11 de setembro de 2016

Entrevistando adolescentes de 17 anos com camisa dos Ramones no Lollapalooza



— Você conhece alguma música dos Ramones?
— De quem?
— Da banda da sua camiseta.
— Não.
— [Vira] Corta aí, esse vai pra edição. Já foram 10 imbecis que não conhecem a banda.
— Por que você está usando uma camiseta listrada?
— ...
— Você conhece a história da moda ou está fazendo um fashion statement sem conhecer o conteúdo por trás dos padrões que veste?
— É uma camiseta listrada sem maior conteúdo interpretativo, semioticamente irrelevante.
— O vídeo que você vai publicar de mim presume que minha prerrogativa de utilizar uma roupa está sujeita ao meu conhecimento aprofundado sobre os códigos representados nela. Acho que você deveria tirar sua roupa.
— Seu argumento quer justificar a alienação completa, a falta de engajamento do ser humano com o objeto utilizado. Se a pessoa não conhece os códigos sensíveis impressos na sua camisa, por que usá-la? Se, pelo contrário, não for requerido um conhecimento mínimo daquilo com que temos contato na vida, não se trataria de uma existência irrefletida e, portanto, sem valor?
— Se sua ideia requer o envolvimento intelectual & cultural com os objetos com que nos relacionamos, justificando assim o seu emprego, qual o seu nível de conhecimento a respeito da tecnologia de amplificação de áudio que você está usando para gravar a minha voz? E sobre o cinema, que emprestou a você e a seu colega as técnicas de gravação de imagem? Conhece a história e os desdobramentos da tecnologia? Quais os contextos que os tornaram possíveis?
— Ora, mas isso é irrelevante porque não trata do conteúdo que produzo, mas de sua forma.
— Fair enough, então qual a profundidade de seu conhecimento narrativo e sobre as técnicas de humor que você vai empregar para me humilhar na internet? Seu conhecimento é meramente técnico e reprodutivo? Por que essas técnicas têm ressonância psicológica?
— Não é necessário conhecer os elementos constitutivos do humor, narrativamente ou psicologicamente, para conhecer empiricamente o que engendra o riso.
— Também não é necessário conhecer uma banda para ter fruição estética com o uso de uma camisa com a sua estampa.
— Existe qualquer exercício estético no uso de referências imagéticas sem conteúdo?
— Quem disse que são sem conteúdo? Minha fruição não tem absolutamente nada a ver com a musicalidade da minha camiseta. What gets me off é o pertencimento à tribo, é poder vir a um espetáculo de música e estar próximo a meus amigos. A camisa é um signo desse pertencimento, nada mais. Ela não dá qualquer informação extra sobre mim, nem mesmo sobre qual é a minha filosofia estética geral; ela apenas informa que eu sou seguidor de certa moda, em determinado contexto, dadas dinâmicas sociais específicas.
— Você, portanto, recusa uma extrapolação identitária que o enquadre como hipócrita por não conhecer determinados signos culturais que supostamente estaria vindicando.
— Precisamente.
— Advoga uma fluidez identitária radical, segundo a qual minhas conclusões primeiras a respeito de você jamais seriam capazes de carregar qualquer mérito.
— Sim. Minha camisa pode representar que sou fã dos Ramones, mas também que eu apenas gosto de camisetas pretas e formatos circulares. Talvez eu seja um typography nut e goste do arranjo da fonte. Eu posso ouvir Luan Santana, Anitta, Wesley Safadão, Wilco, Sex Pistols, nada disso tem qualquer materialidade ou consequência maior.
— O público para quem eu produzo esse tipo de vídeo, porém, vê estreita relação entre diversos nodos filosóficos e estéticos, incapaz de desatar o uso de uma camiseta do hasteio dela como manifesto cultural.
— Eu sei. Você e seu público são imbecis.

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