25 de dezembro de 2006

Dude, I'm so smort

O natal deste ano passou tão rápido que eu quase não vi nenhum espertão falando "O natal não tem nada a ver com Cristo, era só a data em que os romanos comemoravam o solstício de inverno! LOLOL".

19 de dezembro de 2006

Breve observação

Hoje, num parachoque de caminhão, vi escrito "Não me inveje. Trabalhe" (na verdade, não tinha esse ponto no meio da mensagem, era tudo direto, "Não me inveje trabalhe", mas eu pensei que "inveje trabalhe" não faria muito sentido como locução verbal e modifiquei. Acho que vocês aprovam a mudança, certo?).

Ou seja, todas essas meninas que escrevem "Sua inveja é a velocidade do meu sucesso!" (de forma menos compreensível, claro) nos títulos de seus fotologs, se tivessem nascido um pouco mais pobres, seriam caminhoneiras.

Que ironia, não?

16 de dezembro de 2006

Uma História Verdadeira

A árvore de Natal da minha casa, que tem dois metros de altura, está montada na frente da janela, num lado da sala, e do outro lado, em frente à árvore, montamos um presépio, colocamos um candelabro de velas vermelhas e uma Bíblia enorme aberta sobre um suporte em cima de uma mesinha. Uma típica e bonita decoração de Natal. Os bonecos do presépio eram, eu não sei qual o nome daquele material, acho que de porcelana, ou algo aparentemente tão resistente quanto. Eram, como de costume, os três Reis Magos, José, Maria e Jesus. Estavam sobre uma espécie de ninho de palha, como os ninhos de passarinhos, precisamente.

O fato é que todos os dias deixamos, eu e minha mãe, a janela aberta quando saímos de casa, porque se a fechamos fica tão abafado quanto uma estufa - o ambiente ia ficar tão quente que as plantas iam crescer como as raizes que ocupam a mansão em Jumanji. Pois então. Ao voltarmos para casa à noite, sempre estávamos encontrando pedaços de palha no chão, mas pensamos que era culpa do vento, que podia estar derrubando os bonecos do presépio e espalhando as partes do ninho. Mas era recorrente. Mesmo quando não deixávamos a janela inteiramente aberta, encontrávamos pedaços de palha no chão. De tanto caírem todos os dias, dois Reis Magos do presépio quebraram; Jesus agora vai ter que se contentar somente com ouro ou mirra ou incenso.

Foi no domingo passado, quando acordei, que vi que, na verdade, era um passarinho salafrário (ou melhor, um casal de passarinhos salafrários) que estava roubando os pedaços de palha do presépio. Não eram pardais, mas eu não entendo nada de passarinhos, de qualquer forma, se os interessa, eram uns passarinhos com barriga amarela. Decidimos começar a fechar a janela para não termos mais que dividir a palha da manjedoura do Filho de Deus com o filho de dois passarinhos. De qualquer forma, desistimos da idéia de deixar o presépio sobre um ninho de palha, pois de qualquer jeito os bonecos ficavam mal equilibrados nele.

Mas mesmo assim, sem ninho e sem janela para passarinhos entrarem, continuávamos encontrando pedaços de coisas no chão. Dessa vez eram pedaços da nossa própria árvore de Natal, fiapos dos galhos, espalhados pelo chão. Noutro dia, eu e minha mãe notamos que os passarinhos ainda estavam entrando no apartamento, a partir da cozinha, e de lá seguindo para nossa sala. A cozinha fica no lado oposto do apartamento, de modo que se deve entrar pelo outro lado do prédio pelas basculantes de lá, ou pela janela da área de serviço, para entrar na nossa sala-de-estar. Imagino que esse seja um esforço hercúleo para passarinhos minúsculos com cérebros do tamanho de um amendoim, porém o que mais perturbava era a obsessão daqueles passarinhos em arrancar pedaços das nossas coisas para montar seu ninho. Por que nos haviam escolhido? Há tantas porcarias na rua de acesso mais fácil!

O motivo de tanto esforço era simples: eles já haviam montado um ninho enorme na nossa árvore e nós não havíamos percebido (é uma árvore bem grande, afinal). Era quase que totalmente constituído das palhas roubadas do presépio, mas também contava com pedaços da própria árvore e com as falsas penas das pombinhas brancas que servem de enfeite. Ah, e não, não havia nenhum ovo lá dentro.

Sei que essa não é uma história impressionante ou nada do tipo, mas eu achei bem interessante o esforço de dois passarinhos para montar um ninho e, depois, para ter acesso a ele. Ah, e também nós não deixamos os dois passarinhos consumar seu casamento dentro da nossa casa: tiramos o ninho de dentro da árvore. Afinal, não podemos permitir que dois passarinhos ladrões tenham um filho, passando para o filhote todos aspectos de suas personalidades vilanescas; nós já vivemos num mundo corrupto demais.

4 de dezembro de 2006

Três escritores que desistiram de mim

O meme para falar de três escritores de que eu desisti chegou até mim, via Gustavo. Mas não acho que seja acurado dizer que eu desisti desses escritores; eles é que desistiram de mim. O que se pode esperar de um escritor que desistiu de me ter como leitor senão a mais completa mediocridade?

Um dos que desistiram de mim foi J. R. R. Tolkien. Depois de ler as mil e trezentas páginas de O Senhor dos Anéis, eu já não agüentava mais atravessar mentalmente a ponte do Brandevin. As descrições que ele faz dos mapas que existem na cabeça dele são enfadonhas e cansativas e minaram qualquer chance de Tolkien de me ter como leitor. Dizem que O Hobbit é melhor, e eu o leria, mas Tolkien não me quer.

Flaubert também desistiu de mim, mas foi só porque não fez com que Madame Bovary me apetecesse desde o início. Não consegui passar do começo do livro, então acho que o autor ainda não desistiu completamente de mim, só está esperando que eu o leia novamente para me cativar. Devia estar testando minha persistência, vai saber.

E, por último, e de fato menos importante, para não dizer que acho que só grandes escritores conspiram contra mim, Dan Brown. Ele desistiu de todos os leitores do mundo. Não passei nem das 40 primeiras páginas de O Código da Vinci, mas ouvi dizer que teve gente que leu até o final para depois ser abandonada por Brown.

A propósito, o meme encontra seu dead end em mim. Não sei para quem passá-lo e nem acho que eu tenha intimidade com tantos blogueiros para sair mandando coisas para eles assim.

29 de novembro de 2006

Discurso sobre a origem da cabeça de Angélica

A cabeça da Angélica está enorme, umas três vezes o tamanho do corpo dela. Algo aconteceu para que ela ficasse tão deformada. Na minha cadernetinha, anotei as possíveis causas para a mudança repentina no tipo físico da loura: a) efeitos colaterais da gravidez; b) ela ficou inteligente demais, como o Macaco Louco, das Meninas Superpoderosas, e ela deveria começar a usar um capacete tapando metade da cabeça; c) a cabeça dela está inchada devido a pancadas no nariz de Luciano Huck. Só existem essas possibilidades.

Hahahaha, só estava brincando, é claro que não há a menor possibilidade de alguma dessas hipóteses absurdas ser a causa real. Doh!

Nós, espectadores do Video Game, sabemos que o verdadeiro motivo de a cabeça de Angélica ter aumentado tanto é seu emagrecimento. Ela está magra demais, com uns ombrinhos de cabide, umas perninhas que parecem umas varetas... Imaginem como está agora a "sexy mancha" (apud Gustavo) da coxa dela? Deve estar cobrindo a perna inteira! - devido ao aumento proporcional de sua área em relação à perna, para os desavisados que não entenderam.

E pensar que em tempos melhores, a apresentadora cantava:
Sou loura romântica da TV
Tenho a sexy mancha na nítida coxa
No meu peito bate um coração de fogo sagitário
Sou loura, loura romântica
A coxa já não é tão nítida, esses bons tempos não voltam mais.

12 de novembro de 2006

Oh, Canadá

Uma das tags que aparecem no Last.fm para a música Build Your Cages do Pulse Ultra é "Canadian music that doesn't suck". Em direta concorrência com o resto da música canadense (Alanis Morissette e o tecladista careca do David Letterman), a tag não deixa de ter certa razão.

8 de novembro de 2006

Sambe para mim, Beyonce

Minha ausência por tanto tempo se deveu ao fato de o meu computador estar quebrado. Meu computador está sempre quebrado. Ele passa quase tanto tempo no conserto quanto nós, humanos, passamos sobre os colchões Ortobom. Quando eu não postar aqui, pode apostar 10 mangos que meu computador quebrou, retorno garantido.

Deve ser o clima da cidade, Recife é muito quente e úmido, não é bom para computadores. E tem feito dias quentes deveras aqui, nos quais eu poderia até fritar ovos com bacon no asfalto, se isso não fosse culinariamente repugnante.

Falando nisso, uma coisa que eu notei foi que bons títulos de livros são freqüentemente cooptados por autores ruins, já perceberam? Jorge Amado tem um livro chamado "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água". Tinha mesmo que ser do Jorge Amado? E por quê? Só porque ele viu o título voando, como uma andorinha, e o pegou primeiro? Tinha que ter uma lei contra isso.

Esqueçam o que eu disse até aqui, tenho que falar algo mais importante. Alguém de vocês aí, por um acaso, já pensou que o São Paulo parece um daqueles times de Supercampeões onde o goleiro é o melhor jogador do time? Sempre que alguém fala que o Rogério Ceni é o melhor jogador do Brasil, fico esperando que apareça na TV algum Oliver dando uma bicicleta, fazendo o gol e caindo em pé.

31 de outubro de 2006

Minha conversa com Champinha

Se a mim me fosse concedida a oportunidade de falar com o baterista do CPM22 e do Hateen, que é o mesmo, a conversa seria assim:

Eu: Champinha...
Ele: Japinha.
Eu: Claro, Champinha, claro... Mas então: por que você, podendo tocar em apenas uma banda, faz questão de tocar em duas exatamente iguais?

28 de setembro de 2006

25 de setembro de 2006

Mudei de idéia

Proibições podem trazer efeitos positivos, como por exemplo no cinema, onde a Lei Seca ocasionou filmes de gângsteres. No Brasil, no entanto, proibições causam efeitos negativos, e.g. filmes de traficantes e favelas. Certamente que proibir a gordura trans vai nos agraciar com um novo Poderoso Chefão.

21 de setembro de 2006

Por que as entrevistas pioram a cada dia

Nietzsche pensava que Sócrates havia degenerado o caráter do ateniense, mas eu só penso que a proibição das drogas degenerou a qualidade de todas as entrevistas feitas no mundo contemporâneo.

Abra qualquer revista por aí e você vai ver algum artista sendo perguntado se já usou drogas. Ele usou, porque a juventude é rebelde e tem que desrespeitar essas regras que existem por aí. Quanto mais regras há, piores ficam as entrevistas, recheadas de futilidades.

Antes de 1937, algum repórter perguntava se os entrevistados usaram drogas? Baseado na minha própria amostra imaginária de entrevistas pré-1937, eu digo que não. Esse tipo de pergunta idiota só se tornou relevante quando os governos passaram leis que proibiam as drogas.

Com esta simples observação, posso prever qual será o futuro das entrevistas:
Ano 2030:
- Você já ingeriu gordura trans?
- Já, mas só uma vez, pra curtir com a galera.

7 de setembro de 2006

Ominous Parallels

O programa eleitoral do Lula é praticamente a casa da Helena em Páginas da Vida: tem um preto, um branco, um retardado, talvez um índio.

***

Just for the record:
A Austrália perdeu, esta segunda-feira, um ícone nacional. Steve Irwin, conhecido como o «Caçador de Crocodilos», morreu ao ser atingido no coração pela cauda de uma raia venenosa, em Low Islands, na Austrália.

(...)

O acidente aconteceu na grande barreira de coral na Austrália, onde Steve estava a gravar um documentário chamado «Os Mais Mortais do Oceano».

23 de julho de 2006

Não recebo emails pornôs

De: Bruna Contreiras <brunnynha_18@hotmail.com>
Enviado: sábado, 22 de julho de 2006 21:16:29
Para: erick vasconcelos
Assunto: gesso terapeutico

GOSTARIA DE RECEBER MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O GESSO TERAPÊUTICO.
UMA MASSOTERAPÊUTA ME INFORMOU ALGO, MAS GOSTARIA DE RECEBER INFORMAÇÕES DE ONDE OBTENHO O PRODUTO.
NO ESTADO ONDE MORO NÃO POSSUO ESTA FACILIDADE.
DESDE JÁ AGRADEÇO.
AGUARDO RESPOSTA (URGENTE).


BRUNA CONTREIRAS;
JI-PARANÁ, RONDÔNIA.

15 de julho de 2006

Correr molha mais do que andar na chuva. Corolário: ficar parado na chuva te deixa seco

Procurei no Google alguma citação de Regina Casé para começar indignadamente este post, mas não encontrei, e para não deixar um espaço branco no começo do texto, inventei uma:
"Os ricos e a classe média têm que dar valor à cultura da periferia."
Regina Casé (ou terá sido a Fernanda Abreu?)
Estou realmente cansado dos defensores da cultura pobre dizerem o que eu tenho que fazer, até porque eles fazem isso com base em músicas como "tô ficando atoladinha". De hoje em diante sou eu quem diz o que todo mundo tem que fazer. Em primeiro lugar, você tem que dar valor a uma lipoaspiração, Regina Casé.

***

Atenção: a palavra "cultura" é sempre usada como proxy para algo ruim. Não querem te intimidar mostrando a real natureza das coisas ruins e colocam um rótulo respeitável sobre elas, mais ou menos da mesma forma que os travestis se chamam de "Movimento GLS", para que não percebamos que são apenas pessoas se vestindo como se vivessem num eterno Bloco das Virgens do carnaval.

***

Estou ciente e consciente de que a variedade de golpes à disposição dos jogadores de futebol durante as partidas é pequena (v.g., não se pode levar shurikens para o jogo, deixando as brigas em campo muito menos estratégicas e ninjas), mas isto já foi longe demais: chega de cabeçadas nos jogos de futebol.

Em, vejamos, muito tempo atrás a.C., os homens descobriram que podiam andar sobre duas pernas e que tinham polegares opositores (mata-piolho), que serviam para segurar colheres e para liberar os dedos indicador (fura-bolo) e médio (pai-de-todos) para atingir os olhos dos inimigos. E, put it simple, apesar de o golpe dos dedos ser um instrumento mortífero, há muito mais golpes possíveis (socos, chutes, ippons) além das cabeçadas, o que tornaria as lutas nos jogos de futebol muito mais atrativas. É uma alternativa para jogadores com irmãs piranhonas que nem o Zidane.

29 de junho de 2006

Pelo que eu prevejo uma das reportagens da Globo sobre o jogo entre Brasil e França

Repórter: Dia de jogo do Brasil é assim, todo mundo unido numa só corrente. Mas algumas famílias no país vão ficar divididas, como é o caso do Seu Pierre e da Dona Marília. O Seu Pierre é casado com a Dona Marília há 30 anos. Ela o conheceu durante uma viagem à França, os dois se casaram e vieram morar no Brasil. Seu Pierre, como vai ficar o coração durante o jogo, dividido? Vai torcer para quem?

Seu Pierre: O coração da gente fica meio dividido nessas horas, mas eu vou torcer pela França, né...

Repórter: E a senhora, Dona Marília, como vai ficar na hora do jogo? Vai ter muita disputa aqui?

Dona Marília: Ah, vai, né. Mas ele sabe que vai perder, hahahaha.

Repórter: Copa do Mundo é assim, esse clima de união! De volta ao estúdio.

28 de junho de 2006

Como Emerson se machucou sem nem ao menos ter encostado na bola no jogo contra Gana

É uma pergunta difícil de ser respondida, porque Emerson não participou de lance algum durante o jogo, o que pode ter levado os incautos a acharem que ele estava fora de campo, jogando dominó e tomando uma loira gelada. É um bom palpite, mas não foi o que aconteceu. O fato é que Emerson estava lá, como quem não quer nada, cuidando da própria vida, passeando pelo campo, quando foi abordado por uma dupla de jogadores ganeses, que mandaram ele passar a carteira. Emerson não passou, reagiu e acabou levando um tiro na perna, não podendo jogar o segundo tempo.

Que a desigualdade social é uma coisa lamentável. Ela gera toda essa violência que vemos por aí, e explica por que Gana, tendo uma das piores distribuições de renda do mundo, faz tantas faltas durante as partidas.

Fica então a lição: quando for abordado por marginais, não reaja. A palavra de ordem é O-POR-TU-NI-DA-DE.

19 de junho de 2006

Austrália fora da Copa é um must

Como Casagrande e Falcão teimam em me lembrar, embora eu não queira, porque esquecer as coisas me dá uma aura esnobe, o futebol africano está numa ascendente há vários anos. Essa evolução contínua eventualmente levará os times africanos a se classificarem duas vezes seguidas para a copa. Imagine só, duas, quase três, é como um sonho virando realidade para a África.

Aproveito um ensejo para declarar que de hoje em diante à Austrália não será permitido o ingresso na Copa do Mundo, não porque eu não simpatize com o país, o que seria razão suficiente para a proibição, mas porque ele teve a infelicidade de nascer na Oceania. Vejam bem, não é porque um país existe que deve ter oportunidade de participar da Copa. Venhamos e convenhamos, há que se ter bom senso. Não é por que um time ganha de Papua Nova Guiné nas eliminatórias que ele tem nível para ir à Copa. E fiquei sabendo que nas eliminatórias da Oceania há vários outros sub-países, como, digamos, Micronésia, Ilha de Robinson Crusoé, Tuvalu, ao que fica claro que a a proibição da entrada da Austrália na Copa é necessária.

11 de junho de 2006

A Completa História do Humor Mundial

O cinismo é a nova ironia, assim como o vermelho é o novo preto. Houve um tempo em que a ironia era o novo sarcasmo, mas esse tempo se foi junto com a monarquia absoluta. O nonsense sempre foi hors concours e nunca concorreu com os sistemas de humor alternativos.

9 de junho de 2006

José Porras, goleiro da Costa Rica

A MTV é como o japonês maluco que acha que a guerra ainda não acabou. Mas a MTV talvez até saiba que a guerra já acabou, só não sabe que a década de 60 já acabou e que, portanto, falar de sexo não é mais tabu. Tenho consciência de que 46 anos não são suficientes para notar o alvorecer de uma nova era, por isso aviso aqui para a MTV: falar de sexo não é revolucionário. Vi num programa da MTV outro dia uma discussão sobre a Madonna ser ou não revolucionária porque fala de sexo. C'mon, minha avó era mais revolucionária quando comia manga com feijão no almoço.

Sabem o Senhor Barrigudo Conservador, que não admitia que se falasse de sexo 40 anos atrás? Pois bem, ele foi vacinado. O infeliz nem se choca mais quando assiste a prova do kama sutra no Ponto Pê Game. Um triste fim para uma tão importante instituição social. O que ele vai conservar agora?

6 de junho de 2006

Decreto

De hoje em diante, Jô Soares está proibido de chocar-se com o número de pessoas passando fome no país. Não sou um grande fã de humor involuntário.

2 de junho de 2006

On Art

Tudo o que te faz perguntar a si próprio "Isso é arte?" não é arte. Tudo o que te faz perguntar a si próprio "Isso é bonito?" é arte. Quando dizem que seu conceito de arte é "muito restrito" significa que ele é correto. Tudo o que é chamado de arte hoje em dia (grafitti, esculturas de macarrão) não é arte. Uma pessoa que diz "estou só divulgando a minha arte" não faz arte. Problemas sociais não são arte. Tudo o que Ariano Suassuna diz que é cultura popular não é cultura popular, e, se algum dia foi, não é mais, e por bons motivos. Uma arte precisa de significado, do contrário não é arte, toda a filosofia pós-moderna notwithstanding. Tudo o que é financiado pelo governo via Ministério da Cultura não é cultura - nem arte (analogamente, tudo o que o Ministério do Esporte financia não é esporte, e.g. pólo aquático). Quem diz que a arte é tudo o que desperta algum sentimento em alguém está mentindo. A arte não tem função educativa - tudo o que tem não é arte, é apostila. Arte não está nos olhos de quem olha. Toda a arte moderna, por definição, não é arte, porque quer acabar com o conceito de beleza. A cultura de massa pode ser artística, mas a arte contemporânea, embora seja pop e finja não ser, não é. Duchamp não é artista. Por fim, todos os artistas que declaram ou já declararam que a arte é autônoma, que independe do artista, deveriam ser proibidos de receber pagamento por suas obras; se um artista não tem nenhum laço com sua obra também não tem laço nenhum com o dinheiro advindo dela.

1 de junho de 2006

Ana Maria Braga numa cervejaria em Munique

Estava lendo a Veja Mulher, revista de conteúdo muito interessante a mim, e vi esta entrevista com uma sujeita do New York Times (coloquei o link apenas para dar uma cor ao post, mas a periferia não vai poder acessar, é só para assinantes). A mulher é uma feminista qualquer, ou pelo menos foi o que eu entendi, porque não li todas as perguntas, nem as respostas inteiras, que diz que os homens não são mais necessários, que por sinal é o que dá o nome a um suposto livro dela (Os Homens são Necessários?). Cito um trecho da entrevista:
Veja - Como indaga o título de seu livro, os homens são necessários?
Dowd - Eles não são mais necessários. Sou uma feminista maluca etc, etc, etc.
Memo para as feministas: os homens não são liquidificadores, e, como tal, não precisam de uma utilidade. Basicamente toda a literatura feminista se concentra na tentativa de tentar provar a inutilidade dos homens para as mulheres, como se nós nos importássemos em parecer úteis em alguma coisa, como se elas nos estivessem pagando para fazer alguma coisa, que petulância. Se nós tratássemos as mulheres com reciprocidade, da mesma forma que elas nos tratam, seríamos acusados de machismo. Porque ou o homem quer uma esposa/namorada (inútil) ou uma faxineira (útil) - e é possível que até existam homens que achem que todas as mulheres deveriam ser faxineiras (e, infelizmente para eles, não são), mas, creio que por algum tipo de inclinação biológica, eles não saíram escrevendo livros sobre como as mulheres são desnecessárias.

Mas a essa colunista do NYT é permitido proferir comentários segregacionistas assim e sair incólume. Sabe por quê? Sabe? Porque ela é branca.

30 de maio de 2006

E depois de dois anos

Um novo layout. Agora posso ficar mais dois anos apenas mudando a cor deste.

10 de abril de 2006

América, o filho do Brasil

INTRODUÇÃO

Em todas as vezes que sou abordado na rua, sou indagado com muita aflição, mas, Frost, por que é que torcer para o América (do Rio, claro, que é o único que existe) é tão inofensivo? Todo brasileiro reconhece intuitivamente que o América não é um time de verdade, mas não é capaz de identificar corretamente as causas dessa sensação, e por isso permanecendo em constante estado de perturbação mental. Pretendo aqui esclarerecer todas as dúvidas acerca do assunto para, de tal forma, melhorar a qualidade de vida de boa parte da população brasileira.

AMÉRICA/RJ COMO FENÔMENO SÓCIO-PSICOLÓGICO

Todos os dias, milhares de pessoas se deparam com o mesmo problema: como explicar o fato de que torcer para o América não faz diferença nenhuma na vida de um ser humano racional? Pode-se notar que torcer para o Vasco, como eu corretamente torço, é algo que altera a vida do indivíduo. Contudo, intuitivamente percebe-se também que torcer para o Vasco e para o América ao mesmo tempo, embora sejam times da mesma cidade, não é contraditório como torcer para o Vasco e para o Flamengo simultaneamente.

POSIÇÃO DO AMÉRICA NA HIERARQUIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA

Para a consciência humana em estado normal (i.e., sem interferência de agentes exógenos como drogas, bebidas alcoólicas etc), não há contradição entre torcer entre o Vasco e o América porque este não é exatamente um time de futebol, mas antes, digamos, uma equipe de críquete, que, acidentalmente, joga futebol, talvez até usando os tacos de críquete, mas ninguém parou para prestar muita atenção. Trata-se tão somente de ramos diferentes de torcida para diferentes esportes; seria absurdo, por exemplo, tentar torcer para o Vasco num torneio de sinuca, thou shall agree.

A EMPATIA DESPERTADA PELO AMÉRICA

Neste ano, o América chegou perto das finais da Taça Rio, e rapidamente milhões de pessoas como eu e você, pessoas normais, que naturalmente torcem para um time - talvez até dois, mas em cidades diferentes -, passaram a torcer para o América. A razão disso é que o América é a criança dos times de futebol, e todo mundo gosta de criança. O feito do América, conseguir jogar futebol, a ponto de quase chegar numa final, se pode ser relacionado facilmente ao feito de uma criança de quatro anos que, esforçadamente, consegue colorir os desenhos de seu caderninho por dentro das bordas. Pessoas de coração bom apoiariam sem pensar aquela criança, mas se ela por um infortúnio viesse a borrar o desenho, ou a riscar fora das linhas, ninguém ficaria muito triste, chocado ou decepcionado. Se, por um acaso da Vida, o América começa a jogar futebol, o apoiaremos - e esqueceremos caso ele volte a não jogar.

POR QUE O HINO DO AMÉRICA É O MAIS BONITO DENTRE OS DOS TIMES CARIOCAS

Lamartine Babo é lembrado por ter escrito o hino de todos os times do Rio, dos quais o mais belo seria o do América. Como já foi demonstrado, o América não pode ser considerado um time de futebol, mas antes uma equipe de críquete, de polo a cavalo ou de marcha atlética. Por isso, quando o América joga futebol, desperta uma empatia semelhante a que sentimos por crianças, pelos nossos filhos, por causa de seu esforço num labor desconhecido. Obviamente, uma homenagem a um filho (América) é feita com muito mais sentimento do que uma homenagem a um amigo (Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo), donde se explica convincentemente o fato de o América ter o mais bonito dos hinos cariocas.

CONCLUSÃO

Não surpreendentemente, todos se esqueceram do América após ele ter sido eliminado nas semi-finais da Taça Rio. Quando nosso time oficial é eliminado de uma competição importante, lamentamos o fato, e caso isso aconteça com um time rival, lembraremos do ocorrido para importunar os torcedores adversários. Isso não ocorre com o América. Ninguém pensa em importunar um torcedor americano frustrado. A eliminação do América teve impacto psicológico nas pessoas (lembrando que é impossível torcer legitimamente para o América, ele deve ser sempre o segundo time) igual ao da eliminação de um filho de sete anos de um campeonato de karatê. Torcemos para nossos filhos em campeonatos de karatê, ficamos felizes se eles ganharem, tristes se perderem, mas não nos importamos muito. A única coisa que somos capazes de dizer é um "Parabéns, quer almoçar?", ou um "O importante é competir", ou "No ano que vem você consegue, filhão", até que esquecemos do assunto uma hora depois.

7 de abril de 2006

O Pequeno Timmy

É de conhecimento geral que há várias coisas erradas com as corridas de Formula 1, tais como Felipe Massa, mas a pior dessas é o fato de não se poder completar as corridas a pé, como em Road Rash, do Playstation, onde, se nossas motos quebrassem, poderíamos completar o percurso correndo, com o cuidado de não encontrarmos policiais no caminho que nos prendessem sem motivo - talvez por estar correndo, vai saber, esses jogos eletrônicos têm as leis mais estranhas em seus mundos virtuais. Jenson Button, no último Grande Prêmio, parou a poucos metros da linha de chegada e não pôde sair do carro e terminar a corrida a pé, o que considero um completo absurdo, porque, ora, quem precisa completar a corrida é o piloto, não o carro, caso contrário teríamos os números dos carros na tabela de classificação e não os nomes dos pilotos. Atribuo essa proibição ridícula à uma proteção à auto-estima dos pilotos de equipes obscuras com pilotos patéticos, como a Honda, que se sentiriam diminuídos sabendo que chegaram atrás de um cara que completou a prova correndo, que provavelmente ficaria dançando e cantando que chegou primeiro, tal como eu faço para ridicularizar os pernambucanos, as testemunhas-de-Jeová, os anões e outras minorias, com um senso de humor passando do ridículo engraçado para o ridículo dispensável, cuspindo na hospitalidade do estado que me acolheu.

***

Por que, mas por que você não posta com mais freqüência?, é a pergunta do Gentil Leitor Hipotético que vive na minha mente, que por sinal sabiamente não escuta Cansei de Ser Sexy. Gentil Leitor Hipotético, não tenho postado tanto por causa das minhas reuniões com os acionistas. Essas reuniões com os acionistas não têm apenas prejudicado meu desempenho no meu blog, mas também junto a minha família.

Noutro dia, cheguei em casa, cansado após um dia de trabalho árduo na empresa, e minha esposa me perguntou o que eu fazia até tão tarde na rua, ao que respondi, desanimado, "reuniões com acionistas, meu bem, reuniões com os acionistas". Ela perguntou-me então se eu ainda me lembrava de que tinha uma esposa e um filho, e lhe respondi que sim, mas que tudo o que fazia era para o melhor das pessoas que amo, que se no momento eu estava muito ausente era para no futuro dar-lhes o melhor de mim. Minha esposa perguntou-me então se eu ainda lembrava que o aniversário do Pequeno Timmy seria em uma semana, e que, afinal, eu havia prometido que iria ao jogo de baseball dele. Disse que sim, e que essa era minha prioridade. Mas nos dias que antecediam o aniversário de meu petiz, não poderia deixar de trabalhar, naturalmente.

Passou-se a semana e eu cheguei com o presente do aniversário de meu filho nas mãos, exausto, em minha casa escura, às 11h da noite, depois de várias reuniões com os acionistas, sem ter ido ao jogo do Pequeno Timmy. Abri silenciosamente a porta do quarto do Pequeno Timmy e o observei dormir, com lágrimas jazendo nos cantos de seus olhos, abraçado a um porta-retrato onde havia uma foto minha, dele e de minha esposa. Aproximei-me e pus o pacote do presente em sua mesa de cabeceira.

Idêntica situação acontece com meu blog (talvez sem presente e sem esposa, é possível também que não haja jogo de baseball, mas o ponto central permanece).

20 de março de 2006

Comentários

Denílson Monteiro me envia um email. Admoesta-me por causa de um texto antigo em que falo mal das testemunhas-de-Jeová:
Desculpe meu amigo mas o você é uma das muitas pessoas neste mundo que falam daquilo que não sabem. Li o que escreveu sobre as Testemunnhas de Jeová e achei um grande absurdo em como coloca suas observações, é um tremendo de um desinformado, saiba que não sou TJ, mas conheço a crença e os ensinos deles, quando falou do anão, gostaria de lhe informar que conheço sim, é não é nada hilário, o que é hilario e ridiculo é o seu procedimento, cresça MOLEQUE!
Está desculpado, meu amigo, e obrigado pelo conselho, acabo de comprar um biotônico e estou crescendo a passos largos. Mandarei notícias.

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Terminou a primeira temporada de Lost e as cores da vida ficaram mais desbotadas. Vocês viram o último episódio? Uns mendigos raptaram o moleque preto, o Walt, em alto mar - esses mendigos estão cada vez piores, já não estendem apenas a mão pedindo cinco centavos, mas saem seqüestrando pessoas -, provavelmente porque desenvolveram uma arma de raios movida a meninos pretos, mas o único menino preto que se encaixa perfeitamente na arma de raios é o menino preto de Lost, tal como o Sheep de "Sheep na Cidade Grande".

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Não sei se já disse isso aqui, e se já disse, digo outra vez, que viver em Pernambuco é como morar num enorme boteco. Quando eu morava no Espírito Santo, admirava o pouco apreço que os nativos davam aos times de futebol locais. Todas pessoas, porque eram sãs, não ligavam para a Desportiva Ferroviária ou para o Serra; ao contrário, preferiam humildemente torcer para os times do Rio, Vasco, Flamengo, Olaria. As conversas sobre a Desportiva e o Serra ficavam circunscritas à mesas de botecos com velhos bêbados e sem camisa, enquanto que as pessoas dignas viam jogos do Vasco na TV. Semelhante comportamento pode ser encontrado na maioria dos estados do Nordeste, que são humildes, mas não em Pernambuco, onde todos teimam em não torcer para times do Rio e São Paulo, preferindo antes, como velhos alcoolizados de Pau-de-índio, torcer para o Sport, para o Náutico ou para o Santa Cruz. E ainda arranjam nomes para cada um dos jogos entre os times (Sport e Santa Cruz: "Clássico das Multidões"; Sport e Náutico: "Clássico dos Clássicos"; Santa Cruz e Náutico: "Clássico das Emoções").

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Esta pessoa chamou uma mulher de "patética" no clipe "Jesus of Suburbia", do grupo musical Green Day.

22 de fevereiro de 2006

E o respeito aos deficientes? Mas e o respeito, meu Deus?

A diferença entre um repórter estrangeiro entrevistando a Madonna e um repórter brasileiro entrevistando a Madonna é que, enquanto o estrangeiro pergunta qual o último trabalho da Madonna, o brasileiro pergunta se ela conhece alguma coisa de música brasileira. Esse é o ponto principal da técnica de fazer entrevistas com estrangeiros, que, estou certo, não aprenderei no curso de jornalismo: deixar transparecer a imagem de que os brasileiros são megalomaníacos. E, ao final da entrevista - depois de ter perguntado se a Madonna já provou caipirinha e se já comeu feijoada -, o repórter brasileiro tem que pedir para ela "mandar um alô para os fãs brasileiros".

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A série "Percepções", ou algo assim, do Fantástico, leva uns deficientes para diferentes lugares da América do Sul para que eles experimentem diferentes sensações. Nada de especial, claro, porque eu sei que os humanos são todos como o Demolidor, que têm suas percepções aguçadas tanto maior forem suas privações. Viajam juntos um surdo, um cego e um paralítico, pelo que me lembro. O verdadeiro problema é o paralítico. Estavam outro dia as pessoas numa trilha no Deserto do Atacama, empurrando a cadeira do aleijado com uma grande dificuldade, passando por cima de pedras, porque a trilha não era espaçosa o suficiente. Então ele começou a reclamar de quem fez a trilha, dizendo que "poderiam pensar mais nos deficientes na hora de fazer essas trilhas". Qual! Tenho certeza de que quem abriu a trilha no deserto pensou que muitos paralíticos fariam travessias pelo deserto de sal!

Noutro dia, ele foi ao Equador, ver o marco da linha do Equador, e teve que subir escadas para ver o monumento. Novamente reclamou da falta de acesso aos deficientes físicos. De fato, creio que o tal deficiente pensa que monumentos e desertos são repartições públicas, que devem ter acesso para todos. Mas o melhor ainda estava por vir, quando ele visitou a cidade inca de Machu Picchu no Peru. Estava ficando decepcionado com a falta de protestos por parte do aleijado. Quando minha paciência se esgotava, ao final da matéria, o paralítico brindou os espectadores com sua revolta: "Eu sei que é difícil, mas podiam fazer umas rampas..." O que foi realmente decepcionante, porque, veja, eu esperava por algo surpreendente desta vez, como por exemplo "Malditos incas que não respeitam os paraplégicos, eu os amaldiçôo!". Mas assim é a vida, e há sempre um novo domingo pela frente com novas possibilidades.

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Estão acompanhando Lost? Tenho motivos para acreditar que Lost é uma reedição de Caverna do Dragão. Como em Caverna do Dragão, é possível que todos os personagens tenham morrido na queda do avião e que a ilha seja o Inferno. Jack é a reencarnação de Hank, só que sem o arco de força, que era a arma mais legalzona; a namorada de Jack seria, sei lá eu, a Sheila; o negão de Oz seria a Diana, e seu filho, o Bobby. Os ursos polares da ilha fazem o papel de dragão Tiamat. Provavelmente há correspondentes dos outros personagens, mas eu não fui capaz de correlacioná-los ainda. Oh, sim, há outro que me ocorreu. Aquele hobbit de O Senhor dos Anéis (o Merry ou o Pippin ou o Sam, um desses, não sei qual - são todos iguais, por Deus; enfim, vocês sabem qual é, é o que gosta da grávida), em Lost, na minha opinião, faz o papel de Uni, o unicórnio.

21 de fevereiro de 2006

Diagnóstico

Vou confessar uma coisa aqui hoje, gente; e depois dessa é possível que eu mude o nome deste blog criativamente para "No Divã". Mas tenho que confessar, ou acho que tenho. Portanto, confesso relutantemente que estou desapontado com as visitas e com a falta de comentários deste blog. Pronto, falei. Sinto falta daqueles áureos tempos em que eu tinha, digamos, 13 comentários; são comentários que fazem falta, ferem meu peito como uma flecha de prata. Mas espere, vou me acalmar. Pronto. Então, como essas visitas e comentários me fazem falta, senti uma necessidade doentia de diagnosticar o motivo de suas ausências. Creio que seja em parte por ocasião do meu retorno recente; outra causa pode ser também o fato de eu só ter leitores endinheirados que viajaram para São Paulo para assistir ao show da banda irlandesa Detonautas. Algum de vocês foi nesse showzão?

17 de fevereiro de 2006

Sugestões

Os piores espíritos do mundo estão sempre a comentar sobre os mesmos livros. O que, claro, seria um vício natural, porque, afinal, estamos falando dos piores espíritos do mundo; mas o que me incomoda especialmente é o fato de quererem sempre que eu leia os tais livros, e que aprenda, que veja uma nova realidade dantes obscura aos meus olhos. Por exemplo, insistem para que eu leia "O Nome da Rosa". Não é uma insistência sincera, mas sim velada; todos os meus professores da faculdade, a certo momento, já comentaram sobre "O Nome da Rosa". Percebo em seus olhos a paixão que empregam na tarefa de me fazer ler esse livro. Mas professores são assim mesmo, e eu não os ouço, eles não sabem o que falam, por isso fizeram teses de mestrado. O que de fato é incômodo é a vontade de não-professores de que eu leia esse livro. E complementam, profundamente crentes de que eu correrei ardorosamente para as páginas do livro, dizendo que "esse livro mostra todos os podres da Igreja Católica durante a Idade Média, cara!". Uau, big news, hein, buddy? Perco até o sono só de pensar nos podres da Igreja Católica durante a Idade Média; como se ninguém soubesse que, já naquela época, a Igreja Católica promovia raves regadas a ecstasy e sexo bizarro. Duh!

Não quero, contudo, que pensem que tenho má vontade de ler livros que me são incansavelmente indicados. Hoje, por exemplo, depois de muita insistência de muitas pessoas, comecei a ler "Feliz Ano Velho". Estou certo de que o amável leitor conhece "Feliz Ano Velho". É aquela história do cara que ficou paralítico aos 20 anos - o tal Marcelo Rubens Paiva. O prefácio, escrito por um sujeito chamado Luis Travassos, já me fez arrepender-me de não ter lido o livro antes:

"Marcelo, cara, peguei teu texto para ler em um dia de tremendo baixo astral. Como sempre acontece comigo (desde que te conheço), recebi uma porrada de energia na boca do estômago e o moral subiu dos intestinos para a cabeça."
E prossegue, apaixonantemente:

"O teu livro está um barato, especialmente porque dá pra sentir um gozo aberto tipo poker descoberto. No fundo eu acho que a transa da literatura está ligada à transa da verdade (assim como a revolução, o amor e um montão de coisas). E é aí que está todo o pique do que você escreveu. A tua história está transada de um jeito putamente terno, bem-humorado, erótico e sedutor, o que, aliás, é a sua maneira de ser. (...)

"Tem uma firmeza no teu texto que espero que você mantenha: é um texto limpo de teorias e com um puta sentimento que expressa e defende suas idéias. Por exemplo, é deliciosa a maneira como na história há elementos críticos sobre as pessoas, comportamentos etc. sem nenhuma cagação de regras ou ironias baratas, mas com uma puta firmeza."
Segundo Marcelo Rubens Paiva, Luis Travassos foi presidente da UNE em 68 e tinha 36 anos quando escreveu esse prefácio, em 1981. Em virtude de seu vocabulário, Travassos foi perseguido pela ditadura e teve de se exilar em vários países. No entanto, creio que sua morte em 1982, aos 37 anos, tenha sido devida a um soco no estômago que, além do moral, levou outras estranhas substâncias à sua cabeça. O que mostra que tenho que ser mais aberto a sugestões literárias.

11 de fevereiro de 2006

Entrevista

Em virtude de meu sumiço, há alguns dias fui solicitado pela produção da MTV a dar uma entrevista exclusivíssima, que agora publico aqui, dando minha versão da história de que eu havia morrido, contando as novidades, dando algumas dicas para a galera. Aceitei o convite e mandaram Léo Madeira para me entrevistar; depois, me passaram a gravação, que publico agora, integralmente, neste blog.

Léo Madeira: Estamos aqui com os caras do Jack Frost, que sumiram faz alguns meses e agora voltam com um novo trabalho. Frost, como vai você?
Frost: "Senhor", por favor.
Léo Madeira: Pensei que o senhor preferisse manter um ambiente informal durante as entrevistas.
Frost: De fato, mas isso não é questão de formalidade, é uma espécie de mantra para mim. Quanto mais vezes for repetido "senhor", uma aura mais positiva se criará ao meu redor, entende? Não é nada pessoal, meu jovem.
Léo Madeira: Ah, sei... Super legal. Mas o senhor acredita nessas coisas?
Frost: Piamente. Acredito em energia positiva, em aura azul e vermelha, naquele negócio de numerologia, em búzios - acredito muito mesmo em Búzios, porque já passei férias lá, é uma cidade muito bonita. Gostaria que minha mãe tivesse me batizado como "Jhack Frost", compreende?, com um bonito H na metade do meu nome, mas ela não fez isso, por causa daquele preconceito pequeno-burguês que pensa que rejeita esses nomes que melhor se alinham com o universo como "coisas de pobre". Acho um tipo de discriminação muito negativo mesmo, o senhor entende?
Léo Madeira: Senhor? O Senhor está no céu! (risos)
Frost: (risos)
Léo Madeira: (cambalhotas)
Frost: (risos)
Léo Madeira: O senhor ficou sabendo dos boatos sobre sua morte?
Frost: Sim. Mas eu não daria esse tipo de prazer a meus inimigos! (risos)
Léo Madeira: (risos)
Frost: Comigo é assim: é preto no branco.
Léo Madeira: Então por que o senhor desapareceu durante tanto tempo?
Frost: Ah, foi um lamentável episódio ocorrido com meu computador, por conta da falta de conteúdo do meu provedor. Comecei a gritar pelos corredores de meu prédio "Eu não estou aqui para sofrer!" e arremessei meu monitor pelas escadas. Logo depois eu assinei o UOL. Não calculei, porém, que seria necessário um monitor para que eu pudesse desfrutar das vantagens do UOL, o maior conteúdo da América Latina.
Léo Madeira: Compreendo. A propósito, não pude deixar de notar que o senhor está com o Caco dos Muppets na sua mão. Foi feito com uma meia?
Frost: Sim; os olhos são botões brancos com pontinhos pretos coloridos com hidrocor.
Léo Madeira: Super legal.
Frost: Claro que é. Se quiser, posso te dar a Piggie para você não ficar muito excluído; porque, você sabe, eu estou aqui me divertindo com o Caco e você está aí, fazendo essas perguntas. Sou muito comiserioso, note. Se você não aceitar esta oferta serei obrigado a lhe virar as costas. Não posso ver sofrimento sem virar as costas.
Léo Madeira: Super legal mesmo. O senhor pode pegar a Piggie para mim?
Frost: Pois não, aqui está.
Léo Madeira: E o que o senhor fez durante a ausência?
Frost: Ah, muitas coisas, sou uma pessoa muito atarefada. Vi filmes, li livros. Ler é muito bom, e a gente tem que dar o bom exemplo, não é? Pois então. Tentei até ler o Código da Vinci, eu juro, me declaro culpado! Mas é para pessoas como eu que lançaram a versão do Código da Vinci com figuras, da qual pretendo ver as ilustrações em breve.
Léo Madeira: E o coração, hein? (risos)
Frost: (risos) Tá aqui, tá batendo! Vou trazer o meu exame cardíaco na próxima vez!
Léo Madeira: O senhor sabe o que eu quis dizer...
Frost: Mas você há de entender, Léo, que não existe apenas preto e branco, existem também as tonalidades de cinza.
Léo Madeira: Super legal. O senhor quer deixar uma mensagem para os jovens?
Frost: Por que não? Eu gostaria de dizer a eles para usarem camisinha, para se cuidarem, se prevenirem, sem caô, o negócio é prevenção. Eu, por exemplo, me cuidando, me prevenindo, só tive meu filho com vinte e dois anos, quando eu quis, e não por acidente. Temos que dar informação para o jovem.
Léo Madeira: Obrigado pela entrevista, senhor Jack Frost.
Frost: Devolva a Piggie, estou com medo que você saia correndo com ela.