Chamam-me para vários debates sobre o referendo, para que eu defenda minha posição embasadamente, aquilo tudo. Coisa mais detestável esse negócio de debate sobre o referendo. Odeio debates, cuspo nos debates, piso nos debates, e, se querem saber, sou a favor do desarmamento. Tirem-me minhas armas, vamos! Se não tirarem, vou sair por aí, baleando debates inocentes. Outro dia mesmo, eu, um cidadão de bem, saí na rua e vi um debate brincando no jardim, nem lhes conto a cena trágica que sucedeu. Tinha uma arma a mãos no momento, e, como vocês sabem, uma arma pode transformar um cidadão de bem num criminoso. Pois que é verdade, dito e feito, saquei minha arma e comecei a atirar no debatezinho indefeso e inocente, matando-o.
Eu ia falar outra coisa, esqueci. Ah, sim, lembrei: também odeio gente que diz que as campanhas do referendo são de baixo nível. "Mas essas campanhas são uma baixaria, hein? Muito baixo nível!" Ora e o que não é baixo nível, minha senhora? Tem gente que ainda completa: "Tanto da frente do Sim quanto da do Não!" O que querem essas pessoas, meu Jesus? Querem que apareçam pessoas dizendo "ah, gente, eu acho que o certo é votar no Não, mas votar no Sim também é suuuper!"? Faça-me o favor, você, você mesmo, pessoa que reclama do baixo nível das campanhas do referendo. E vote no Sim, porque senão pegarei meu revólver e farei com você o mesmo que fiz com aqueles debatezinhos lá do começo do texto.
22 de outubro de 2005
11 de outubro de 2005
Ascensão e queda do Cineasta Brasileiro
Teve a idéia de retratar as humildes famílias produtoras de paçoca do sertão do Rio Grande do Norte e começou a produção de seu documentário com verbas do Ministério da Cultura. O Cineasta Brasileiro estava retratando, dizia, um importante aspecto da cultura nacional, e que revelar os hábitos do povo pobre de longe dos grandes centros urbanos do Brasil é a tarefa primordial qualquer pessoa que faça cinema no país. Seu filme, Sertão e Suor, mostrava a tocante rotina dos sertanejos que pisavam nos amendoins para moê-los e, como os amendoins do sertão são mais duros que o normal, acabavam com os pés totalmente calejados ao fim do dia de trabalho.
Sertão e Suor ficou em exibição nos cinemas do país por mais de um mês, e foi um recorde de público, uma verdadeira febre. Quando sua obra entrou em cartaz, o Cineasta Brasileiro deu uma entrevista para a Folha Ilustrada, onde declarou que "o cinema deve servir como instrumento de transformação social". Ganhou um Kikito em Gramado, o prêmio mais ridículo do cinema mundial, e também ganhou vários elogios de atores presentes no evento, que acrescentavam ainda que era natural que o filme fosse bom, pois em Gramado está sempre a fina flor do cinema brasileiro. Pouco depois, o Cineasta Brasileiro foi premiado em Cannes, este o prêmio mais banal do cinema mundial, o que encheu os brasileiros de orgulho, pois o talento da nossa gente estava sendo reconhecido. Europeus em Cannes disseram que o documentário foi "um retrato fiel da realidade brasileira, que servirá para que as pessoas despertem uma consciência crítica em relação às mazelas do Terceiro Mundo".
O documentário, por fim, foi o indicado brasileiro ao Oscar, criando grande expectativa no público. No domingo da premiação, Marília Gabriela e Rubens Ewald Filho asseveraram que, neste ano, o Brasil teria que levar a estatueta, pois era mais que merecido, e o talento do Cineasta Brasileiro já estava mais do que provado. Sertão e Suor perdeu para um filme espanhol e, no dia seguinte, em comentário no Jornal da Globo, Arnaldo Jabor afirmou com sua típica acidez: "Os velhinhos da Academia, recostados em suas confortáveis poltronas, não querem saber dos problemas do Terceiro Mundo. Desprezam essas absurdidades presentes em nossos filmes. O Cineasta Brasileiro, com seu talento inegável, levou às telas dos americanos a realidade que eles - e o Bush - tanto desprezam. Ao invés de serem imparciais e premiarem com sensatez, os velhinhos da Academia preferem se curvar ao lobby da Miramax. A nós, pobres terceiro-mundistas, só resta lamentar."
O Cineasta Brasileiro, então, começou a produzir outro filme, um sobre a venda de cocos em balsas nos rios do interior do Amazonas. Algumas vezes, Sertão e Suor concorre com pornochanchadas da Vera Fischer (tais como Gata em Teto de Zinco Quente e Navalha na Carne) no Intercine e perde, porém o filme ainda pode ser assistido de madrugada duas vezes ao ano no Canal Brasil.
Sertão e Suor ficou em exibição nos cinemas do país por mais de um mês, e foi um recorde de público, uma verdadeira febre. Quando sua obra entrou em cartaz, o Cineasta Brasileiro deu uma entrevista para a Folha Ilustrada, onde declarou que "o cinema deve servir como instrumento de transformação social". Ganhou um Kikito em Gramado, o prêmio mais ridículo do cinema mundial, e também ganhou vários elogios de atores presentes no evento, que acrescentavam ainda que era natural que o filme fosse bom, pois em Gramado está sempre a fina flor do cinema brasileiro. Pouco depois, o Cineasta Brasileiro foi premiado em Cannes, este o prêmio mais banal do cinema mundial, o que encheu os brasileiros de orgulho, pois o talento da nossa gente estava sendo reconhecido. Europeus em Cannes disseram que o documentário foi "um retrato fiel da realidade brasileira, que servirá para que as pessoas despertem uma consciência crítica em relação às mazelas do Terceiro Mundo".
O documentário, por fim, foi o indicado brasileiro ao Oscar, criando grande expectativa no público. No domingo da premiação, Marília Gabriela e Rubens Ewald Filho asseveraram que, neste ano, o Brasil teria que levar a estatueta, pois era mais que merecido, e o talento do Cineasta Brasileiro já estava mais do que provado. Sertão e Suor perdeu para um filme espanhol e, no dia seguinte, em comentário no Jornal da Globo, Arnaldo Jabor afirmou com sua típica acidez: "Os velhinhos da Academia, recostados em suas confortáveis poltronas, não querem saber dos problemas do Terceiro Mundo. Desprezam essas absurdidades presentes em nossos filmes. O Cineasta Brasileiro, com seu talento inegável, levou às telas dos americanos a realidade que eles - e o Bush - tanto desprezam. Ao invés de serem imparciais e premiarem com sensatez, os velhinhos da Academia preferem se curvar ao lobby da Miramax. A nós, pobres terceiro-mundistas, só resta lamentar."
O Cineasta Brasileiro, então, começou a produzir outro filme, um sobre a venda de cocos em balsas nos rios do interior do Amazonas. Algumas vezes, Sertão e Suor concorre com pornochanchadas da Vera Fischer (tais como Gata em Teto de Zinco Quente e Navalha na Carne) no Intercine e perde, porém o filme ainda pode ser assistido de madrugada duas vezes ao ano no Canal Brasil.
6 de outubro de 2005
Contra o dinheiro
Como está passando o Programa do Jô, fui estimulado a prestar atenção em algo que não fosse a TV e, aqui no computador, enquanto ouço o novo CD do Ill Niño (excelente, principalmente a faixa 5, De la Vida, vão baixar lá no Pirate Bay), acabo de descobrir a aterradora realidade: tem gente contra o dinheiro. Como isso é possível, não sei, mas existe sim gente contra o dinheiro, querem até aboli-lo, como se o pobre do dinheiro tivesse feito alguma coisa! Declaro que o dinheiro é inocente!
Tudo bem você não gostar dos desenhinhos do dinheiro (tem um peixe na nota de 100, não estou brincando), mas as pessoas não são contra isso, são contra o que o dinheiro representa. É como se saíssem por aí gritando "eu sou contra um meio de troca indireta, gente!!!", e se descabelando, não querendo utilizar um meio de troca indireta, porque só os meios de troca direta são legais. No fundo é isso que os detratores do dinheiro pregam: a não utilização de um meio de troca indireta e o retorno ao escambo. Nada contra pessoas que querem trocar sacas de arroz por um litro de leite, até admiro alguém que queira fazer isso (imagine-se saindo por aí com 50 quilos de arroz nas costas para trocar por outros bens, que coisa fantástica), mas tem gente que é preguiçosa, que não gosta de fazer exercícios, que só quer ficar em casa ouvindo Ill Niño. Peço condescendência.
Update: O De Repente está de volta!
Tudo bem você não gostar dos desenhinhos do dinheiro (tem um peixe na nota de 100, não estou brincando), mas as pessoas não são contra isso, são contra o que o dinheiro representa. É como se saíssem por aí gritando "eu sou contra um meio de troca indireta, gente!!!", e se descabelando, não querendo utilizar um meio de troca indireta, porque só os meios de troca direta são legais. No fundo é isso que os detratores do dinheiro pregam: a não utilização de um meio de troca indireta e o retorno ao escambo. Nada contra pessoas que querem trocar sacas de arroz por um litro de leite, até admiro alguém que queira fazer isso (imagine-se saindo por aí com 50 quilos de arroz nas costas para trocar por outros bens, que coisa fantástica), mas tem gente que é preguiçosa, que não gosta de fazer exercícios, que só quer ficar em casa ouvindo Ill Niño. Peço condescendência.
Update: O De Repente está de volta!
4 de outubro de 2005
Legítima defesa
Hesitei em escrever esse post porque, ah, está todo mundo postando sobre o tema, não queria parecer vulgar. Mas vamos lá. Há algum tempo, eu estava discutindo no orkut com uma garota sobre o desarmamento, defendendo ardorosamente minha posição a favor das armas, contra a vida e contra a paz. Argumentei dizendo que proibir as armas era um ataque ao direito fundamental da legítima defesa. Ela me respondeu que não, que desarmar não é atacar a legítima defesa, que o desarmamento apenas nos veda um dos meios de exercê-la. Ou seja, se quiser exercer a legítima defesa, pegue um extintor de incêndio e arremesse na cabeça do agressor, porque arma de fogo não vale. Quando ela me disse isso, rapidamente me ocorreu uma situação como a que descrevo a seguir.
Um bandido armado invade a casa de um cidadão à noite e este acorda ouvindo um barulho. O cidadão levanta da cama e pega o revólver para espantar o invasor. Com cuidado, ele chega por trás do bandido e aponta a arma na cabeça dele:
- Parado aí!
- Opa, um minuto aí, legítima defesa, só sem armas!
- Nossa, é verdade, como fui estúpido. - diz o cidadão, enquanto joga seu revólver no chão.
- Foi mesmo. Onde já se viu? Usar armas para exercer a legítima defesa? A que ponto chegamos, meu Deus!
- Olha, espera um minuto aí, não se mexa, não saia do lugar, vou lá na garagem pegar meu facão de churrasco para exercer meu direito, ok?
- Claro, vá em frente. Ainda bem que estou invadindo a casa de uma pessoa racional...
Um bandido armado invade a casa de um cidadão à noite e este acorda ouvindo um barulho. O cidadão levanta da cama e pega o revólver para espantar o invasor. Com cuidado, ele chega por trás do bandido e aponta a arma na cabeça dele:
- Parado aí!
- Opa, um minuto aí, legítima defesa, só sem armas!
- Nossa, é verdade, como fui estúpido. - diz o cidadão, enquanto joga seu revólver no chão.
- Foi mesmo. Onde já se viu? Usar armas para exercer a legítima defesa? A que ponto chegamos, meu Deus!
- Olha, espera um minuto aí, não se mexa, não saia do lugar, vou lá na garagem pegar meu facão de churrasco para exercer meu direito, ok?
- Claro, vá em frente. Ainda bem que estou invadindo a casa de uma pessoa racional...
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