2 de agosto de 2021

Opinion-giving has outlived its usefulness



Caso um dia eu venha a morar nos Estados Unidos, jamais conversarei diretamente com qualquer pessoa. Minhas respostas vão ser sempre laboradas e dirigidas a um terceiro imaginário que me assiste.

— Gostaria de aproveitar esta oportunidade para falar das condições de trabalho dos empregados dos galpões da Amazon, que, como se sabe, têm pausas para ir ao banheiro cronometradas.

E que ninguém me venha com "Senhor, aqui é um Wendy's", afinal toda existência é uma plataforma. Se eu existo e discurso, é meu dever moral-social falar das mazelas, das questões sociais que nos afligem, que, elas próprias, são referendadas socialmente.

— O que importa neste momento é que mostremos solidariedade com os funcionários (colaboradores?) da Activision-Blizzard, que se levantaram de seus postos de trabalho em protesto ao degradante & aviltante ambiente de assédio sexual que impera naquela corporação.

Você achou que eu apenas pegaria meus trocados para pagar meu Monster branco, mas, ao ouvir a cobrança de US$ 1.99 + sales tax, usei minha plataforma para a evolução do corpo social. Score!

Como viver nos EUA sem ter seu cérebro absolutamente massacrado pelo cognitive load das Questões Importantes do país?

As consequências do Twitter para o Discurso Público não serão apreciadas por gerações. Eu olho apaixonadamente para o horizonte lembrando da época em que o Povo Brasileiro era protegido da influência deletéria dos EUA pela barreira linguística.

Aldos Rebelos achavam que todo o problema viria de Big Macs substituindo o angu com carne moída do trabalhador, mas a influência insidiosa dos Estados Unidos se faz sentir de forma mais sorrateira.

Agora, se americanos decidem marchar em protesto para derrubar estátuas de escravocratas, o brasileiro procura, atabalhoadamente, por estátuas para derrubar também em suas ruas. Tateia, às vezes encontra uma, derruba a do Borba Gato por falta de opção melhor, e assim começa um debate no qual não se diz, mas é subentendido, que o amor pelos EUA é a força motriz de toda ação.

E, enquanto você me interrompe, eu me despeço com:

— Parabéns a Simone Biles pela coragem de não participar da prova de solo nas Olimpíadas. Heroína.