
E viveram felizes para sempre.
Foi assim que a história desse casal, homem & mulher, terminou e uma nova fase em suas vidas começou. Antes da frase "E viveram felizes para sempre", os dois passaram por uns maus bocados, te contar. Mas superaram tudo, ficaram juntos apesar de toda a oposição dos inimigos e nunca mais deixaram de ser felizes. Nunca mais.
"E viveram felizes para sempre" foi um encanto, mais provavelmente maldição. Os dois se tornaram literalmente incapazes de sentir tristeza ou infelicidade.
Sério. Sua felicidade era inabalável, meio bizarra, assustadora. Amigos comentavam, cochichavam entre si, mandavam fotos no WhatsApp -- e no Telegram que é bem melhor, eram amigos inteligentes for the most part -- mostrando o casal sorrindo, rindo, eufórico, em qualquer situação, especialmente nas mais inapropriadas. Mantinham distância porque tinham medo de serem sugados para a loucura daquela felicidade eterna.
A mãe do homem morreu, mas ele estava lá no funeral com sua esposa, gritando para os céus que a vida era incrível, o quanto tudo aquilo valia a pena viver, que a morte de sua mãe foi o melhor que lhe poderia ter acontecido, e que no dia seguinte ele estaria mandando um rapel na Chapada Diamantina. Chamou os parentes para participarem. Sua esposa, no mesmo funeral, enfatizou sua alegria por estar presente naquele momento mágico, destacou seu amor pela falecida sogra e anunciou aos presentes sua gravidez. Os presentes, de luto de cima a baixo, não sabiam se felicitavam o casal ou prestavam suas condolências.
A gravidez foi de trigêmeos. Chegou ao quinto mês, mas a mulher caiu das escadas de seu apartamento. Seu marido ria enquanto a mulher sangrava no chão. "Que maravilha", "que sensação fantástica", exclamavam enquanto o médico fazia a curetagem após o inevitável aborto. Postaram uma foto no Instagram -- a mulher pálida e anêmica, mas com um sorriso de orelha a orelha.
O casal continuava feliz, sempre. Contra todos os prognósticos, parecia estar cada vez mais satisfeito. O perfil dos dois no Facebook -- sim, como no Orkut, mantinham um perfil de casal --, porém, não mentia. Eles mostravam para todos que estavam felizes, alegres e postavam sobre cada situação, mesmo as mais deprimentes. O que outras pessoas esconderiam na internet, eles usavam no peito como medalha, como prova de que o mundo era benigno. Capotaram o carro certa vez. O carro explodiu e publicaram foto do desastre na timeline falando da beleza do fogo.
O homem havia se tornado analista de sistemas numa megacorp, amava o trabalho, vestia a camisa da empresa, explodia de emoção a cada exercício de team building dos recursos humanos. Dinâmicas de grupo só lhe davam mais oportunidades para espalhar seu panglossianismo pelos quatro cantos do universo. Seu chefe pedia, como chefes fazem pra não ter que pagar um salário decente, 110% de dedicação. Ele dava 120%. Quando resolveram cortar pessoal, perguntaram se aceitaria 30% a menos no seu salário para continuar com a empresa. Ele falou para reduzirem 50%, porque nós só vivemos uma vez, somos resto das estrelas, o importante é se desapegar e ter em mente o que realmente importa, o milagre que é estarmos vivos.
A mulher, depois da interrupção da gravidez, voltou a seu trabalho e foi demitida logo a seguir. Era coisa legalmente duvidosa, só que ela não se importava. Estava fisicamente debilitada, mal conseguia andar por muito tempo, mas espiritualmente parecia estar ainda mais contente.
O casal chegou ao abismo financeiro. Perderam a casa e quando pessoas próximas buscavam ajudá-los, diziam que estavam felizes, bem, nada poderia estar mais perfeito em suas vidas. Suas famílias tentavam intervir, sem sucesso.
Os pais da mulher conseguiram, finalmente, intervir e enviá-la para instituição psiquiátrica. No manicômio, ainda parecia sorridente a cada vez que era presa a uma cama. Não conseguia falar, dopada, mas seu semblante traía seu entusiasmo por estar naquele local, envolvida por aquelas pessoas únicas.
Já o homem viveu nas ruas por um tempo. Não sentia falta de sua esposa, porque estava sempre ocupado pensando sobre como vivemos no melhor dos mundos possíveis. Eventualmente foi atropelado enquanto vagava durante uma noite admirando as sombras nas ruas. Seu para sempre terminou ali.