4 de julho de 2007
Conto dos absurdos
Acordara naquela manhã e, percebendo o misterioso uso do pretérito mais-que-perfeito para descrever o que ocorria, teve suas suspeitas despertadas. Fora escovar os dentes, mas, antes de entrar no banheiro, ouvira um trecho da conversa de sua mulher com uma amiga qualquer, na qual ela, sua mulher, não a amiga qualquer, o mencionava. Transcrevo literalmente a curta frase da mulher: "Sim, lá foi o meu esposo." Chocado com o vocabulário usado por sua amada, que outrora não ousaria terminar um adjetivo substantivado (como, por exemplo, esquisitice, burrice, etc) com ss, tivera suas suspeitas ainda mais aguçadas. Fora para o trabalho; houvera se esquecido de que naquele dia era seu aniversário. Ao chegar lá, o que viu não foi senão um enorme bolo, de onde saiu um travesti, que o puxou para dançar - o que divertiu à beça seus colegas de serviço, que riam como bebês tendo as barrigas acariciadas. Não pudera acreditar que existiam de fato pessoas que achavam travestis engraçados, e, durante a dança, seus membros eram levados sem resistência para onde quer que os movessem. O que sentia era um torpor, uma estupefação, diante da absurdidade dos eventos. Não havia dúvidas, as evidências eram conclusivas, e ele não podia fazer nada além de aceitar a conclusão inescapável. Estava num conto.
30 de junho de 2007
Coisas que não têm graça, mas que continuam a ser tratadas como se tivessem #1
Falar como o Marco Bianchi.
23 de junho de 2007
22 de junho de 2007
Quando este era um post sério...
No Ensino Médio, tive um professor que gostava de dizer que certas pessoas haviam deixado de ser sérias. Especificamente, Fernando Henrique e Lula haviam deixado de ser sérios quando foram eleitos para presidente. "Fernando Henrique, durante a ditadura, durante os anos oitenta, era um homem sério. Depois foi eleito para presidente e..." Ás vezes era algo mais sutil: "Lula, durante as greves no ABC, isto é, quando ele ainda era um homem sério...".
Nunca entendi muito bem o que ele queria dizer; eu sempre acabava pensando que Lula e FHC haviam se tornado pessoas mais afáveis, mais brincalhonas, mais calorosas, menos sisudas - quer dizer, tinha havido uma mudança positiva, na qual Lula e FHC, percebendo que não podiam ficar para sempre com aquela cara fechada, descobrindo que haviam prazeres na vida, empreenderam um certo esforço para se tornarem pessoas mais agradáveis. Enfim, viraram pessoas engraçadas. (Mas eu devo dizer que nunca vi a menor graça em qualquer político, é necessário ter um senso de humor muito distorcido para rir desse tipo de coisa.)
Nunca entendi muito bem o que ele queria dizer; eu sempre acabava pensando que Lula e FHC haviam se tornado pessoas mais afáveis, mais brincalhonas, mais calorosas, menos sisudas - quer dizer, tinha havido uma mudança positiva, na qual Lula e FHC, percebendo que não podiam ficar para sempre com aquela cara fechada, descobrindo que haviam prazeres na vida, empreenderam um certo esforço para se tornarem pessoas mais agradáveis. Enfim, viraram pessoas engraçadas. (Mas eu devo dizer que nunca vi a menor graça em qualquer político, é necessário ter um senso de humor muito distorcido para rir desse tipo de coisa.)
15 de junho de 2007
I am all, but what am I?
Se tudo é arte, tudo na vida é contemplação?
Não é questão de achar que é intolerância dizer que quem fala que "tudo é arte" tem um padrão baixo do que é belo - é uma necessidade lógica. Se você pensa que tudo é arte, em termos práticos é impossível que você aprecie a beleza de tudo. Essa impossibilidade de apreciação de todas as coisas o cega para outros tipos de beleza, sua atenção é dispersa e, no fim, sua cabeça explode.
Não é questão de achar que é intolerância dizer que quem fala que "tudo é arte" tem um padrão baixo do que é belo - é uma necessidade lógica. Se você pensa que tudo é arte, em termos práticos é impossível que você aprecie a beleza de tudo. Essa impossibilidade de apreciação de todas as coisas o cega para outros tipos de beleza, sua atenção é dispersa e, no fim, sua cabeça explode.
11 de junho de 2007
The Great Sunday TV Schedule Scam
Quando me dizem que a programação televisiva de domingo é ruim, encaro com incredulidade. Parece-me o mesmo que dizer que este é o pior planeta habitável que existe no universo: qual o parâmetro? Alguém vai dizer que você pode comparar a programação dos domingos com a dos outros dias da semana, mas acredito que essa comparação seja inválida; a programação de domingo aparentemente tem que ser aquela, já está lá há tanto tempo, reclamar disso é como reclamar do passar das estações ou da duração dos dias.
Mas mesmo aceitando que possamos comparar, o "argumento" (repare nas scary quotes desmoralizando sem misericórdia o argumento adversário) é falso. As pessoas pensam que a programação durante a semana é boa, mas essa é só uma ilusão que alimentaram por muito tempo, uma daquelas idéias ridículas que as pessoas mantêm de estimação, porque ninguém realmente vê TV durante a semana. Você pode ver Jornal Nacional, mas o Jornal Nacional não é algo que você realmente assiste, é algo que está lá passando enquanto você está sentado no sofá, não havendo qualquer esforço consciente para manter a atenção - prova cabal do que acabei de dizer é aquela estatística segundo a qual não sei quantos por cento das pessoas dão boa noite para o William e para a Fátima.
Mas além do Jornal Nacional e da novela, que eu admito que alguém pode realmente assistir, isso é tudo o que o brasileiro vê na televisão. No resto do dia, está fora de casa, trabalhando, estudando ou dormindo. Se as pessoas realmente soubessem o que passa na televisão enquanto estão fora de casa, parariam de reclamar da programação de domingo. Você sabe o que passa de tarde na Globo, amigo leitor? Da Cor do Pecado. Sério! Depois passa um filme, digamos, Bud, o cão amigo, e Malhação. Pela manhã, passam desenhos horríveis, como "Avatar". Pois é, eu sabia que você preferiria não ter tomado dessas coisas, mas agora é tarde.
E vocês reclamando do Sérgio Loroza na Dança dos Famosos, hein?
Mas mesmo aceitando que possamos comparar, o "argumento" (repare nas scary quotes desmoralizando sem misericórdia o argumento adversário) é falso. As pessoas pensam que a programação durante a semana é boa, mas essa é só uma ilusão que alimentaram por muito tempo, uma daquelas idéias ridículas que as pessoas mantêm de estimação, porque ninguém realmente vê TV durante a semana. Você pode ver Jornal Nacional, mas o Jornal Nacional não é algo que você realmente assiste, é algo que está lá passando enquanto você está sentado no sofá, não havendo qualquer esforço consciente para manter a atenção - prova cabal do que acabei de dizer é aquela estatística segundo a qual não sei quantos por cento das pessoas dão boa noite para o William e para a Fátima.
Mas além do Jornal Nacional e da novela, que eu admito que alguém pode realmente assistir, isso é tudo o que o brasileiro vê na televisão. No resto do dia, está fora de casa, trabalhando, estudando ou dormindo. Se as pessoas realmente soubessem o que passa na televisão enquanto estão fora de casa, parariam de reclamar da programação de domingo. Você sabe o que passa de tarde na Globo, amigo leitor? Da Cor do Pecado. Sério! Depois passa um filme, digamos, Bud, o cão amigo, e Malhação. Pela manhã, passam desenhos horríveis, como "Avatar". Pois é, eu sabia que você preferiria não ter tomado dessas coisas, mas agora é tarde.
E vocês reclamando do Sérgio Loroza na Dança dos Famosos, hein?
10 de junho de 2007
7 de junho de 2007
Piratas do Caribe, um filme médio
Johnny Depp é um gênio? Não. Possivelmente um bom ator, mas não um gênio. Nem Jack Sparrow nem Piratas do Caribe em geral (nenhum dos três filmes, e eu não vi o terceiro) têm nada que os torne geniais. Piratas do Caribe são filmes comuns, talvez agradáveis, mas não eu não sairia de casa para vê-los no cinema, e possivelmente mudaria de canal se estivesse passando na Globo no horário de Pimp My Ride na MTV. O que dizer de Jack Sparrow? Por que o consideram genial? Por que consideram o Johnny Depp um gênio? Seria porque Jack Sparrow é um personagem engraçadinho? E ele não é nem tão engraçado, o deputado João Plenário da Praça É Nossa já me proporcionou melhores risadas. Alguém poderia me dizer quando foi que o padrão para que um filme (e um personagem) seja considerado genial baixou tanto a ponto de considerarem Piratas do Caribe (e Jack Sparrow) genial?
27 de maio de 2007
Roliudi
Há algumas semanas, Paulo Vivan me convidou para fazer parte de seu site sobre cinema, o Roliudi, outrora hospedado no Blogspot, mas que ele queria tornar maior. Apesar de meus alertas, ele foi irredutível e não suspendeu o convite; então eu aceitei. O site já está no ar há algum tempo, graças principalmente aos esforços heróicos do próprio Paulo Vivan, e eu não queria fazer propaganda enquanto não tivesse escrito algo de verdade para lá. Agora que já fiz minha resenha, posso fazer propaganda com a consciência tranqüila. Portanto, vão lá, leiam minha resenha de Ultravioleta e comentem (comentem também nas notícias que eu postei: esta e esta; eu não recebi nenhum comentário em nenhum texto até agora, imaginem minha infelicidade).
(Eu não entendo absolutamente nada sobre cinema, mas, por algum motivo, o Paulo Vivan disse que essa não é uma condição indispensável para se estar num site de filmes.)
(Eu não entendo absolutamente nada sobre cinema, mas, por algum motivo, o Paulo Vivan disse que essa não é uma condição indispensável para se estar num site de filmes.)
16 de maio de 2007
"Esse filme é bom como entretenimento"
E os outros? São bons como trabalho? Até onde eu sei, todos os filmes, com a possível exceção de Uma Verdade Inconveniente (ouvi dizer em algum lugar que existe um gênero de filmes chamado "documentário", mas a comunidade científica ainda não se pronunciou a respeito), devem ser bons como entretenimento. Se não são bons, pelo menos deveriam tentar ser bons como entretenimento.
Mas é compreensível que certas pessoas achem necessário enfatizar que um filme deve ser bom como entretenimento, porque viram tantos filmes franceses que já se esqueceram que esse é o próprio objetivo do cinema. Filmes, para essas pessoas, são constante sofrimento e agonia; quando vêem um que não é, têm que ressaltar o fato.
Pedreiros sem-teto, grupo certamente muito expressivo da população, devem dizer o mesmo quando acontece de dormirem numa casa: "Humm, esta casa é boa como moradia". Eles não sabiam que casas podiam ser boas como moradia, nunca tinham dormido numa; para eles, casas podiam ser boas somente como trabalho.
Mas é compreensível que certas pessoas achem necessário enfatizar que um filme deve ser bom como entretenimento, porque viram tantos filmes franceses que já se esqueceram que esse é o próprio objetivo do cinema. Filmes, para essas pessoas, são constante sofrimento e agonia; quando vêem um que não é, têm que ressaltar o fato.
Pedreiros sem-teto, grupo certamente muito expressivo da população, devem dizer o mesmo quando acontece de dormirem numa casa: "Humm, esta casa é boa como moradia". Eles não sabiam que casas podiam ser boas como moradia, nunca tinham dormido numa; para eles, casas podiam ser boas somente como trabalho.
Mais uma posição retrógrada da Igreja Católica
As posições do papa realmente são revoltantes - principalmente a posição dele quanto a carros, já que ele usa uma Saveiro com um aquário na parte de trás para andar por aí. Sério, uma Saveiro?
17 de abril de 2007
Não me mate, eu produzo muitas riquezas
Ontem, após ter noticiado o massacre na universidade americana, a âncora do Jornal da Globo disse, segundo a minha memória: "E a pergunta que fica é: como esse massacre pôde acontecer no país que mais produz riquezas no mundo?" Gostaria que, se possível, alguém me indicasse estudos que apontam a proporcionalidade inversa entre massacres em universidades e produção de riquezas.
13 de abril de 2007
Conto policial (early draft)
Gustavo me desafiou a escrever um romance policial. Eu confesso que não sou capaz, mas escrevi o começo de um "conto", algum dia termino:
Era tarde e a rua brilhava com o reflexo do sol sobre as poças de água acumulada depois da chuva. Fazia calor, mas o vento amenizava a sensação de ardor sobre a pele. Na terceira esquina anda Olecram, o qual tem o nome invertido, vejam bem, por essa ser uma característica estilística muito idiota adotada por vários escritores. Ao fazer uso deste artifício, advirto logo de início o leitor para não esperar nada de muito surpreendente, e, de fato, que espere o mais supérfluo e clichê do que é disponível na literatura. Olecram, embora anagrama de Marcelo, é na verdade mulher, jovem, inocente, e tem uma arma apontada para seu rosto.
O fato torna-se tanto mais misterioso quando notamos que não há ninguém segurando a arma contra Olecram. De fato, Olecram estava parada em frente à vitrine de uma loja de armas, de modo que o manequim da vitrine da loja apontava seu rifle exatamente para a maçã da bochecha direita da moça - peço que o leitor não estranhe que haja, no mundo onde se passa esta história, lojas de armas com manequins segurando rifles.
Depois de alguns minutos de estupor, em que não fez mais que admirar os artigos da loja disponíveis para contemplação, Olecram entrou no local, com uma firme resolução de que compraria o tal rifle que observara. No balcão estava um velho com chapéu de caça, sobrancelhas brancas que se encontravam e olhos cansados. Olecram arrependeu-se logo após passar pela porta da loja, mas o vendedor já a vira e seria estranho que ela fosse embora imediatamente. Decidiu trocar palavras com velho, que foi o primeiro a falar quando ela se aproximou:
- É Olecram, certo?
- Absolutamente! Chamo-me Anagram [Aqui constará uma nota do editor dizendo o seguinte: "O autor quis fazer um jogo de palavras, visto que o nome original da personagem já era um anagrama."]
3 de abril de 2007
20 de fevereiro de 2007
Uma Crítica a Deus
Deus pode tudo. Tudinho, sem exceção. Pode fazer o que bem entender, é só querer. E, bem, Ele mandou Jesus para o mundo para livrá-lo dos pecados dos homens, etc, etc, etc, aquela história toda. Jesus então morreu, ressuscitou, tomou uma caipiroska, enfim, houve uma grande trabalheira para redimir os homens. Mas eu pergunto: se Deus pode tudo, mas tudo mesmo, não seria mais fácil ele ter simplesmente querido livrar os homens dos pecados e pronto? Assim ficariam todos felizes, sem pecados, e sem aquele aborrecimento de Jesus ter que morrer e tal. E funcionaria: Deus pode.
Jesus livrar pecados do mundo é como se eu quisesse chegar do outro lado do meu quarto, mas em vez de dar dois passos para a direita, desse a volta ao mundo pela esquerda. Meu lado economista também fala alto: foi economicamente caro demais. Houve os gastos com o sustento de Jesus até a maioridade, pregos, cruz, tempo; o mesmo resultado poderia ser obtido por Deus a custo zero. Estou ciente de que Deus não está muito preocupado com os custos de nada, porque ele pode fazer qualquer coisa sem gastar nada, mas ele podia se preocupar com os custos para nós, reles humanos.
Um problema do cenário que eu proponho (i.e., Deus faz tudo, Jesus não existe, eu fico milionário repentinamente) é que a coisa perderia muito do glamour literário. Mas Deus poderia nos fazer simplesmente achar isso esteticamente bonito e pronto.
Talvez Deus não quisesse interferir diretamente no mundo para não ferir o livre-arbítrio, por isso enviou Jesus. Porém, a isso respondo: Deus poderia simplesmente dar um twist na lógica interferir no mundo sem interferir no livre arbítrio. E Ele pode fazer isso, porque Deus kicks ass.
Jesus livrar pecados do mundo é como se eu quisesse chegar do outro lado do meu quarto, mas em vez de dar dois passos para a direita, desse a volta ao mundo pela esquerda. Meu lado economista também fala alto: foi economicamente caro demais. Houve os gastos com o sustento de Jesus até a maioridade, pregos, cruz, tempo; o mesmo resultado poderia ser obtido por Deus a custo zero. Estou ciente de que Deus não está muito preocupado com os custos de nada, porque ele pode fazer qualquer coisa sem gastar nada, mas ele podia se preocupar com os custos para nós, reles humanos.
Um problema do cenário que eu proponho (i.e., Deus faz tudo, Jesus não existe, eu fico milionário repentinamente) é que a coisa perderia muito do glamour literário. Mas Deus poderia nos fazer simplesmente achar isso esteticamente bonito e pronto.
Talvez Deus não quisesse interferir diretamente no mundo para não ferir o livre-arbítrio, por isso enviou Jesus. Porém, a isso respondo: Deus poderia simplesmente dar um twist na lógica interferir no mundo sem interferir no livre arbítrio. E Ele pode fazer isso, porque Deus kicks ass.
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