3 de junho de 2011

There's a huge dildo, we might as well bend over

Todos os domingos no Fantástico, Max Gehringer nos ensina a ser melhores empregados submissos. Querendo ter emprego no Brasil, é melhor seguir à risca todas as orientações dele.

Tenha espírito de liderança, mas não tanto, pode amedrontar o chefe. Tenha fluência em cinco línguas, mínimo. Seja pontual, dinâmico, pró-ativo, confiante, comunicativo, responsável, discreto, experiente, interessado, organizado, motivado, disponível, bonito, elegante, sensato, bem relacionado.

Na dinâmica de grupo, seja líder, mas ouça. Obedeça, mas dê ideias. Adapte-se e acate. Não ligue para sugestões contraditórias, odeie sugestões contraditórias. Se puder, leve um cafezinho para o chefe durante a entrevista de emprego.

Enfim, é complicado.

Estou meio cansado de ter que ficar implorando para me contratarem. O idioma corporativo também não cai bem com pessoas que têm algum amor próprio. E tem dias que eu acordo e pronto, estou com amor próprio.

Acho que as relações trabalhistas têm que mudar. Está muito fácil para os empregadores. Muito pouca concorrência.

Se depender de mim, o governo implode amanhã. Zero impostos, zero regulamentações. Qualquer um pode concorrer com o mundo todo. Agora eu quero ver. Sem o governo segurando as empresas no colo, elas que vão ter que ficar correndo atrás da minha mão de obra.

A partir de então, os prospectivos empregados seriam aqueles a ditar as regras.

Me entreguem seus currículos, empresas, talvez eu aceite que vocês me paguem. Se seus sites forem ruins, já era. Se a emissão de carbono for excessiva, nem tentem. Se o portfólio for ruim, sem chance.

E essas empresas que colaboraram com nazismo que se acham tão boas, vivem julgando todo mundo? It's go time. Não têm a menor chance comigo: IBM, Volkswagen, Siemens, Coca-Cola, Hugo Boss, Kodak. Esse pessoal colaborando com a censura chinesa, não esperem muita simpatia também, certo, Google, Microsoft?

A entrevista vai ser na minha casa. Não vou ficar me deslocando mais para poupar seus recursos, empresas.

Quando chegarem aqui, eu que vou entrevistar o RH de vocês, não o contrário. Se eu pedir um cafezinho, vocês têm que trazer. Se eu mandar dançar, vocês dançam. Não vou aceitar representante homem de RH também. Tem que ser mulher. Os trajes têm que ser sérios with a hint of slutty.

Minha entrevista será composta por perguntas como "Quais são suas maiores qualidades e defeitos?", "O que tem feito ultimamente que demonstre sua capacidade de tomar iniciativa?" e "Você se considera uma empresa líder?".

Suas respostas estarão sempre erradas, não se preocupem.

Ao final, eu vou colocar os nomes das empresas numa caixinha e sortear quem vai ser contemplado com o meu trabalho.

Decorações

Casas de praia são invariavelmente decoradas como casas de praia. Elas não são decoradas como casas que acontece de serem localizadas na praia. Elas têm que gritar "SOU UMA CASA DE PRAIA E NÃO ME ENVERGONHO DISSO". Aí penduram na parede um peixe de madeira, uma vara de pescar, uns panos coloridos, redes se entrecruzando. Quartos têm beliches. Praias aparentemente têm uma fixação com beliches.

Deve haver um número desproporcional de coisas feitas de palha. Cadeiras? Palha. Estofados? Nunca. Substituir por trançados de palha. Tons pastéis, cores quentes em vez de azuis e roxos.

É um tanto bizarro, eu não vejo ninguém que mora aqui na Avenida Beira-Mar em Recife colocando folhas de coqueiro na parede e tomando seus drinks em copos de madeira envernizados. Mas mudou para uma cidade estritamente litorânea, a casa tem que refletir essa mudança.

Casas que não estão na praia não são decoradas como "casas de cidade". São decoradas como casas. Se fôssemos aplicar esse padrão de decoração de acordo com o ambiente, como ficaria a cidade?

Cadeiras de concreto? Faixas de trânsito no chão? Se você morar perto da favela, é melhor substituir a piscina por um pouco de esgoto a céu aberto.

Casas na zona rural vão ter que se virar com chão de terra batida. Casa no sertão tem que ser completamente vazia por dentro. Se bem que eu acho que isso não é lá muito longe da realidade, né.