
[Parte 1/?]
1
Como chegamos aqui? No chão, neste instante, vemos um sujeito, mãos por trás da cabeça, quase que em posição fetal, enquanto uma ambulância está no céu, voando em sua direção. Cerca de três pedestres observam o evento extraordinário que transcorre próximo à estação Carioca no centro do Rio de Janeiro.
Segundos antes, um bueiro explodia e o motorista da ambulância perdia o controle do veículo. Quando estava prestes a assumir o controle de volta, um soldado da PMERJ que andava casualmente pelo entorno, assustado com o barulho de pneus cantando contra o asfalto, rapidamente ergueu seu rifle e deu tiros em 4 direções diferentes. Nesse ponto, o motorista da ambulância perdia o pouco controle que havia recuperado e batia as rodas contra um meio-fio. O carro voava. E agora, estava no céu, prestes a esmagar o pobre coitado que estava em seu caminho, caminhando até o metrô.
2
Cinco horas antes, Marcos Alves de Cerqueira (MAC, eventualmente apenas Mac) estava sentado em seu computador no trabalho. Enquanto Analista de Excel, Marcos chega às 9h da manhã e, abre o Excel e começa a digitar =SOMASE. Muitos =PROCV e =PROCH depois, ele sai do serviço. Com sorte às 18h. Em dias normais, sabe Deus. Um dínamo de produtividade, alguém que devia ser mais valorizado desde que nós, enquanto espécie, fizemos as pazes com o fato de que todo trabalho é digitar dados no Excel. Ao digitar no Excel, sonhos se tornam reais, os desejos humanos são tirados do éter e materializados. Com suficientes planilhas, smartphones são criados, carros são montados, foguetes enviados ao espaço.
— Faaala, seu ordinário. — Flávio "Caça" Caçapava tinha esse jeito eminentemente irritante de se aproximar. Falando, chegava perto de quem estivesse trabalhando e massageava a nuca do infeliz.
— Pô, Caça, tô trabalhando. Olha o tanto de Excel que tem pra hoje.
— Bicho, só quero saber se a gente vai sair depois disso aqui, hoje você tá fazendo 8 anos de empresa. Moleque, isso não é pra ninguém. Como tu ainda não é Supervisor de Excel? Mas a gente tem que comemorar.
Marcos concordou em sair pós-expediente para pelo menos parar com a massagem na nuca. Mac e Caça se conheciam há cinco anos. Mac era o melhor amigo de Caça. Caça não era o melhor amigo de Mac. Esse era o relacionamento que os dois mantinham.
Apesar de várias células que ainda gritavam para ser preenchidas na tela do computador, Mac decidiu colocar a bolsa nos ombros e sair do trabalho às 18h30, antes que Caça saísse da copa, onde aparentemente enfrentava um problema com o pedal da lixeira, e saltitou acelerado até o elevador do prédio. Antes que a porta fechasse, porém, Caça colocou o braço entre as portas encontravam. Elas se abriram novamente e ele deslizou para dentro como uma enguia.
— Tava gritando pra tu segurar, ouviu não? — perguntou Caça.
— Ouvi nada.
— Pra onde a gente vai?
— Bom, vamos lá na Cinelândia tomar um chopp. — Mac estava resignado. — Antes, deixa eu ir no banheiro aqui do prédio.
E, para escapar do compromisso, Mac correu para o banheiro do prédio. Ao sair, vendo Caça deslizando freneticamente todas as fotos do Tinder para a direita, viu ali sua chance para sair pela porta de trás do edifício, circular o quarteirão, chegar no metrô e talvez chegar na Zona Oeste antes das 10.
Escapulindo, depois de dar precisamente 18 passos ao longo da calçada, Mac foi surpreendido por um absurdo clarão no céu, daqueles que só vemos gravados por dashcams na Rússia.
Numa fração de segundo, uma espécie de portal se abre cortando o corpo de Mac na vertical, exatamente ao meio — invisível de frente, óbvia pelos lados. Esse portal, se é que se podia chamá-lo assim, era como a superfície de um lago em que centenas de pedras foram jogadas ao mesmo tempo com o intuito de quicar até o mais longe possível. Num instante, desapareceu. Mac parecia ter mudado, embora fisicamente permanecesse igual.
As bordas do ambiente ali, no RJ central, pareciam se desmanchar naquele fim de tarde. Não era o sol, que sumia, era a realidade se desfazendo.
Explodem vários bueiros pela cidade, o que em geral não seria grande surpresa senão pelo número. Um deles perto de Mac.
O motorista da ambulância Unimed que circulava por ali no momento, sem carregar ninguém, pensava em ligar a sirene para cortar o trânsito caótico do horário quando o mundo pareceu vir abaixo. O motorista perdeu o controle, desviou do bueiro explosivo, se assustou com o tiro do PM e capotou o carro.
Mac sequer notou o evento paranormal por que havia passado logo antes de perceber a viatura médica piruetando em sua direção.
3
Neste instante, a ambulância está parada no céu. Não, ela não está parada no céu por instrumento narrativo obtuso. Ela está literalmente alçada no céu enquanto o tempo transcorre. Um brilho fraco emana de Mac, que está no chão, turtling.
Passam dez segundos e a morte não vem. Nenhum sangue em vista. Mac se levanta e segue com três batidas higiênicas na calça jeans. Olha para trás e a ambulância ainda flutua no céu. O motorista, lá dentro, parece ter caído de cara no para-brisa quando o cinto de segurança afrouxou por conta da falta de impacto. Olhos arregalados para a cena de outro mundo, Mac abriu os braços num reflexo, que foi acompanhado pela ambulância que foi totalmente despedaçada.
Não destruída como num impacto ou como se algo cortante a tivesse atingido. Foi gentilmente desmontada. Suas roscas e parafusos caíram inteiros no chão. O motorista foi assentado gentilmente na calçada. Os pneus foram as únicas coisas que caíram do céu com relativa violência.
Mac olhou para os lados, suas mãos estavam envoltas por um efeito fogoso inacreditável — inacreditável porquê ridículo, CGI de baixa qualidade. No entanto, era real.
Caça, a alguns passos de distância, testemunhou tudo. Boquiaberto, derrubou uma pasta, que espalhou várias folhas com planilhas impressas intituladas “Análise/Excel — JUN”. Correu para perto de Mac.
— Maluco. Irmão. Tu tem superpoderes.
— Cala a boca, ô retardado. Tem nada disso aqui, não. — Mac estava atordoado. Normalmente ele manteria a diplomacia com um colega de trabalho.
— Moleque, tinha faísca saindo da tua mão. Olha o que aconteceu aqui, esse monte de porcariada espalhada pelo chão.
— Bicho, pelo amor de Deus, vamos embora daqui.
Mac acelerou o passo. Caça foi buscar a papelada caída no chão e correu para alcançá-lo a seguir.
— Como isso rolou? Você descobriu isso agora? O que aconteceu? Como tu nunca me contou que podia, sei lá, destruir coisas com o poder do pensamento? É isso? — Caça não largaria o osso.
— Não tem nada acontecendo, eu não descobri nada e você não viu nada.
— Fala sério, porra. O que você vai fazer com essa parada agora?
— Não tem nada pra fazer, bicho. Tá achando que eu sou americano? Que eu vou virar herói. Não tem “história”, não tem “jornada” aqui. Brasileiro vai pra casa e preenche umas planilhas durante a semana.
Mac entrou na estação da Carioca deixando para trás não só Caça, mas também uma aglomeração quase festiva de gente querendo saber o que tinha acontecido. Faróis estavam inteiros no chão. A maca da ambulância repousava calmamente sobre o asfalto. Um engarrafamento se formava. O motorista da ambulância estava em choque.
Marcos Alves de Cerqueira estava em pé no metrô. O sistema de som anunciava “Estação Cardeal Arcoverde” e ele ficou examinando atentamente a própria mão como um jogador inspeciona sua arma em Counter-Strike: GO ao apertar F.
— Superpoderes? Isso aqui não é Nova York, filhote. — murmurou.
[Continua]