1 de dezembro de 2015

Hitler assassinado



O progresso da ciência ocorre pela necessidade — e qual não foi a supresa da humanidade ao notar que uma das suas necessidades mais persistentes, a de voltar no tempo e matar Hitler, havia sido atendida.

Desde 30 de abril de 1945, a humanidade se encontrava bem tristinha, macambúzia, sem saber o que fazer, chutando pedrinhas, porque ninguém mais poderia ter o prazer de tirar a vida do sanguinário ditador. Em 2015, porém, seu desejo foi atendido e as pessoas passaram a formar uma fila para entrar no portal direto para Berlim circa 1933, pós-incêndio do Reichstag, quando Hitler e os nazistas já eram bem ruins, mas não tinha rolado ainda toda aquela parada problemática dos campos de concentração

(Era uma grande preocupação dos nossos cientistas evitarem que os prospectivos time travelers evitassem qualquer situação pré-crime, de condenar Hitler por crimes ainda não cometidos, mas que ele inevitavelmente cometeria, pois era Hitler. Quafeestão moral, precisamos ter agência e conceder o benefício da dúvida para as pessoas, mesmo que essas pessoas sejam sanguinários ditadores racistas que já cometeram crimes no passado que se tornará o futuro.)

Apesar dos altos preços da viagem no tempo, acessíveis somente ao 1%, se muito, o número de pessoas que voltou ao passado era espantoso. Famílias inteiras juntaram suas economias de uma vida para enviar seus melhores assassins ao passado. (Judeus curiosamente sub-representados, mas pagaram muitos mercenários para tomarem seu lugar; sempre racionais, não vão se arriscar fisicamente no pretérito quando podem continuar ganhando Nobéis no presente.)

A surpresa foi generalizada para os viajantes ao perceberem que não haviam sido automaticamente transportados para o gabinete do ditador, mas sim para pontos aleatórios da então altamente policiada e vigiada capital alemã. Entre os milhares de sujeitos, começava então uma corrida para ver quem conseguiria chegar primeiro até Hitler.

Nesse interim, muitos foram presos. A SS não conseguia compreender donde surgiam tantos revoltosos, a maioria dos quais mal falava três palavras de alemão. As fronteiras estavam seguras, as fábricas tinham olhos, as ruas policiadas. Mesmo assim, brotavam potenciais assassinos do Führer; as autoridades não conseguiam contê-los.

Os únicos que conseguiam parar os time travelers justiceiros eram os próprios time travelers justiceiros. Conseguiam se identificar e corriam para chegar o mais rápido possível até a sede da chancelaria. Muitos nem sabiam onde se encontrava o tal prédio, agiam em manada, seguiam uns os outros. Logo, milhares de pessoas cercaram o local, prontos para entrar -- mas olharam uns para os outros e perceberam que não teriam o privilégio de matar Hitler por conta própria: teriam que disputar com outros cretinos que total não mereciam aquela glória e alegria.

Perceberam que seus interesses eram opostos, conflitantes, que o sonho dum era também doutro, que se um seria lembrado no futuro como assassino de Hitler, o outro não seria, que todos a não ser um não chegariam a ser nota de rodapé nos livros de história da época de que saíram.

Começaram a se matar. Como em Hotline Miami, um golpe era suficiente para matar, porque não tem ninguém tanking neste conto. Alguns usaram tijolos, pedaços de pau, cassetetes que haviam transportado de 2015. Ocasionalmente um sobrevivia mais tempo, agonizava, acabava pisoteado.

Só um fulano, o cara mais normal, mais mediano e, por isso, imperceptível, passou pelas frestas, adentrou o palácio incólume e chegou até Hitler. Aquele era o momento. Ele poderia vingar todo um povo que viria a morrer num futuro que deixaria de acontecer. Ele poderia ser um herói para sempre lembrado em todos os livros de história.

Hitler só notou a presença do seu assassino quando ele já erguia a faca que havia trazido. Mas na hora do golpe, Hitler mostrou um lampejo de humanidade em seus olhos. Era notável. O viajante do tempo não conseguiu matá-lo. Percebeu que ali, na verdade, vivia uma pessoa assustada, escrava das próprias ações, uma boa pessoa no cárcere que montou para si mesma, existencialistamente.

Ficaram amigos. Hitler deixou de ser o ditador maléfico da Alemanha nazista e não chegou a cometer nenhuma das atrocidades por que lembramos dele. Na verdade, se você parar pra pensar, nem deve mais lembrar de fato o que Hitler teria feito, porque suas ditadorzices foram todas apagadas pelo poder da ciência & do amor.

Com seu novo amigo, Hitler descobriu o poder da amizade, do afeto e do carinho. Não mais tentou dominar toda a Europa pela força, pela violência, tanques e blitzkriegs, mas sim com discursos emotivos, com o coração pulsante, com o poder contagiante de sua bondade. Hitler era um cara carismático, para bem e para mal, e fez questão de exibir seu amigo em toda a sua turnê europeia, que uniu todos os povos sob a bandeira do amor. Toda a questão com a Polônia foi resolvida quando os alemães estacionaram seus Fuscas e deram flores a toda a população. Como André Singer, os nazistas sabiam que, para resolver todo atrito, o que precisava haver era uma aliança de todos, dando as mãos, como amiguinhos, reconhecendo os laços fraternos de toda a vida humana, esquecendo por ora aquela vibe stormfront que tinham encampado no começo como delírios adolescentes.

Enquanto isso, aqueles que guerrearam na frente do palácio da chancelaria e sobreviveram, os milhares ainda restantes, se recolheram e continuaram a armar. Fundaram, ilegalmente, embora sem repressão -- pois Hitler só acreditava na amizade --, o Partido Antihitlerista.

Na clandestinidade, não acreditavam nem por um segundo na mudança do ditador, cujas roupas deixavam os tons rígidos e agora adotavam coisas mais carinhosas como o azul bebê, o verde pálido e o rosa calcinha.

Meses após a mudança, Hitler anunciara que havia dominado toda a Europa -- não pela violência, mas pela compaixão, fazendo com que todos os líderes ocidentais finalmente olhassem nos olhos uns dos outros e se compreendessem. A Europa havia se tornado o "espaço vital" alemão, onde só "vigoraria o amor, para todo o sempre".

Durante o anúncio da conquista, os membros do Partido Antihitlerista finalmente têm sucesso no assasinato do antes ditador, agora amigo do povo, Hitler. Jamais confiaram nos seus novos ideais e, no escarcéu resultante, tomaram o poder. Golpe bem sucedido, nível CIA na Guatemala, talvez até nível CIA no Irã.

Sedentos por sangue, os antihitleristas dominaram toda a Europa, governaram com mão de ferro, apossaram-se de todo o aparato educacional, pretendendo ensinar às crianças tudo o que precisam para não se tornarem novos Hitlers, educando-as para os horrores da visão de mundo nazista enquanto punem dissidentes.

Tudo o que era necessário para que as pessoas se esquecerem-se do pesadelo que foi Hitler foi instaurado: grandes passeatas de lembrança do que Hitler significava, outdoors que forçavam as pessoas a se lembrarem do trauma que Hitler foi, policiamento ostensivo e vigilante de todas as esquinas para evitar o surgimento de novos sentimentos hitleristas.

Hitler foi destruído.

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