afinal, eu havia prometido que iria ao jogo de baseball dele. Disse que sim, e que essa era minha prioridade. Mas nos dias que antecediam o aniversário de meu petiz, não poderia deixar de trabalhar, naturalmente.

Passou-se a semana e eu cheguei com o presente do aniversário de meu filho nas mãos, exausto, em minha casa escura, às 11h da noite, depois de várias reuniões com os acionistas, sem ter ido ao jogo do Pequeno Timmy. Abri silenciosamente a porta do quarto do Pequeno Timmy e o observei dormir, com lágrimas jazendo nos cantos de seus olhos, abraçado a um porta-retrato onde havia uma foto minha, dele e de minha esposa. Aproximei-me e pus o pacote do presente em sua mesa de cabeceira.

Idêntica situação acontece com meu blog (talvez sem presente e sem esposa, é possível também que não haja jogo de baseball, mas o ponto central permanece).