22 de outubro de 2005

Referendo

Chamam-me para vários debates sobre o referendo, para que eu defenda minha posição embasadamente, aquilo tudo. Coisa mais detestável esse negócio de debate sobre o referendo. Odeio debates, cuspo nos debates, piso nos debates, e, se querem saber, sou a favor do desarmamento. Tirem-me minhas armas, vamos! Se não tirarem, vou sair por aí, baleando debates inocentes. Outro dia mesmo, eu, um cidadão de bem, saí na rua e vi um debate brincando no jardim, nem lhes conto a cena trágica que sucedeu. Tinha uma arma a mãos no momento, e, como vocês sabem, uma arma pode transformar um cidadão de bem num criminoso. Pois que é verdade, dito e feito, saquei minha arma e comecei a atirar no debatezinho indefeso e inocente, matando-o.

Eu ia falar outra coisa, esqueci. Ah, sim, lembrei: também odeio gente que diz que as campanhas do referendo são de baixo nível. "Mas essas campanhas são uma baixaria, hein? Muito baixo nível!" Ora e o que não é baixo nível, minha senhora? Tem gente que ainda completa: "Tanto da frente do Sim quanto da do Não!" O que querem essas pessoas, meu Jesus? Querem que apareçam pessoas dizendo "ah, gente, eu acho que o certo é votar no Não, mas votar no Sim também é suuuper!"? Faça-me o favor, você, você mesmo, pessoa que reclama do baixo nível das campanhas do referendo. E vote no Sim, porque senão pegarei meu revólver e farei com você o mesmo que fiz com aqueles debatezinhos lá do começo do texto.

11 de outubro de 2005

Ascensão e queda do Cineasta Brasileiro

Teve a idéia de retratar as humildes famílias produtoras de paçoca do sertão do Rio Grande do Norte e começou a produção de seu documentário com verbas do Ministério da Cultura. O Cineasta Brasileiro estava retratando, dizia, um importante aspecto da cultura nacional, e que revelar os hábitos do povo pobre de longe dos grandes centros urbanos do Brasil é a tarefa primordial qualquer pessoa que faça cinema no país. Seu filme, Sertão e Suor, mostrava a tocante rotina dos sertanejos que pisavam nos amendoins para moê-los e, como os amendoins do sertão são mais duros que o normal, acabavam com os pés totalmente calejados ao fim do dia de trabalho.

Sertão e Suor ficou em exibição nos cinemas do país por mais de um mês, e foi um recorde de público, uma verdadeira febre. Quando sua obra entrou em cartaz, o Cineasta Brasileiro deu uma entrevista para a Folha Ilustrada, onde declarou que "o cinema deve servir como instrumento de transformação social". Ganhou um Kikito em Gramado, o prêmio mais ridículo do cinema mundial, e também ganhou vários elogios de atores presentes no evento, que acrescentavam ainda que era natural que o filme fosse bom, pois em Gramado está sempre a fina flor do cinema brasileiro. Pouco depois, o Cineasta Brasileiro foi premiado em Cannes, este o prêmio mais banal do cinema mundial, o que encheu os brasileiros de orgulho, pois o talento da nossa gente estava sendo reconhecido. Europeus em Cannes disseram que o documentário foi "um retrato fiel da realidade brasileira, que servirá para que as pessoas despertem uma consciência crítica em relação às mazelas do Terceiro Mundo".

O documentário, por fim, foi o indicado brasileiro ao Oscar, criando grande expectativa no público. No domingo da premiação, Marília Gabriela e Rubens Ewald Filho asseveraram que, neste ano, o Brasil teria que levar a estatueta, pois era mais que merecido, e o talento do Cineasta Brasileiro já estava mais do que provado. Sertão e Suor perdeu para um filme espanhol e, no dia seguinte, em comentário no Jornal da Globo, Arnaldo Jabor afirmou com sua típica acidez: "Os velhinhos da Academia, recostados em suas confortáveis poltronas, não querem saber dos problemas do Terceiro Mundo. Desprezam essas absurdidades presentes em nossos filmes. O Cineasta Brasileiro, com seu talento inegável, levou às telas dos americanos a realidade que eles - e o Bush - tanto desprezam. Ao invés de serem imparciais e premiarem com sensatez, os velhinhos da Academia preferem se curvar ao lobby da Miramax. A nós, pobres terceiro-mundistas, só resta lamentar."

O Cineasta Brasileiro, então, começou a produzir outro filme, um sobre a venda de cocos em balsas nos rios do interior do Amazonas. Algumas vezes, Sertão e Suor concorre com pornochanchadas da Vera Fischer (tais como Gata em Teto de Zinco Quente e Navalha na Carne) no Intercine e perde, porém o filme ainda pode ser assistido de madrugada duas vezes ao ano no Canal Brasil.

6 de outubro de 2005

Contra o dinheiro

Como está passando o Programa do Jô, fui estimulado a prestar atenção em algo que não fosse a TV e, aqui no computador, enquanto ouço o novo CD do Ill Niño (excelente, principalmente a faixa 5, De la Vida, vão baixar lá no Pirate Bay), acabo de descobrir a aterradora realidade: tem gente contra o dinheiro. Como isso é possível, não sei, mas existe sim gente contra o dinheiro, querem até aboli-lo, como se o pobre do dinheiro tivesse feito alguma coisa! Declaro que o dinheiro é inocente!

Tudo bem você não gostar dos desenhinhos do dinheiro (tem um peixe na nota de 100, não estou brincando), mas as pessoas não são contra isso, são contra o que o dinheiro representa. É como se saíssem por aí gritando "eu sou contra um meio de troca indireta, gente!!!", e se descabelando, não querendo utilizar um meio de troca indireta, porque só os meios de troca direta são legais. No fundo é isso que os detratores do dinheiro pregam: a não utilização de um meio de troca indireta e o retorno ao escambo. Nada contra pessoas que querem trocar sacas de arroz por um litro de leite, até admiro alguém que queira fazer isso (imagine-se saindo por aí com 50 quilos de arroz nas costas para trocar por outros bens, que coisa fantástica), mas tem gente que é preguiçosa, que não gosta de fazer exercícios, que só quer ficar em casa ouvindo Ill Niño. Peço condescendência.

Update: O De Repente está de volta!

4 de outubro de 2005

Legítima defesa

Hesitei em escrever esse post porque, ah, está todo mundo postando sobre o tema, não queria parecer vulgar. Mas vamos lá. Há algum tempo, eu estava discutindo no orkut com uma garota sobre o desarmamento, defendendo ardorosamente minha posição a favor das armas, contra a vida e contra a paz. Argumentei dizendo que proibir as armas era um ataque ao direito fundamental da legítima defesa. Ela me respondeu que não, que desarmar não é atacar a legítima defesa, que o desarmamento apenas nos veda um dos meios de exercê-la. Ou seja, se quiser exercer a legítima defesa, pegue um extintor de incêndio e arremesse na cabeça do agressor, porque arma de fogo não vale. Quando ela me disse isso, rapidamente me ocorreu uma situação como a que descrevo a seguir.

Um bandido armado invade a casa de um cidadão à noite e este acorda ouvindo um barulho. O cidadão levanta da cama e pega o revólver para espantar o invasor. Com cuidado, ele chega por trás do bandido e aponta a arma na cabeça dele:

- Parado aí!
- Opa, um minuto aí, legítima defesa, só sem armas!
- Nossa, é verdade, como fui estúpido. - diz o cidadão, enquanto joga seu revólver no chão.
- Foi mesmo. Onde já se viu? Usar armas para exercer a legítima defesa? A que ponto chegamos, meu Deus!
- Olha, espera um minuto aí, não se mexa, não saia do lugar, vou lá na garagem pegar meu facão de churrasco para exercer meu direito, ok?
- Claro, vá em frente. Ainda bem que estou invadindo a casa de uma pessoa racional...