16 de setembro de 2016

Quando o feminismo foi longe demais



Em uma época na qual o que mobiliza os corações mais simplórios redes sociais são disputas entre milk shakes de redes de fast food, é importante que marcas de maquiagem como a Quem disse, Berenice? coloquem o pau na mesa e façam campanhas que fazem as perguntas difíceis.

Pode querer ter filho? Pode. Pode não querer ter filho? Também pode. Foda, feminismo redux, parabéns à consultoria de marketing feminista por ser uma risk taker, trendsetter. Mais marcas deveriam estar nessa vanguarda.

Próximas perguntas da campanha:

  • Mulher pode votar? Pode. Mulher pode não votar? Pode (R$ 3,50 de multa).
  • Mulher pode ter propriedades? Pode. Mulher pode não ter propriedades? Pode muito.
  • Mulher pode se divorciar? Pode. Pode continuar casada? Também pode!
  • Mulher pode sair à noite sem o marido? Pode. E com o marido? Ah, se não pode!

  • É assim que eu gosto da minha publicidade, ativismo e posicionamento sobre questões muito atuais, controvérsias presentes na vida pública.

    Infinitas possibilidades, tudo sempre questionando as barreiras impostas pela sociedade ao feminino enquanto vende maquiagem.

    Considerando sua faceta edgy recém-descoberta, acho até que a Quem disse, Berenice? acharia 100% kosher mandar umas paradas tipo "Mulher trans é mulher? Sim, fodam-se as radfem", "Aborto até 9 meses? Pode, sim" (se mandassem essa última, eu comprava as porcariadas deles pra distribuir na rua).

    Eu quase consigo imaginar o brainstorming dos infelizes da agência de publicidade que fizeram essa merda, anotando as paradas mais mongolóides pra sinalizar o pertencimento da marca aos anos 10.

    Couch activism é coisa do passado, 2016 vai ficar marcado mesmo como a era de ouro do low stakes activism.

    15 de setembro de 2016

    Golpe, eterno devir



    As Testemunhas de Jeová sempre estão postergando a data da volta de Jesus porque ele nunca realmente volta. Achavam que seria em 1878, depois em 1881, 1914, 1918, 1925 e 1975.

    O golpe, por outro lado, sempre começou numa data anterior. Nós achávamos que o golpe tinha apenas sido iniciado em 2016 com a deposição da Líder Suprema Dilma Rousseff, mas na verdade a articulação vinha desde 2015, ou talvez 2014 com a reeleição. Na verdade, tudo começou com o julgamento do mensalão de 2010, que já deu as bases pra destruir o PT.

    Se pensar em termos mais amplos, porém, o golpe começou em 2006, com o próprio Mensalão, que jamais foi provado. Ou melhor, por que não, começou com a sabotagem do Fome Zero em 2005, incorporando-o ao Bolsa-Família.

    Talvez o golpe tenha começado em 2002, com o ressentimento das elites pela eleição de LILS.

    É possível, ainda, que o golpe seja um estado permanente. Como a revolução trotskista só era possível em constante renovação, o golpe também é recorrente e jamais termina. Não há começo e fim do golpe, ele é um fluxo, como o ciclo da água, interminável, sempre renovado.

    O golpe não é apenas uma ocorrência, mas uma ideologia (golpismo), um pensamento que perpassa gerações, desvinculado de qualquer fato em si. Os golpes enquanto acontecimentos foram apenas manifestações do Golpe real, ideal.

    O golpe é como uma entidade em 4D da qual nós, presos em 3 dimensões espaciais, só conseguimos ver uma manifestação incompleta e ocasional.

    Deve ser entendido como atemporal, até inevitável, o golpe nem mesmo precisa de pessoas, porque é atrelado à organização lógica do universo.

    O movimento do golpe é tão inevitável quanto o movimento das placas tectônicas. É irredutível.

    O golpe não acontece. O golpe é.

    11 de setembro de 2016

    Entrevistando adolescentes de 17 anos com camisa dos Ramones no Lollapalooza



    — Você conhece alguma música dos Ramones?
    — De quem?
    — Da banda da sua camiseta.
    — Não.
    — [Vira] Corta aí, esse vai pra edição. Já foram 10 imbecis que não conhecem a banda.
    — Por que você está usando uma camiseta listrada?
    — ...
    — Você conhece a história da moda ou está fazendo um fashion statement sem conhecer o conteúdo por trás dos padrões que veste?
    — É uma camiseta listrada sem maior conteúdo interpretativo, semioticamente irrelevante.
    — O vídeo que você vai publicar de mim presume que minha prerrogativa de utilizar uma roupa está sujeita ao meu conhecimento aprofundado sobre os códigos representados nela. Acho que você deveria tirar sua roupa.
    — Seu argumento quer justificar a alienação completa, a falta de engajamento do ser humano com o objeto utilizado. Se a pessoa não conhece os códigos sensíveis impressos na sua camisa, por que usá-la? Se, pelo contrário, não for requerido um conhecimento mínimo daquilo com que temos contato na vida, não se trataria de uma existência irrefletida e, portanto, sem valor?
    — Se sua ideia requer o envolvimento intelectual & cultural com os objetos com que nos relacionamos, justificando assim o seu emprego, qual o seu nível de conhecimento a respeito da tecnologia de amplificação de áudio que você está usando para gravar a minha voz? E sobre o cinema, que emprestou a você e a seu colega as técnicas de gravação de imagem? Conhece a história e os desdobramentos da tecnologia? Quais os contextos que os tornaram possíveis?
    — Ora, mas isso é irrelevante porque não trata do conteúdo que produzo, mas de sua forma.
    — Fair enough, então qual a profundidade de seu conhecimento narrativo e sobre as técnicas de humor que você vai empregar para me humilhar na internet? Seu conhecimento é meramente técnico e reprodutivo? Por que essas técnicas têm ressonância psicológica?
    — Não é necessário conhecer os elementos constitutivos do humor, narrativamente ou psicologicamente, para conhecer empiricamente o que engendra o riso.
    — Também não é necessário conhecer uma banda para ter fruição estética com o uso de uma camisa com a sua estampa.
    — Existe qualquer exercício estético no uso de referências imagéticas sem conteúdo?
    — Quem disse que são sem conteúdo? Minha fruição não tem absolutamente nada a ver com a musicalidade da minha camiseta. What gets me off é o pertencimento à tribo, é poder vir a um espetáculo de música e estar próximo a meus amigos. A camisa é um signo desse pertencimento, nada mais. Ela não dá qualquer informação extra sobre mim, nem mesmo sobre qual é a minha filosofia estética geral; ela apenas informa que eu sou seguidor de certa moda, em determinado contexto, dadas dinâmicas sociais específicas.
    — Você, portanto, recusa uma extrapolação identitária que o enquadre como hipócrita por não conhecer determinados signos culturais que supostamente estaria vindicando.
    — Precisamente.
    — Advoga uma fluidez identitária radical, segundo a qual minhas conclusões primeiras a respeito de você jamais seriam capazes de carregar qualquer mérito.
    — Sim. Minha camisa pode representar que sou fã dos Ramones, mas também que eu apenas gosto de camisetas pretas e formatos circulares. Talvez eu seja um typography nut e goste do arranjo da fonte. Eu posso ouvir Luan Santana, Anitta, Wesley Safadão, Wilco, Sex Pistols, nada disso tem qualquer materialidade ou consequência maior.
    — O público para quem eu produzo esse tipo de vídeo, porém, vê estreita relação entre diversos nodos filosóficos e estéticos, incapaz de desatar o uso de uma camiseta do hasteio dela como manifesto cultural.
    — Eu sei. Você e seu público são imbecis.

    23 de agosto de 2016

    Genialidade



    Existem gênios precoces na matemática, na física, na música. Peças incríveis compostas aos 7 anos, doutorados concluídos aos 12, mas onde estão os gênios do secretariado?

    É pedir demais um guri de 15 anos que virou o mundo da biblioteconomia de cabeça pra baixo?

    O mundo da terapia ocupacional jamais será o mesmo depois das descobertas fundamentais desta criança de 11 anos.

    Sacaneiam os trabalhos de pós em humanas, só que devia rolar mais desses mestrados escrotaços, desses doutorados que soam muito idiotas e saem no G1. Passou da hora de uma evolução (quase coloquei um "r" entre parênteses antes) fodona em como encaramos a hotelaria. Análise crítica da hotelaria. Um perceptivo ensaio sobre a ontologia da hotelaria. Novas fronteiras do conhecimento do turismo (hehe).

    A socialização ocidental não permite a genialidade em humanas, impede o surgimento de prodígios onde ora só se fuma maconha e faz ciranda, and I for one will not stand for it.

    "Ah, mas os gênios da física vão solucionar a nossa futura crise energética. O que um gênio do secretariado vai solucionar?"

    Amigo, eu saberia se nossa sociedade não DESPREZASSE esse conhecimento.

    22 de agosto de 2016

    Pesquisas no mundo todo apontam que a primeira lição de pessoas altamente produtivas é ler o máximo possível de artigos sobre produtividade na internet



    Como Peter Parker tenta se livrar da dominação de Venom, eu tento fugir do meu relacionamento simbiótico com o Facebook. Procuro conteúdo fora de lá pra consumir, tipo o monte de artigos que o Pocket me recomenda, mas o problema é que quando você sai do Facebook, todo mundo acha que você precisa de Muito Mais Produtividade. Aí o Pocket força Dicas de Produtividade pra cima de mim. Muitos textos sobre produtividade. Getting stuff done (sigla: GSD).

    Vivendo em 2016, óbvio que todo mundo vai pensar que você é um CEO de startup -- todo mundo que você vê na rua é CEO de startup, não existe um lugar nesse mundão que não esteja povoado de CEOs de startup --, por isso a prioridade do universo é aumentar sua produtividade. E o jeito mais fácil de saber o que fazer é lendo artigos na internet que desviam sua atenção.

    Hábitos que você precisa ter pra ser mais produtivo. Coisas que você tem que parar de fazer pra ter mais produtividade. Apps fuderosos que vão fazer você produzir pra caralho.

    Artigo irado circula por aí falando do guarda-roupa de executivos de sucesso. Tipo, o Mark Zuckerberg só usa camisetas pretas, porque aí ele não tem que pensar no que usar todo dia, aumentando escandalosamente sua produtividade. Muito foda, isso que é otimizar processos. Concluo que o único jeito de ser produtivo é micromanaging coisas irrelevantes tipo a cor da camisa que eu vou usar todo dia. Fique obscenamente rico e se vista que nem mulambo.

    Descobri que o cara que criou o Asana, aplicativo de task management, pega 5 copos d'água no começo do dia e deixa em cima da mesa, pra não perder tempo indo até o bebedouro durante o trabalho. Um exemplo; a vida do maluco deve ser uma ejaculação permanente de produtividade. Um dínamo de criatividade que não pode ser impedido por necessidades de hidratação.

    Embora satisfeito com minha overall improdutividade, já comecei a adotar essas várias dicas na minha vida, por pressão dos artigos recomendados no Pocket. Tenho certeza de que serei uma força em Silicon Valley em alguns anos, quando todos perceberem como me tornei produtivo graças à minha forma 100% otimizada de snort coke.