18 de março de 2015

Postscript



E viveram felizes para sempre.

Foi assim que a história desse casal, homem & mulher, terminou e uma nova fase em suas vidas começou. Antes da frase "E viveram felizes para sempre", os dois passaram por uns maus bocados, te contar. Mas superaram tudo, ficaram juntos apesar de toda a oposição dos inimigos e nunca mais deixaram de ser felizes. Nunca mais.

"E viveram felizes para sempre" foi um encanto, mais provavelmente maldição. Os dois se tornaram literalmente incapazes de sentir tristeza ou infelicidade.

Sério. Sua felicidade era inabalável, meio bizarra, assustadora. Amigos comentavam, cochichavam entre si, mandavam fotos no WhatsApp -- e no Telegram que é bem melhor, eram amigos inteligentes for the most part -- mostrando o casal sorrindo, rindo, eufórico, em qualquer situação, especialmente nas mais inapropriadas. Mantinham distância porque tinham medo de serem sugados para a loucura daquela felicidade eterna.

A mãe do homem morreu, mas ele estava lá no funeral com sua esposa, gritando para os céus que a vida era incrível, o quanto tudo aquilo valia a pena viver, que a morte de sua mãe foi o melhor que lhe poderia ter acontecido, e que no dia seguinte ele estaria mandando um rapel na Chapada Diamantina. Chamou os parentes para participarem. Sua esposa, no mesmo funeral, enfatizou sua alegria por estar presente naquele momento mágico, destacou seu amor pela falecida sogra e anunciou aos presentes sua gravidez. Os presentes, de luto de cima a baixo, não sabiam se felicitavam o casal ou prestavam suas condolências.

A gravidez foi de trigêmeos. Chegou ao quinto mês, mas a mulher caiu das escadas de seu apartamento. Seu marido ria enquanto a mulher sangrava no chão. "Que maravilha", "que sensação fantástica", exclamavam enquanto o médico fazia a curetagem após o inevitável aborto. Postaram uma foto no Instagram -- a mulher pálida e anêmica, mas com um sorriso de orelha a orelha.

O casal continuava feliz, sempre. Contra todos os prognósticos, parecia estar cada vez mais satisfeito. O perfil dos dois no Facebook -- sim, como no Orkut, mantinham um perfil de casal --, porém, não mentia. Eles mostravam para todos que estavam felizes, alegres e postavam sobre cada situação, mesmo as mais deprimentes. O que outras pessoas esconderiam na internet, eles usavam no peito como medalha, como prova de que o mundo era benigno. Capotaram o carro certa vez. O carro explodiu e publicaram foto do desastre na timeline falando da beleza do fogo.

O homem havia se tornado analista de sistemas numa megacorp, amava o trabalho, vestia a camisa da empresa, explodia de emoção a cada exercício de team building dos recursos humanos. Dinâmicas de grupo só lhe davam mais oportunidades para espalhar seu panglossianismo pelos quatro cantos do universo. Seu chefe pedia, como chefes fazem pra não ter que pagar um salário decente, 110% de dedicação. Ele dava 120%. Quando resolveram cortar pessoal, perguntaram se aceitaria 30% a menos no seu salário para continuar com a empresa. Ele falou para reduzirem 50%, porque nós só vivemos uma vez, somos resto das estrelas, o importante é se desapegar e ter em mente o que realmente importa, o milagre que é estarmos vivos.

A mulher, depois da interrupção da gravidez, voltou a seu trabalho e foi demitida logo a seguir. Era coisa legalmente duvidosa, só que ela não se importava. Estava fisicamente debilitada, mal conseguia andar por muito tempo, mas espiritualmente parecia estar ainda mais contente.

O casal chegou ao abismo financeiro. Perderam a casa e quando pessoas próximas buscavam ajudá-los, diziam que estavam felizes, bem, nada poderia estar mais perfeito em suas vidas. Suas famílias tentavam intervir, sem sucesso.

Os pais da mulher conseguiram, finalmente, intervir e enviá-la para instituição psiquiátrica. No manicômio, ainda parecia sorridente a cada vez que era presa a uma cama. Não conseguia falar, dopada, mas seu semblante traía seu entusiasmo por estar naquele local, envolvida por aquelas pessoas únicas.

Já o homem viveu nas ruas por um tempo. Não sentia falta de sua esposa, porque estava sempre ocupado pensando sobre como vivemos no melhor dos mundos possíveis. Eventualmente foi atropelado enquanto vagava durante uma noite admirando as sombras nas ruas. Seu para sempre terminou ali.

Meu dedo está no Print Screen, meus inimigos não têm onde se esconder



Ludwig Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-Philosophicus ("Tratado Lógico-Filosófico", pros menos boiola) detalhou o relacionamento da linguagem com a realidade, os limites da ciência, da lógica e o caralho, elaborando 7 teses principais que eu total não entendi.

NÃO OBSTANTE, acho que todos podemos concordar que, neste 2015 da graça do Senhor, devemos acrescentar um postulado às 07 teses originais de Wittgenstein, a saber:
8. Aquele que printar o comentário informal no Facebook de uma pessoa aleatória, e postar tal print como forma de ridicularizar essa pessoa, automaticamente vence o debate e está logicamente correto e é irrefutável.
A internet e as redes sociais mudaram a forma como interagimos e debatemos uns com os outros. E a forma como fazemos isso no Facebook é tirando prints da tela e salvando imagens pra escrotizar pessoas da ideologia oposta.

É inacreditável que outras culturas e épocas não dispusessem desse método para resolver indubitavelmente e de uma só tacada todas as questões.

E se você quer ficar com aquela sensação de alegria e aconchego, aquela satisfação que somente estar certo pode oferecer, você também pode ganhar um debate agora mesmo! Basta entrar no Facebook, printar o comentário de uma pessoa qualquer por aí e postá-lo em seu perfil &/ou em páginas ou em grupos de pessoas ideologicamente similares para linchamento coletivo.

Nada pode fazer você se sentir melhor, mais correto e justo do que ridicularizar o comentário de um anônimo na internet.

PS.: Não é necessário printar o comentário de alguém relevante. O que você quer? Debate com nuances ou vitória esmagadora? Então não sai salvando imagens com comentários de pessoas com alguma credibilidade pra não dificultar o seu lado, hein. Literalmente qualquer idiota serve pra você provar que tá certo.

Línguas são fascinantes


Take it, take it.

Este é o lead de notícia recente do Estado de S. (por que nem ela nem a Folha usam o "ão"?) Paulo:
BAURU - "Melhor morrer de vodka (vodca) do que de tédio." A frase do poeta russo Vladimir Maiakóvski está entre as citações favoritas do estudante de Engenharia Elétrica Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, em seu perfil no Facebook. O jovem morreu após sofrer coma alcoólico durante festa organizada por alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, no interior de São Paulo, no sábado, 28.
Nota: Apesar dos avançados mecanismos anticópia do jornal, eu fui capaz de burlá-los e postei este trecho do texto aqui, pois sou um hacker e não tenho medo das consequências desse ato de radical violação da propriedade intelectual da Estadão Corp.

Anyway, a notícia, que fala desse moleque que bebeu até morrer, como acontece de vez em quando, começa assim:
"Melhor morrer de vodka (vodca) do que de tédio."
Olha, na moral, vou ter que agradecer aqui à edição deste centenário jornal por ter colocado entre parênteses a tradução da misteriosa palavra "vodka". É "vodca".

Direto eu lia a palavra "vodka" e pensava "Nuss, que diabos é isso?", sem jamais ter minha dúvida esclarecida. Olhava-me no espelho diariamente, minha expressão cada vez mais decadente. "Ora, diabos! O que é esta infame 'vodka'?", eu me perguntava, enquanto andava pelo meu quarto em movimento circular, colocando os braços na minha frente, com as palmas viradas para o alto, em expressão de dúvida exasperante.

Mas finalmente a família brasileira pode dormir sossegada porque foi sanada a dúvida daqueles que não têm tempo para pagar 360 horas-aula de curso do idioma russo.

Vodka significa vodca. Who knew?

Me lembra um pouco de quando eu era moleque e li num gibi (caramba, lembra dessa palavra, "gibi"?) do Cebolinha que ele ia jogar "videogueime".